Revista Reformador

O amor de mãe é uma conquista espiritual

Waldehir Bezerra de Almeida
waldehir.almeida@gmail.com

Será o amor materno um sentimento instintual, resultante de um determinismo biológico? O amor de mãe é influenciado pelo comportamento social, variando de acordo com a época e os costumes? Será ele uma conquista do Espírito em evolução? Por que há mães que não amam seus filhos? Sobre essas perguntas convidamos a leitora e o leitor para fazermos algumas reflexões. Estaremos em companhia de estudiosos encarnados e desencarnados, buscando melhor compreender esse sentimento decisivo na sustentação do nosso processo evolutivo, pois são as mães as criaturas a quem Deus confia a reencarnação dos Espíritos para uma nova experiência, na esperança de que retornem melhorados.

Allan Kardec, sensível e abrangente com relação aos sentimentos e emoções que predominam em nós, buscou saber dos Espíritos, na questão 890 de O livro dos espíritos, se o amor materno é uma virtude ou um sentimento instintivo, comum aos homens e aos animais, e a resposta foi ser “uma coisa e outra”. E acrescentaram que:

[…] A Natureza deu à mãe o amor pelos filhos no interesse da conservação deles. No animal, porém, esse amor
é limitado às necessidades materiais; cessa quando os cuidados se tornam inúteis. No homem, persiste pela vida inteira e comporta um devotamento e uma abnegação que são virtudes. Sobrevive mesmo à morte e acompanha o filho além do túmulo. Bem vedes que há nele outra coisa a mais que no animal.¹ (Grifo nosso).

Conclui-se, portanto, que o amor de uma mulher pelo seu filho é uma virtude e não um instinto, pura e simplesmente, pois:

O amor é uma conquista do espírito maduro, psicologicamente equilibrado; usina de forças para manter os equipamentos emocionais em funcionamento harmônico. É uma forma de negação de si mesmo em autodoação plenificadora.

Não se escora em suspeitas, nem exigências infantis; elimina o ciúme e a ambição de posse, proporcionando inefável bem-estar ao ser amado que, descomprometido com o dever de retribuição, também ama. Quando, por acaso, não correspondido, não se magoa nem se irrita, compreendendo que, o seu, é o objetivo de doar-se, e não de exigir. Permite a liberdade ao outro, que a si mesmo se faculta, sem carga de ansiedade ou de compulsão.²

Diante dessas informações, em que temos as características do amor maternal, podemos inferir que o exercício do amor materno é resultante de uma conquista e não de instinto, e é por essa razão que muitas mães não amam seus filhos como seria de esperar.

Ainda prevalece entre nós a crença de que as mães executam os procedimentos de maternagem e dedicam atenção e carinho aos seus filhos obedecendo ao chamado instinto maternal. Ora, sabemos que nem todas as mães manifestam um envolvimento automático e total com seus bebês, imediatamente após o parto. O que se tem observado é que o amor maternal está ausente em algumas mulheres e, em outras, se desenvolve gradualmente, a partir da interação da mãe com seu rebento.

Sabendo que o instinto de uma determinada espécie animal está sempre presente em seus membros, para a execução de atividades específicas, e que eles não evoluem, pois agem sempre da mesma forma, é natural que busquemos outras razões para explicar a origem do amor materno na mulher, já que nem sempre está presente em todas elas, embora pertençam à mesma espécie.

Uma extensa pesquisa histórica, lúcida e desapaixonada feita por Badinter³ levou-a à conclusão de que o denominado instinto materno na mulher é um mito, pois não há uma conduta materna universal, tal como acontece com os animais. Descobriu que esse sentimento é extremamente influenciado pela época, local e cultura em que vive a mulher. Verificou que houve ao longo do tempo e do espaço uma evolução das atitudes maternas, e que o interesse e a dedicação à criança não existiram em todas as épocas nem em todos os meios sociais. O mais interessante e bem consonante com o ensinamento dos Espíritos é que a autora da obra chegou à conclusão de que o amor materno não é um de terminismo biológico, mas algo que se conquista. Afirma ela:

Ao se percorrer a história das atitudes maternas, nasce a convicção de que o instinto materno é um mito. Não encontramos nenhuma conduta universal e necessária da mãe. […] Esse sentimento pode existir ou não existir; ser e desaparecer. Mostrar-se forte ou frágil. Preferir um filho ou entregar-se a todos. Tudo depende da mãe, de sua história e da História. Não, não há uma lei universal nessa matéria, que escapa ao determinismo natural. O amor materno não é inerente às mulheres. É “adicional”.⁴

Comparemos com o que nos ensina a mentora Joanna de Ângelis:

[…] A maternidade humana é mais do que um fenômeno biológico, tratando-se de uma experiência iluminativa e libertadora para a consciência, que descobre a necessidade de superação do egoísmo, de desenvolvimento de valores morais mais expressivos, para que o amor se encarregue de dirimir dificuldades e estabelecer parâmetros de comportamentos sadios, sem os exageros do apego ou do ressentimento, ou da transferência de amarguras e frustrações para os filhos, que se lhe tornam vítimas sem defesa… […]⁵

E o ministro Clarêncio não alimenta dúvidas quanto à necessidade que tem o Espírito de conquistar e sentir o amor maternal, afiançando que este não é instintual, nem nasce na mulher pelo fato de ela se tornar genitora. “[…] Maternidade” – diz ele – “é sagrado serviço espiritual em que a alma se demora séculos, na maioria das vezes aperfeiçoando qualidades do sentimento”.⁶

Por que nem todas as mães amam os seus filhos como se espera?

Diante dessa realidade, Kardec, na questão 891 de O livro dos espíritos, indagou o porquê de mães que odeiam seus filhos, já desde a infância, se o amor é Lei Natural? A resposta foi:

“Algumas vezes, é uma prova escolhida pelo Espírito do filho, ou uma expiação, se ele mesmo foi mau pai, ou mãe perversa, ou mau filho, em outra existência. Em todos os casos, a mãe má não pode ser animada senão por um Espírito mau […]”.⁷

Diante da elucidativa resposta, não é de bom senso admitir que a mulher possui um instinto materno e que deverá, naturalmente, amar seu filho. A Doutrina Espírita tem informações elucidativas que nos fazem compreender, com indulgência, o porquê de existirem mães que amam seus filhos e as que não os amam. Tanto umas quanto outras, antes de vestirem o escafandro da carne, se propuseram a uma empreitada redentora, em que o ódio deveria ser substituído pelo amor, os prazeres egoicos dariam lugar à renúncia, e o sacrifício seria um prazer em prol do amor a ser conquistado, anulando os mecanismos cármicos entre elas e os filhos, levando-se em conta que

O amor não se instala de um para outro momento, tendo um curso a percorrer.

Apresenta os seus inícios na amizade que desperta interesse por outrem e se expande na ternura, em forma de gentileza para consigo mesmo e para com aquele a quem se direciona.⁸

Mães que não amam seus filhos sempre existiram em todos os tempos. A História informa que, no primeiro milênio do Império Romano, o enjeitamento de crianças, bem como sua venda era prática comum. Mercadores de escravos recolhiam os enjeitados nos santuários ou nos monturos públicos. A extrema pobreza impelia os miseráveis a venderem seus filhos a traficantes, que os compravam saídos recentemente do ventre da mãe.

Na Modernidade, Badinter relata que em:

1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil, privilegiadas, são amamentadas por amas de leite residentes. Todas as outras deixam o seio materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária.⁹

O primeiro sinal de desamor da mãe pelo filho é negar-lhe o seio, onde o bebê encontra o alimento físico e psíquico de quanto necessita para o seu desenvolvimento natural. No Brasil Colônia, muitas mães entregavam os seus bebês às negras lactantes das senzalas para alimentá-los. Umas por não terem leite suficiente, outras por comodidade. Essas informações nos levam a admitir que o amor materno é defectível e sofre a influência das condições culturais, morais e materiais.

Com relação às mães que não amam seus rebentos, o Espírito Blandina lamentou:

[…] há mulheres cujo coração ainda se encontra em plena sombra. Mais fêmeas que mães, jazem obcecadas pela ideia do prazer e da posse e, despreocupando-se dos filhinhos, lhes favorecem a morte. O infanticídio inconsciente é largamente praticado no mundo […]¹⁰ (Grifo nosso).

Em nossa sociedade, a mãe que não ama seu filho é tida como uma megera, uma desnaturada. O fato se torna inexplicável para os que não admitem a reencarnação. A Doutrina Espírita, com sua lógica consonante com as Leis de Justiça e Amor divinos, explica satisfatoriamente e de forma caridosa o porquê de algumas mães não se comportarem como todos desejamos. Quando elas encontram dificuldades para amar seus filhos é porque tiveram com eles relações conflitivas em vidas passadas. Os sentimentos negativos, escapando do inconsciente profundo, dificultam-lhes a relação com o rebento e impedem-lhes, muitas vezes, a consecução da sua missão redentora. São elas, portanto, merecedoras de compreensão, devendo ser o seu comportamento analisado com indulgência.

O Espírito André Luiz relata-nos o caso de uma candidata à maternidade redentora e que pratica o aborto por ser o reencarnante um Espírito que ela odeia, protelando, assim, a oportunidade da reconciliação. Diante da tragédia que se consumava em meio a mútuo rancor, esclareceu o mentor Calderaro o que se passava:

[…] Os laços entre mãe e filho presuntivo são de amargura e de ódio, consubstanciando energias desequilibrantes; tais vínculos traduzem ocorrência em que o espírito feminino há que recolher-se ao santuário da renúncia e da esperança, se pretende a vitória. Para isso, para nivelar caminhos salvadores e aperfeiçoar sentimentos, o supremo Senhor criou o tépido e veludoso ninho do amor materno; contudo, quando a mulher se rebela, insensível às sublimes vibrações da inspiração divina, é difícil, senão impossível, executar o programa delineado. […]¹¹

Podemos concluir que ser mulher e ser mãe é uma condição circunstancial. Logo o amor materno não constitui um sentimento inerente à psicologia feminina, não é um determinismo biológico, portanto, não é instintual. Ser mulher e mãe é uma experiência que o Espírito aceita em nome do progresso.

Podemos concluir, após termos aprendido, que o amor de uma mãe pelo seu filho deve ser conquistado. Não surge somente pelo fato de ela ter abraçado a maternidade. É um amor conquistado à custa de muita renúncia. Em razão dessa verdade, é legítimo seja considerado o mais puro e verdadeiro amor que alguém possa dedicar a outrem.

REFERÊNCIAS:
¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017.
² FRANCO, Divaldo P. O homem integral . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2. ed. Salvador: LEAL, 2000. Pt. 7, Relacionamento perturbadores , p. 114.
³ BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado : o mito do amor materno. Trad. Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985. 

⁴ ______. ______. Paraíso perdido ou reencontrado?
⁵ FRANCO, Divaldo P. O despertar do espírito . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 1. ed. Salvador: LEAL, 2000. Desafios afligentes , it. Desespero.
⁶ XAVIER, Francisco C. Entre a Terra e o céu . Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. cap. 28 – Retorno.
⁷ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017.
⁸ FRANCO, Divaldo P. Amor, imbatível amor . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1998. Pt. 13, cap. 62 – Amor que liberta.
⁹ BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado . Trad. Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985. Prefácio.
¹⁰ XAVIER, Francisco C. Entre a Terra e o céu . Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. cap. 10 – Preciosa conversação.
¹¹ ______. No mundo maior . Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 10 – Dolorosa perda.