Revista Reformador

A gênese

1868
Sesquicentenário
2018

A gênese
Os milagres e as predições segundo o espiritismo

Os espíritas comemoramos este ano o sesquicentenário de A gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, a última obra do pentateuco espírita que fecha com chave de ouro o conhecimento básico transmitido pelos Espíritos da falange do Espírito de Verdade.

Publicada por Allan Kardec a 6 de janeiro de 1868, em Paris, a obra se revela, de certa forma, diferente das demais. Primeiro porque o livro trata de três assuntos aparentemente antagônicos (gênese, milagres e predições); segundo, porque o Codificador consegue, com maestria e lucidez intelectual, definir como interpretar as ideias espíritas por meio de uma unidade metodológica, analisadas sob a óptica da fé raciocinada. Valendo-se do aspecto científico da Doutrina Espírita, Kardec ensina como entender e aplicar as práticas do Espiritismo, as suas orientações filosóficas e as suas consequências morais. Não é pouco!

Outra não há de ter sido a razão que conduziu Kardec a inserir na Folha de rosto da obra a seguinte sentença: A Doutrina Espírita é o resultado do ensino coletivo e concorde dos Espíritos. A Ciência é convidada a constituir a Gênese segundo as Leis da Natureza. Deus prova a sua grandeza e seu poder pela imutabilidade das suas leis, e não pela derrogação delas. Para Deus, o passado e o futuro são o presente.1

Allan Kardec registra relevantes ponderações na Introdução de A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo que merecem ser lembradas. Destacamos as que se seguem:

Essa obra é um passo a mais no terreno das consequências e das aplicações do Espiritismo. Conforme indica o seu título, ela tem como objetivo o estudo dos três pontos até agora diversamente interpretados e comentados: A gênese, os milagres e as predições, em suas relações com as novas leis que decorrem da observação dos fenômenos espíritas.

Dois elementos, ou, se quiserem, duas forças regem o Universo: o elemento espiritual e o elemento material. Da ação simultânea desses dois princípios resultam fenômenos especiais que se tornam naturalmente inexplicáveis, desde que se abstraia de um deles […].

Ao demonstrar a existência do Mundo Espiritual e suas relações com o mundo material, o Espiritismo fornece a explicação de uma imensidade de fenômenos incompreendidos e, por isso mesmo, considerados inadmissíveis por parte de certa classe de pensadores [trabalhadores]. Embora as Escrituras estejam repletas de tais fatos, seus comentadores não conseguiram chegar a uma solução racional, visto desconhecerem a lei que os rege. […].

[…]

Essa solução se encontra na ação recíproca do espírito e da matéria. […].2

Um ponto relevante, enfatizado na Introdução do livro e explicitamente analisado no capítulo primeiro da obra, diz respeito ao Caráter da revelação espírita.3 O espírita esclarecido, atento à necessidade de melhor conhecer a Doutrina Espírita, deve aprender como desenvolver o adequado discernimento doutrinário. Neste sentido, é de suma importância saber distinguir o falso e o verdadeiro que podem aparecer nas manifestações dos Espíritos, ou tudo o que pode gerar conflitos com os postulados espíritas. As ideias e práticas equivocadas que assaltam o Movimento Espírita têm como origem o despreparo doutrinário do espírita, tanto por parte do encarnado quanto do desencarnado.

Eis o que Kardec tem a dizer sobre o assunto na Introdução da obra:

Antes de entrarmos na matéria, pareceu-nos necessário definir claramente os papeis respectivos dos Espíritos e dos homens [encarnados] na elaboração da nova doutrina. Essas considerações preliminares, que dela afastam toda ideia de misticismo, fazem o objeto do primeiro capítulo, intitulado Caráter da revelação espírita. Pedimos séria atenção para este ponto, porque, de certo modo, aí está o nó da questão.4

O conhecimento do caráter da revelação espírita nos fornece subsídios para compreender o verdadeiro significado de revelação; o duplo caráter da revelação espírita que “[…] participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica […]”;5 e, principalmente, esclarece a respeito da universalidade e da unidade dos ensinos espíritas que, focados à luz das consequências morais referenciadas pelo Cristo em seu Evangelho, transforma o ser humano para melhor.

Muitos desentendimentos seriam evitados se buscássemos a segurança de aplicar os critérios do caráter da revelação espírita nas ideias, interpretações e mensagens que abundantemente surgem no meio espírita, geradoras de desconfortos e perturbações variadas. Aliás, nestes tempos da transição planetária, as desarmonias manifestadas – sejam de natureza mediúnica ou anímica – representam uma estratégia habilmente utilizada pelos Espíritos perturbados e perturbadores, encarnados ou desencarnados, que agem com a finalidade de desestabilizar o trabalho espírita e do Bem na face do planeta. E não nos iludamos, pois tais Espíritos assim procedem porque encontram ressonância de suas ideias e atitudes comportamentais no trabalhador espírita que, a despeito do amor à Causa, desconhece ou pouco conhece a Doutrina que professa.

Em mensagem datada de dezembro de 1867, o Espírito São Luís faz referência ao livro A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo, então prestes a ser publicado:

Esta obra vem a propósito, no sentido de que a Doutrina está hoje bem firmada do ponto de vista moral e religioso. Seja qual for a direção que tome doravante, tem raízes muito profundas no coração dos adeptos, para que ninguém possa temer se desvie ela de sua rota. […] O Espiritismo atualmente entra numa nova fase. Ao atributo de consolador alia o de instrutor e diretor do espírito, em ciência e em filosofia, como em moralidade. A caridade, sua base inabalável, dele fez o laço das almas eternas; a Ciência, a solidariedade, a progressão, o espírito liberal dele farão o traço de união das almas fortes. […] por esse livro, como vos disse, o Espiritismo entra numa nova fase e esta preparará as vias da fase que se abrirá mais tarde. […].6

Inserimos, a seguir, trechos  de duas mensagens transmitidas por Espíritos que colaboraram na elaboração desta última obra da Codificação Espírita. A primeira, recebida em Ségur, 9 de setembro de 1867, contém esta informação:

Pessoalmente, estou satisfeito com o trabalho [o de elaboração do livro], mas a minha opinião é de pouca valia, levando- se em conta a satisfação daqueles a quem ela transformará. O que, sobretudo, me alegra são as consequências que produzirá sobre as massas, tanto no Espaço quanto na Terra.7

A segunda mensagem, transmitida em Paris, 4 de julho de 1868, afirma:

[…] Está apenas no começo a impulsão que A gênese produziu e muitos elementos, abalados por ela, se acomodarão, dentro em pouco, sob a tua bandeira. Outras obras sérias também aparecerão para acabar de esclarecer o juízo humano sobre a nova doutrina.8

A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo é, portanto, uma obra que define o papel da Ciência e do Espiritismo no concerto das Leis Divinas que regem a vida: “Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. […]”.9 Por enquanto, Ciência e Doutrina Espírita seguem caminhos distintos, salvo algumas manifestações de integração observadas aqui e acolá. Mas como em tudo há um propósito divino, cedo ou tarde acontecerá a aliança definitiva entre ambas.

[…] O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha de preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria malogrado, como tudo quanto surge antes do tempo.10

Formatação da obra

Os três primeiros capítulos da obra intitulados: Caráter da revelação espírita, Deus, e O bem e o mal, são fundamentos para o adequado entendimento do livro, em particular e da Doutrina Espírita, em geral. Como foi dito anteriormente, é imprescindível que o espírita não se descure da importância do Caráter da revelação espírita (capítulo I), cujos ensinos foram transmitidos por Espíritos orientadores que agem sob a orientação do Cristo, Guia e Modelo da humanidade terrestre. 11 Deus, anunciado no capítulo 2, revela o pensamento cristalino dos Espíritos Superiores sobre Deus, a natureza divina, a providência e a visão espírita de Deus. Isto é, livre dos equívocos que certas interpretações religiosas e manifestações teológicas imprimiram na mentalidade humana, ao longo dos tempos. O bem e o mal, apresentado no capítulo 3, revela o traçado evolutivo do Espírito que, encarnado simples e ignorante, apresenta intrinsecamente todas condições para se transformar em Espírito puro, por intermédio das experiências adquiridas na fieira das reencarnações e nos aprendizados desenvolvidos no Plano Espiritual. O capítulo apresenta também elucidações a respeito do bem e do mal, dos processos evolutivos do instinto e da inteligência, assim como dos fenômenos de destruição, naturais e abusivos, condições de aprendizagem que se assemelham a degraus ascensionais que o Espírito deve percorrer em sua árdua jornada a caminho da Luz, que é Deus. Chegado a esse patamar evolutivo, o Espírito imortal, à semelhança de Jesus, poderá então afirmar convictamente: “Eu e o Pai somos um” (João, 10:30) . Esses três primeiros capítulos devem ser considerados, portanto, como uma espécie de base, fundação ou alicerces do edifício em que a obra está erigida. Os demais capítulos estão agrupados em um conjunto harmonioso, assim expresso:

1. A gênese segundo o Espiritismo

Sob esta denominação, a primeira parte do livro expõe úteis informações sobre: a formação dos mundos e da Terra; a pluralidade dos mundos habitados; a origem, organização e transformações dos seres vivos (orgânicos) do planeta tendo como base as inúmeras aquisições realizadas pelo princípio inteligente ou espiritual ao longo das eras, e nos dois planos da vida; a criação do Espírito e da humanidade terrestre.

Enfim, estes e outros temas similares são apresentados na forma metodológica da visão sistêmica – que está mais desenvolvida nos dias atuais –, delineando-se, portanto, o encadeamento de todo o processo evolutivo, geral e particular dos astros, mundos e seres da Criação.

2. Os milagres segundo o Espiritismo

Assim nomeada, a segunda parte do livro começa por explicar, à luz da fé raciocinada professada pelo Espiritismo, o que é milagre, inclusive no sentido teológico; em seguida há esclarecimentos a respeito da visão espírita sobre o termo milagre que, ao se apoiar no aspecto científico, demonstra que o comumente denominado sobrenatural e maravilhoso, tão a gosto de algumas manifestações religiosas, confunde e perturba a ordem natural do progresso humano.

O capítulo 14 – Os fluidos, é de fundamental importância para a prática espírita, usual nas casas espíritas do passado e do presente. Trata da natureza e qualidade dos fluidos e das energias radiantes, oriundas do princípio vital; a formação e propriedades do perispírito, subproduto do fluido cósmico universal,12 estrutura semimaterial formadora do corpo físico, altamente plástica, cuja constituição íntima é diferente em cada pessoa e se modifica e se ajusta às aquisições consequentes do progresso do Espírito.13 Este capítulo também informa a respeito da ação dos Espíritos e das criações fluídicas, úteis no entendimento do controle mental e da emissão e recepção do pensamento. Os exemplos que ilustram a ação dos Espíritos sobre os fluidos são retirados do Evangelho, em  que se encontra o relato de diferentes fenômenos, até então considerados sobrenaturais, tais como: visão psíquica (dupla vista), as curas, aparições, catalepsias, ressureição etc.

O capítulo 15 – Os milagres do Evangelho, último capítulo da segunda parte, apresenta beleza e grandeza espirituais significativas, encantando o leitor atento que passa a compreender nitidamente, à luz da fé raciocinada espírita, os milagres do Evangelho.

3. As predições segundo o Espiritismo

A última parte desta admirável  obra da Codificação está formatada em três capítulos, a saber: Teoria da presciência ou o conhecimento do futuro, faculdade psíquica do ser humano amplamente manifestada  e conhecida ao longo da história da civilização humana, expressa nos profetas e médiuns; Predições do Evangelho, que analisam as predições de Jesus para a humanidade terrestre, especialmente as informações sobre os sinais precursores da fase de transição planetária (it. Sinais precursores) e sobre o juízo final (it. Juízo final), continuamente assinaladas por religiosos ainda prisioneiros de interpretações literais; e Ostempos são chegados, último capítulo do livro, que deveria ser leitura obrigatória para todos os espíritas, pois elucida acerca das mudanças ocorridas na
sociedade, sob o impulso da Lei do Progresso e da Lei de Causa e Efeito, as características fisionômicas e espirituais que se refletem no homem moralizado, apto a viver em um mundo melhor, livre das expiações.

Por último, merece considerar que A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo foi construída a partir de O livro dos espíritos, a coluna central do Espiritismo, no dizer do respeitável
baiano Deolindo Amorim (1906–1984), jornalista, sociólogo, publicitário, escritor e conferencista espírita brasileiro, tal como aconteceu com as demais obras da Codificação Espírita (O livro dos médiuns, O evangelho segundo o espiritismo e O céu e o inferno).

Os conteúdos doutrinários espíritas de A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo foram desenvolvidos por Allan Kardec sob a segura orientação da equipe dos Espíritos orientadores, a partir dos seguintes tópicos de O livro dos espíritos:

• Livro Primeiro: Causas primeiras, capítulos

2 – Elementos gerais do Universo,3 – Criação e 4 – Princípio vital;

• Livro Segundo: Mundo

Espiritual ou dos Espíritos, capítulos 9 – Intervenção dos Espíritos no mundo corpóreo, 10 – Ocupações e missões dos Espíritos e 11 – Os três reinos;

• Livro Terceiro: Leis morais, capítulos 4 – III. Lei de reprodução e 5 – IV. Lei de conservação.

REFERÊNCIAS:
1 KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013.
2 ______. ______. Introdução – À primeira edição publicada em janeiro de 1868, p. 9 e 10.
3 ______. ______. cap. 1, it. 13.
4 ______. ______. Introdução – À primeira edição publicada em janeiro de 1868, p. 10.
5 ______. ______. cap. 1, it. 13.
6 WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: meticulosa pesquisa biobibliográfica. v. 3. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998. cap. 1 (As obras espíritas de Allan Kardec), p. 286 a 289.
7 KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. Pt. 2, Extratos, in extenso, do livro Previsões relativas ao espiritismo, it. Minha nova obra sobre A gênese.
8 ______. ______. it. Meus trabalhos pessoais. Conselhos diversos.
9 ______. ______. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 1, it. 16.
10 ______. ______. p. 22.
11 ______. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016. q. 625.
12 ______. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 14, it. 7.
13 ______. ______. it. 10, p. 238.