Revista Reformador

Entre a dor e o sofrimento

Wesley Caldeira
weslleyscaldeira@gmail.com

“Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”, diz um verso de Cecília Meireles.¹ Uma frase parecida, de autoria ignorada, considera: “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”.

Dor é um fenômeno, sofrimento é a reação emocional ao fenômeno. A dor pode durar pouco, como numa picada de agulha, ou mais, como numa lesão ou perda afetiva. O sofrimento pode se estender por um tempo indefinido, talvez por toda a existência, ou além, na forma de ressentimento, frustração, mágoa. Como o sofrimento é capaz de sobreviver tanto? À custa de nossa energia física e mental.

Cremos que as frases acima oferecem uma reflexão útil, mas não um ensinamento exato. A dor é inevitável, está na natureza. O sofrimento é opcional, a depender da dor física, e inevitável, a depender da dor moral. Se as dores não provocassem sofrimento não proporcionariam educação. Elas possibilitam aprendizado, conhecimento, só o sofrimento faculta a transformação daquilo que somos essencialmente. O que não deveria ser é o sofrimento nos consumir.

Filósofos da Antiguidade estabeleceram um princípio que penetrou fundo na alma grega: aprender sofrendo. No idioma grego, os dois vocábulos produzem um jogo de palavras, pathei/máthos. Entendia-se que o sofrimento é que gera a sabedoria. Segundo o dramaturgo Ésquilo, “a justiça concede sabedoria somente a quem sofre”,² e o pai da história, Heródoto, utilizou o mesmo jogo de palavras, pathēmata/mathēmata, ao dizer: “os meus sofrimentos foram para mim ensinamento”.³

Demócrito propôs que o sofrimento pode ser eliminado com a busca da euthymìa (eu = normal, bom; thymos = energia vital, humor), ou seja, a serenidade de espírito, que se obtém equilibrando o ânimo entre a distimia (humor baixo) e a euforia (humor excessivo). Mais tarde, Aristóteles colocou no centro de sua ética a eudaimonia (literalmente, “bom espírito”, estado de plenitude do ser), orientando o sábio a procurar a ausência de dor, e não o prazer, e a dedicar-se ao exercício da virtude. Com isso, o mestre de Abdera e o mestre do Liceu apresentaram os elementos do ideal da imperturbabilidade, que será tão típico dos estoicos e epicuristas.

O fundador da escola estoica em Atenas, Zenão de Cítio, ensinava que o esforço para o desenvolvimento intelectual leva à virtude, fonte da felicidade. O homem virtuoso é moderado, domina suas paixões, abandona-se ao destino, nada receando, nada esperando, distanciando-se mental e emocionalmente dos interesses que podem produzir dor. Mas se a dor é presente, ele observa uma fórmula simples e severa: “suporta e abstém-te”, suporta a dor e renuncia ao prazer. A preocupação com as dores é vã, rouba a paz e perturba o espírito. Por isso, deve-se enfrentar as adversidades com calma e dignidade, fazendo do sofrimento um exercício de elevação do Espírito.

Epicuro de Samos ensinou que a dor é a ausência de prazer e a felicidade é a ausência de dor no corpo (aponia) e de perturbação na alma (ataraxia). Para ele, o mundo é feito de prazer e dor, e bem viver é aprender a buscar um e evitar o outro. Mas se a dor vier, é melhor tratá-la com o tetrafármaco, literalmente, “as quatro drogas”, uma metáfora para os quatro remédios que prescrevia para curar os sofrimentos: a) Despreocupação com os deuses – Epicuro era ateu; b) Não ter medo da morte – “Nunca nos encontraremos com a morte, porque, quando nós somos, ela não é, quando ela é nós não somos mais”;⁴ c) Não há mal que dure – é um princípio lógico, pois a história é feita de fases e de mudanças, logo, tudo passa; c) O bem é fácil – se os sentidos forem educados para os prazeres sábios.

Inspirado no ideal epicurista, Nietzsche, na história moderna, propôs uma interessante relação ética com a dor quando formulou esse aforismo: “Da escola de guerra da vida. – O que não me mata me torna mais forte”.⁵ Por que simplesmente carregar um fardo? Podemos utilizá-lo como instrumento e exercitar com ele nosso poder de superação. Grandes superações nascem de grandes dores.

No túmulo de Händel, em Westminster, Londres, sua estátua ostenta a partitura de seu maior triunfo artístico: O Messias. Entre 1736 e 1739, o compositor viveu talvez a fase mais difícil de sua existência. Enfrentava a maledicência grosseira; beirava à ruína; credores ameaçavam-no de prisão; a saúde periclitava; sofreu paralisia do lado direito do corpo; inimigos deixavam seus concertos vazios. Mas quando tudo parecia perdido, quando Händel parecia vencido, ele encontrou um tema importante: a vida e a missão de Jesus. Uma música profunda e uma rara inspiração receberam o toque de sua mestria, proporcionando ao mundo a obra que firmou sua glória na história. A primeira parte de O Messias começa com o “Ide, consolai meu povo” e fala das profecias sobre a vinda de Jesus, terminando com o “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados”. A segunda parte, dedicada à paixão do Cristo, é concluída com um dos clássicos mais cantados por corais: Hallelujah!

Schopenhauer acreditava que o desafio do homem é equilibrar-se entre as duas forças que o acompanham desde o nascimento: a dor e o tédio. No seu pessimismo explícito, ele defendeu que, de forma geral, as dores não são meros acidentes: a desgraça geral é a regra e a particular uma exceção. Mas é possível um transitório escape do sofrimento com a contemplação do belo artístico – propunha. A relação com a Arte alivia o fardo de viver, a música particularmente: “Uma sinfonia de Beethoven descobre-nos uma ordem maravilhosa […] recomendo o gozo desta arte como a mais deliciosa de todas. Ouvir longas e belas harmonias é como um banho de espírito que purifica de toda a mancha, de tudo que é mau, mesquinho […]”.⁶

Kierkegaard sustentou que a fé é o último salto existencial para o indivíduo se libertar de todo sofrimento; a fé alivia e o suplanta, é o antídoto para o desespero e a angústia.

Entre as religiões, o Judaísmo afirmou que a obediência aos mandamentos divinos protege o justo da dor. O Budismo ofereceu o caminho óctuplo para a eliminação do sofrimento: visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta, meditação correta. Sri Ramana Maharshi, mestre hindu da escola Advaita Vedanta, disse que a ideia de que “eu sou o corpo” é a semente de todo sofrimento.

Jesus foi claro quanto à nossa condição de humanidade em expiação e provas: “[…] No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, eu venci o mundo” (João, 16:33). Ele exortou ao bom ânimo e ensinou que há compensações futuras aos aflitos resignados, para os quais a dor é o prelúdio da cura: “Bem-aventurados os que choram” – disse Ele –, “porque serão consolados” (Mateus, 5:4). Estabeleceu uma metodologia de superação da dor baseada na paciência e disciplina mental: “[…] Basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus, 6:34). Ofereceu seu amparo incomparável, a partir da vivência do Evangelho: “Vinde a mim, todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus, 11:28 a 30).⁷

Conforme Mateus, 16:27, Jesus advertiu que “o Filho do homem […] retribuirá a cada um de acordo com o seu comportamento”. Tratava-se de uma afirmativa longamente conhecida em Israel. Livros da Bíblia – Isaías, Jó, Salmos – fizeram referência expressa a ela. Jeremias, 32:19 destacou que os “olhos [de Deus] estão abertos sobre os caminhos dos homens para retribuir a cada um segundo a sua conduta e segundo o fruto de seus atos”.⁸ Todas essas referências bíblicas utilizaram a palavra “retribuição”, evocando para a Justiça Divina um caráter retributivo. A justiça retributiva é baseada na correspondência entre a falta e o castigo, entre o acerto e a recompensa; obedece ao princípio de Talião, “olho por olho”, ou princípio da equivalência ao merecimento.

Estudos de Mateus em grego revelam que a verdadeira palavra utilizada significa literalmente “devolver, restituir”, o que altera profundamente o sentido da advertência de Jesus. Ele, assim, não teria dito que retribuirá a cada um conforme as suas obras, mas que “restituirá a cada um segundo as suas ações”, como encontramos na tradução de Haroldo Dutra.⁹ A restituição importa em “receber de volta”. É a lei do retorno, e, num mundo de expiação e provas, infelizmente, há muita coisa que necessita retornar do passado para nossa revisão, correção e reparação.

Diversamente, a Igreja fundamentou a origem das dores no pecado original e nos pecados deste decorrentes, os atuais. Quando se vê a dor unicamente como a justa punição dos culpados, ela já se mostra esvaziada de seu valor, tanto mais quando a culpa não é nossa, mas foi transmitida por um hipotético casal inicial, cujo erro alterou a natureza humana de modo a incliná-la a não poder não pecar.

Com o Espiritismo, aprendemos que “Não vale apenas sofrer. É preciso aproveitar o sofrimento”.¹⁰ A dor não é castigo, é expiação que abre o sentimento ao arrependimento, que corrige o uso do livre-arbítrio, que ajusta a consciência perante si mesma. Às vezes, a dor é auxílio, que evita quedas e ilusões, que prepara desencarnações, que enseja reflexão e disciplina. O sofrimento não é martírio, é lição, é prova que revela fraquezas, que desenvolve o esforço e a resistência, que dispõe o amor ao sacrifício, que testa missões.

O Espírito Emmanuel chamou o que estamos tratando por dor de dor-ilusão e o sofrimento de dor-realidade, por seu caráter espiritual. A dor-ilusão é um fenômeno que objetiva despertar a alma para os seus deveres, seja como expressão expiatória, seja como advertência. No entanto, só a dor-realidade, o sofrimento, é bastante grande e profundo para promover o trabalho do aperfeiçoamento e da redenção.¹¹

Léon Denis bem apreciou:

[…] O sofrimento é o misterioso operário que trabalha nas profundezas de nossa alma, e trabalha por nossa elevação. Aplicando o ouvido, quase escutareis o ruído de sua obra. Lembrai-vos de uma coisa: é no terreno da dor que se constrói o edifício de nossos poderes, de nossa virtude, de nossas vindouras alegrias.¹²

A dor tem origem na impermanência do mundo material, nos condicionamentos e automatismos frustrados, na incontinência, nos desejos não satisfeitos, na ignorância, na ilusão e, notadamente, no egoísmo que aciona a Lei de Causa e Efeito. O sofrimento é inerente à imperfeição da alma; portanto, sofre-se de acordo com as qualidades que não se tem ainda.

O esclarecimento espírita sobre a dor e o sofrimento é baseado numa cosmovisão em que a realidade é ordenada por Leis Naturais, inclusive morais, que promovem a evolução dos seres inteligentes por meio de uma escalada de experiências pelo plano material e pelo plano espiritual. A perfeição dos Estatutos divinos permite que a eles se tenha acesso por meio de várias linguagens.

A dor é comparável a um idioma, e, dada a sua rusticidade, melhor se compara a um dialeto da infância espiritual da Humanidade, dominando pouco mais do que monossílabos e algumas palavras do código legal celeste. Sim, a dor é um dialeto conciso, porém claro e inteligível o suficiente para que todos compreendam, no início da evolução espiritual, o código moral subjacente nas relações com o mundo e com o próximo. O protoindo-europeu foi um dialeto da Idade da Pedra Polida, mas dele surgiram, milhares de anos depois, o grego e o francês, idiomas refinados e bastante plásticos aos torneios lógicos e estéticos do pensamento aprimorado. Se a linguagem falada evolui, o que havia antes é superado e vira língua morta. Evolui o Espírito; suas novas aptidões elucidam causas e efeitos, seu senso moral se torna menos obtuso e o faz identificar outra linguagem de relação com a vida, e a dor se torna um recurso superado no que diz respeito à sua educação.

A dor é um ingrediente informativo e o sofrimento é um processo pedagógico transitório de educação intelectual e moral, presidido pelos mecanismos sublimes do livre-arbítrio, da responsabilidade, do determinismo, da reencarnação e do amor. Sem a reencarnação, os demais mecanismos não se ajustam e não funcionam.

Kardec escreveu:

[…] Por meio dos ensinos de Jesus, Deus pôs os homens na direção dessa causa [a das vicissitudes da vida], e hoje, julgando-os suficientemente maduros para compreendê-la, lhes revela completamente a aludida causa, por meio do Espiritismo, isto é, pela palavra dos Espíritos.¹³

Entender o sentido da dor é fundamental para que o sofrimento possa ser aproveitado. Os efeitos mais tristes do sofrimento se apresentam em quem não descobriu o sentido de sua dor, pois, nesse caso, se fere uma segunda vez. Abençoado aquele que conhece sua alma. Nas dores relevantes, ele se pergunta: O que essa experiência me evoca à intuição? O que ela procura purificar em mim? Em que me pede crescimento e novas qualidades? Que caminho quer me mostrar?

Nessa viagem para dentro, o Espiritismo o conforta, otimista: “[…] Confia no bom Deus, que fez a felicidade e permite a tristeza […]”.¹⁴

REFERÊNCIAS: 
¹ MEIRELES, Cecília. Poesias completas . v. 7. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. p. 117.
² TERRA, João Evangelista M. O deus dos indo-europeus : Zeus e a proto-religião dos indo-europeus. cap. 15, p. 483.
³ ______. ______. p. 484.
⁴ PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. História da filosofia . 15. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1990. Pt 2, cap. 3, p. 153.
⁵ NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo . Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 19.
⁶ SCHOPENHAUER. Dores do mundo . São Paulo: Edipro. cap. Arte , p. 94.
⁷ BÍBLIA DE JERUSALÉM. Trad. Gilberto da Silva Gorgulho et al . São Paulo: Paulus Editora, 2012.
⁸ ______. ______.
⁹ DUTRA, Haroldo. (trad.). O novo testamento . 1. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. Mateus , 16:27.
¹⁰ XAVIER, Francisco C. Palavras de vida eterna . Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. Brasília/Uberaba: FEB/CEU, 2015. cap. 18 – Atitudes essenciais .
¹¹ ______. O consolador . Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. it. 2.5.1, q. 239.
¹² DENIS, Léon. No invisível . Trad. Leopoldo Cirne. 26. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2014. Pt. 3, cap. 25 – O martirológio dos médiuns .
¹³ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo . Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2017. cap. 5, it. 3.
¹⁴ ______. ______. cap. 8, it. 20.