Revista Reformador

As moradas espirituais divinas

Evangelista João anota algumas das últimas recomendações do Cristo:

Não se perturbem. Creiam em Deus e também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, Eu já lhes teria dito, pois vou preparar seus lugares. E, depois que me for e já tiver feito isso, voltarei e os levarei comigo para o Reino de Deus (João, 14:1 a 3; grifo nosso).

Perturbar, segundo o Dicionário Aurélio da língua portuguesa, significa, entre outras acepções, “causar abalo ou comoção a”. Esta acepção refere-se a “perturbar-se”. Jesus é o nosso maior exemplo de tranquilidade diante da mais absurda acusação, perseguição e morte cruel e injusta. Por já saber o que o aguardaria, disse a seus apóstolos estas palavras, que também se dirigem a nós: “Deixo-lhes a paz. Dou-lhes minha paz”. Mas, em seguida, completa que sua paz não é a que o mundo nos dá e volta a recomendar: “Não se perturbe nem se intimide seu coração” (João, 14:27).

Allan Kardec esclarece-nos que a palavra casa, no contexto da primeira frase, supracitada, representa o Universo, e as muitas moradas podem ser tanto os mundos que circulam no Universo quanto o Mundo Espiritual, que ele chamava de “erraticidade”, espaço metafísico no qual o Espírito pode sentir-se feliz ou infeliz, conforme o uso que tiver feito do seu livre-arbítrio. Por espaço metafísico entendemos as outras “moradas não circunscritas nem localizadas”, ou seja, o do Mundo dos Espíritos, que interpenetra o nosso, sem influência da matéria como a conhecemos, e que transcende os sentidos físicos normais.

É sobre esse mundo que tratamos aqui: o de nossa “morada espiritual”. Seus habitantes, os Espíritos, estão permanentemente em contato conosco, que ainda estamos na “veste física”. Nossos atos e pensamentos são observados por eles, que nos influenciam de modo a poderem até mesmo nos “dirigir” (KARDEC, 2017, q. 456 a 459).

Isso não quer dizer que não tenhamos livre-arbítrio no pensar, falar e fazer do cotidiano de nossas vidas. A responsabilidade de todos os nossos atos é, principalmente, nossa. Salvo se não tivermos controle mental deles, como no caso da loucura. Sabendo dessa poderosa influência espiritual, que pode ser muito boa, ou muito má, Jesus nos recomendou ficar atentos, orando e vigiando, constantemente, nossos pensamentos, palavras e atos (Marcos, 13:33).

Um ditado popular já nos alerta: “Diz-me com quem andas e te direi quem és”, ou seja, dependendo de nossa companhia, esteja ela no plano físico ou no Plano Espiritual, nós mostramos quem somos. Refletindo nisso, Kardec adaptou e ampliou o ditado, “[…] em relação aos nossos Espíritos simpáticos”, que nos acompanham: “Dize-me o que pensas e te direi com quem andas […]” ( KARDEC, 2009, jul. 1859).

Na questão 621 de O livro dos espíritos (2017), em resposta à pergunta de Kardec sobre onde se situa a Lei de Deus, é-lhe dito que ela está “Na consciência”. Então, essa seria outra morada da Casa de Deus. Por isso, é muito importante que evitemos qualquer atitude em relação às outras pessoas e às demais criaturas divinas que, cedo ou tarde, nos provoque remorso.

Livre da matéria, o Espírito, por efeito de sua vontade, pode ir a qualquer lugar que lhe seja permitido por Deus. Mas, ao preparar-se para uma nova encarnação, o grupo espiritual responsável por ele prepara o Espírito por meio de conselhos, esclarecimentos e estímulos para seu sucesso no retorno à vida física. Ninguém jamais fica só, seja no Mundo Espiritual, seja no mundo físico. O objetivo é sempre o do progresso, pela depuração do mal que ainda exista em cada um. Isso resulta da prática do bem e da conquista da sabedoria.

O Espírito Mesmer manifestou-se, pela mediunidade de Delanne, não o filho, Gabriel Delanne, à época muito jovem, mas a seu pai, e comunicou que não devemos elevar-nos apenas pela virtude, mas também pela purificação da matéria. Esclarece-nos Mesmer que “o mundo dos invisíveis” é como o nosso mundo físico, mas é “etéreo”, como o perispírito, “verdadeiro corpo do Espírito, haurido nesses meios moleculares”. Nosso mundo é reflexo grosseiro e muito imperfeito do existente no Além-Túmulo.

Somos, por fim, esclarecidos de que sempre houve relação entre esses dois mundos. Quando compreendermos as conexões entre as leis que os regem, a Lei Divina estará próxima de sua execução. Nesse tempo, segundo o Espírito Mesmer, cada um de nós “[…] compreenderá sua imortalidade e, a partir de então, não apenas se tornará um ardente trabalhador da grande causa, mas, também, um digno servidor de suas obras” ( KARDEC, 2015).

Há diversos outros relatos sobre a vida no Mundo Espiritual, como os das médiuns Zilda Gama, Yvonne Pereira e outros, não somente no Brasil, mas em diversos países. Também sobre a comprovação desse mundo, eterna morada da Casa do Pai, podemos citar as extraordinárias obras psicografadas por Chico Xavier, como as da série de obras reunidas sob o título A vida no mundo espiritual, pela FEB Editora, iniciada com o relato do que se passava na colônia espiritual Nosso Lar, pelo Espírito André Luiz, que deu título ao primeiro livro dessa série, num total de treze livros.

Igualmente marcantes são os relatos de Frederico Fígner, com o pseudônimo de “Irmão Jacó”, na obra intitulada Voltei (FEB Editora), por tratar-se de alguém que foi bastante conhecido no meio espírita e social do seu tempo. Não somente por isso, mas também por sua intensa atividade empresarial.

A obra do Espírito Humberto de Campos, também psicografada por Chico Xavier, é de uma fidelidade estilística tão perfeita quanto se poderia esperar de um escritor que, aos 33 anos foi considerado, no Rio de Janeiro, “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”. Nesse tempo, em 1919, Humberto era membro da Academia Brasileira de Letras e, em 1920, foi eleito Deputado Federal pelo Maranhão. Foi reeleito sucessivamente, até que a Revolução de 1930 dissolveu o Congresso.

Em 1934, no auge da carreira literária, Humberto de Campos desencarna. Três anos depois, do Mundo Espiritual, pela psicografia de Chico Xavier, proporciona-nos sua primeira obra mediúnica, intitulada Crônicas de além-túmulo. Sua primeira crônica, nessa nova morada da Casa do Pai, chama-se De um casarão do outro mundo (XAVIER, 2016).

Nesse relato, desmistifica a ideia de um céu e de figuras bíblicas ali presentes, a aguardá-lo, como São Pedro e anjos tocando harpas, cantando e sendo acompanhados por um coral. Sua conclusão, agora que se deparara com a própria sobrevivência, da qual duvidara, em vida física, é de que o mundo físico é pouco significante, em relação ao Mundo Espiritual.

Essa obra seria sucedida por outras, todas elas atribuídas ao grande escritor, político e membro da Academia Brasileira de Letras. Sua grande importância deve-se ao relato, já nessa primeira crônica, de que Humberto fora levado para um “casarão” onde ele faria diversas pesquisas do que ele chamou de “folclore” do Mundo Espiritual e viria relatar-nos em mais onze livros. O segundo deles foi o best-seller Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, que, até 2013, já tinha sido publicado 33 vezes e reimpresso quatro vezes em sua última edição.

Humberto de Campos, em vida física, adotou diversos pseudônimos. O mais conhecido deles foi o de Conselheiro XX. Do Mundo Espiritual, suas cinco primeiras obras foram psicografadas com o nome Humberto de Campos, pelo médium Chico Xavier. Após processo movido contra a FEB por sua viúva, em que a justiça deu ganho de causa à Federação, Instituição a que Chico Xavier havia cedido seus direitos autorais, o Espírito comunicante optou pelo
pseudônimo Irmão X, sob o qual ainda ditou ao médium mineiro outras sete obras.

Todas as obras mediúnicas citadas, assim como as do Espírito Humberto de Campos, são atestados vivos da realidade do Mundo Espiritual, essa Casa do Pai que antecede à vida material e nos concita a superar a influência da matéria pela prática do bem e pela aquisição do conhecimento. Em relação aos céticos de todos os tempos, Allan Kardec dizia:

É sem dúvida lamentável para certas pessoas, como para certos colecionadores, que os Espíritos não possam ser postos dentro de um garrafão de vidro, a fim de serem observados à vontade; não imagineis, entretanto, que eles escapem aos nossos sentidos de maneira absoluta. Se a substância que compõe o seu envoltório é invisível em estado normal, também pode, em certos casos, como o vapor, mas por outra causa, experimentar uma espécie de condensação ou, para ser mais exato, uma modificação molecular que a torna momentaneamente visível e mesmo tangível. Então podemos vê-los, como nos vemos, tocá-los, apalpá-los; eles podem pegar-nos e deixar impressão sobre os nossos membros. Apenas esse estado é temporário; podem deixá-lo tão rapidamente quanto o tomaram, não em virtude de uma rarefação mecânica, mas por efeito da vontade, considerando-se que sãoseres inteligentes e não corpos inertes. Se a existência dos seres inteligentes que povoam o espaço está provada; se, como acabamos de ver, exercem uma ação sobre a matéria, que há de surpreendente em que possam comunicar-se conosco e transmitir seus pensamentos por meios materiais? (KARDEC, 2009, dez. 1859).

Diversos sábios, como William Crookes (Fatos espíritas, FEB Editora), e Alexandre Aksakof (Animismo e espiritismo, 2 v. FEB Editora), confirmaram as palavras acima de Kardec. Mais adiante, o Codificador do Espiritismo esclarece:

[…] Com o materialismo, que é a crença de que morremos como animais, que depois de nós será o nada, o bem não terá nenhuma razão de ser, os laços sociais nenhuma consistência: é a sanção do egoísmo. A lei penal será o único freio a impedir o homem de viver à custa de outrem. Se fosse assim, com que direito puniríamos o homem que mata o semelhante para apoderar-se de seus bens? “Porque é um mal”, diríeis vós. Mas por que esse mal? Ele vos responderá: “Depois de mim não há nada; tudo se acaba; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível e, para isso, tomarei dos que têm. Quem mo proíbe? Vossa lei? Vossa lei terá razão se for mais forte, isto é, se me pegar. Mas se eu for mais astucioso, se lhe escapar, a razão estará comigo.” (KARDEC, 2009, dez. 1859).

Um dos mais conceituados estudiosos espíritas do século passado, tradutor das obras de Allan Kardec, foi o filósofo brasileiro Herculano Pires. Eis a conclusão a que esse pesquisador chega, em relação à contribuição gigantesca do Espiritismo, para auxiliar a Humanidade a conhecer esse mundo eterno de onde viemos e para onde vamos, após a desencarnação, sem jamais nos extinguir, mas também nos proporcionando a certeza de que nada do que fazemos aqui na Terra fica sem resposta, se não perante as leis humanas, certamente ante as Leis Divinas:

Sir Oliver Lodge, o grande físico inglês, entendia que o Espiritismo realiza uma nova revolução copérnica. Essa revolução consiste exatamente na modificação da nossa atitude em face do problema da vida. Se Copérnico destruiu a concepção geocêntrica do universo, o Espiritismo, por sua vez, destrói a concepção organocêntrica da vida. Do ponto de vista organocêntrico, que caracteriza o materialismo, a vida só é possível nos organismos vegetais e animais. O Espiritismo afirma e prova o contrário, ou seja, que a vida independe desses organismos e se manifesta por mil formas e maneiras diferentes, no Universo infinito.

Os religiosos que criticam as descrições mediúnicas do Além não deixam de aceitar essa descentralização da vida, mas não admitem a sua interpretação ou explicação racional. Apegam-se a dogmas, a princípios rígidos de fé, mantendo-se no plano do mistério. Entretanto, se convivessem um pouco mais com os textos sagrados de suas próprias religiões, veriam que a existência de cidades espirituais no além-túmulo, de habitações, vegetais e animais, não é, como supõem, uma invenção dos espíritas. O Velho Testamento e o Novo Testamento, por exemplo, estão cheios de descrições dessa ordem. Basta lembrar-se o que diz Isaías (33:17, 20) sobre “a terra de longe” e a “Sião da solenidade”, e o Apocalipse de João sobre a Jerusalém celeste (PIRES, 1989).

Tudo é vida no Universo. O nada não existe, e os Espíritos Superiores, enviados do Cristo, sob a coordenação do Espírito de Verdade, que nos retransmite seus ensinamentos morais, vêm provar, aos que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir, que somos eternos, que somos filhos de Deus e irmãos de Jesus, responsável, perante o Pai, por este mundo azul, no qual a vida pulula. E, se ainda nos encontramos imersos nas trevas da ignorância, é chegada a hora de abrirmos os olhos e os ouvidos para vermos e ouvirmos as vozes celestes que nos repetem as brandas palavras do Cristo: “[…] Irmãos! nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade” – O ESPÍRITO DE VERDADE (KARDEC, 2018, cap. 6, it. 5).

Procuremos habitar as moradas Divinas de nossas mentes, higienizando-as com bons pensamentos, com propósitos elevados, com vontade de servir. Evitemos macular a morada de Deus, expressa na Lei que reside em nossa consciência, e esforcemo-nos por combater o mal que ainda trazemos arraigado na alma. Estudemos as obras que Allan Kardec nos legou, complementadas pelos relatos dos Espíritos benevolentes, cujas informações vêm sendo confirmadas por médiuns das mais diversas partes do mundo, atendendo, assim, ao critério do consenso universal proposto por Kardec, intuído pelos prepostos do Cristo. Certamente, assim, o Céu prometido pelo Senhor estará sendo edificado dentro de nós, como é concedido, equanimemente, a cada vencedor do mal, o Reino de Deus com suas diversas moradas.

REFERÊNCIAS:
KARDEC, Allan. Revista Espírita : jornal de estudos psicológicos. ano 2, n. 7, jul. 1859. Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2009.
______. ______. ano 2, n. 12, dez. 1859. Resposta ao Sr. Oscar Comettant.
______. ______. ano 8, n. 5, maio 1865. Dissertações espíritas, it. Sobre as criações fluídicas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2015.
______. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017.
______. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2018. PIRES, José Herculano. O infinito e o finito. São Bernardo do Campo: Correio Fraterno, 1989. cap. 32 – Mensagens espíritas no exterior confirmam as recebidas no Brasil.
XAVIER, Francisco C. Crônicas de além-túmulo. Pelo Espírito Humberto de Campos. 17. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016.