Revista Reformador

O auto de fé de
Barcelona – 160 anos!

“[…] Podem queimar-se livros, mas não se queimam ideias; as chamas
das fogueiras as superexcitam, em vez de abafar. […]” – Allan Kardec¹

Adilton Pugliese
adilton70.ap@gmail.com

Resumo

A partir do momento em que assumiu sua missão de concretizar o advento da Terceira Revelação das Leis de Deus, que é o Espiritismo, Allan Kardec vivenciou lutas contínuas, desde comentários desairosos à sua pessoa pela imprensa da época, ataques do clero à sua moral, inclusão de O livro dos espíritos e de O evangelho segundo o espiritismo no Index Librorum Prohibitorum,² em maio de 1864, acusações de enriquecimento ilícito e, sobretudo, o famoso auto de fé de Barcelona, revivendo malfadados dias da Santa Inquisição, em pleno século XIX.

Palavras-chave

Allan Kardec; auto de fé de Barcelona; bispo Dom Palau y Térmens; Maurice Lachâtre; períodos do Espiritismo.

A preocupação de Allan Kardec com o futuro do Espiritismo, sobretudo a partir do sucesso obtido com a publicação da primeira edição de O livro dos espíritos, em 18 de abril de 1857, está exarada na questão 798 da segunda edição desse livro, de março de 1860:

O Espiritismo se tornará crença geral ou continuará sendo professado apenas por algumas pessoas?

Naqueles recuados dias da elaboração da Codificação o médium grafa a resposta dos Espíritos:

“Certamente ele se tornará crença geral e marcará uma Nova Era na História da Humanidade, porque está na Natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos.

Entretanto, terá que sustentar grandes lutas, mais contra os interesses do que contra a convicção, pois não se pode dissimular a existência de pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio, outras por causas inteiramente materiais. […]”³

Realmente, essa resposta dos Espíritos é a confirmação das advertências que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail recebera, em 12 de junho de 1856, diretamente do Espírito Verdade, em reunião íntima em casa do Sr. C…, atuando como médium a Srta. Aline C…:⁴

[…] a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. Previno-te de que a tua é rude, visto que se trata de abalar e transformar o mundo inteiro.

[…] Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos obstinados se conjurarão para a tua perda; serás alvo da malevolência, da calúnia e da traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício do teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo […].

E continua suas orientações ao futuro Codificador:

[…] Para tais missões, não basta a inteligência. Para agradar a Deus é preciso, antes de tudo, humildade, modéstia e desinteresse […] Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são necessários prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente […]. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios. Como vês, a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.

Allan Kardec, ao escrever na edição da Revista Espírita, de dezembro de 1863, acerca dos seis períodos da trajetória do Espiritismo, destaca o período da luta, que seria caracterizado por uma verdadeira cruzada dirigida contra a nova doutrina, iniciada desde o seu advento pelos “sarcasmos da incredulidade” e que teriam o seu “batismo de fogo” com o auto de fé de 1861 e, desde então, os ataques assumiriam um caráter de violência inaudita: “[…] sermões furibundos, pastorais, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de jornais, nada foi poupado, nem mesmo a calúnia”. E adverte: “Estamos, pois, em pleno período de luta, mas este não terminou. Vendo a inutilidade dos ataques a céu aberto, vão ensaiar a guerra subterrânea”. E conclama: “Espíritas, não vos inquieteis, porque a saída não é duvidosa: a luta é necessária e o triunfo será mais retumbante. Disse e repito: vejo o fim, sei como e quando será alcançado […]”.⁵

Realmente, na data célebre de 9 de outubro de 1861, os opositores tentariam um “golpe de misericórdia” no Espiritismo, insuflando mentes presas ao pensamento medieval a queimarem em praça pública, em Barcelona, na Espanha, cerca de 300 “volumes e brochuras sobre o Espiritismo”,⁶ muitos da autoria de Allan Kardec e por ele expedidos àquele país, ocorrendo, então, um auto de fé sob os auspícios do bispo Dom Antônio Palau y Térmens (1806– 1862). As cinzas das páginas imortais, contudo, em vez de se diluírem, espalhar-se-iam, beneficiando o progresso do Espiritismo na Espanha, sobretudo por conterem ideias libertadoras do homem do jugo do materialismo. O Espírito de Verdade, consultado por Allan Kardec, em 21 de setembro de 1861, quando da apreensão dos livros, em reunião íntima em sua residência, em Paris, tendo como médium o Sr. d’A…, comenta: “[…] As ideias se disseminarão lá com maior rapidez e, pelo fato de terem sido queimadas, as obras serão procuradas com maior avidez […]”.⁷

As manifestações de Allan Kardec acerca do auto de fé de Barcelona

A primeira consta do seu relato da reunião ocorrida em 21 de setembro de 1861, em sua residência, atuando como médium o Sr. d’A…, documento somente divulgado, publicamente, em 1890, quando do lançamento do livro Obras póstumas, organizado por Pierre-Gaëtan Leymarie (1817–1901). Esse documento traz a narrativa envolvendo o episódio:

A pedido do Sr. Lachâtre,⁸ então residente em Barcelona, eu lhe enviara certa quantidade de O livro dos espíritos, de O livro dos médiuns, das coleções da Revista Espírita, além de diversas obras e brochuras espíritas […] mas, antes de os liberarem, houve que ser entregue uma relação das obras ao bispo, pois naquele país a autoridade eclesiástica tinha força policial para censurar qualquer obra. […] tomando conhecimento da relação dos livros, [o bispo] ordenou que eles fossem apreendidos e queimados em praça pública pela mão do carrasco. A execução da sentença foi marcada para 9 de outubro de 1861.⁹

Na mesma reunião Kardec consulta o Espírito Verdade acerca de possível reclamação judicial (de que poderia também ser via o Ministério das Relações Exteriores da França). Contudo, o orientador espiritual conclui que do “[…] auto de fé resultará maior soma de bem do que o bem que resultaria da leitura de alguns livros […]”.¹⁰

Obras póstumas transcreve documento escrito por Allan Kardec, em que ele enfatiza que “Essa data ficará assinalada nos anais do Espiritismo pelo auto de fé dos livros espíritas realizado em Barcelona […]” e transcreve um extrato da ata de execução. No mesmo documento cita e reproduz comunicação de Um Espírito, obtida em Paris em 19 de outubro de 1861, do qual destacamos este trecho:

[…] Esse fato brutal, inacreditável nos tempos atuais, se consumou tendo por fim chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da agitação profunda que abalava cidades e os centros espíritas […].¹¹

Allan Kardec, nesse documento exarado em Obras póstumas, insere uma nota, informando que tinha recebido de Barcelona uma aquarela feita no local por um artista, e que conservava numa urna de cristal fragmentos ainda legíveis de folhas dos livros queimados [dentre eles um fragmento de O livro dos espíritos, consumido pela metade].¹² Nota do tradutor da FEB Editora informa que essa urna foi destruída pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945).¹³

Em novembro de 1861, a Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, fundada por Allan Kardec em 1 de janeiro de 1858, publica artigo do Codificador sob o título Resquícios da Idade Média – auto de fé das obras espíritas em Barcelona, descrevendo o ritual do episódio ocorrido às 10h30 da manhã de 9 de outubro de 1861, na esplanada da cidade de Barcelona, citando comunicações que os Espíritos escreveram a respeito do acontecimento:¹⁴

“O amor da verdade deve sempre fazer-se ouvir: ela rompe o véu e brilha ao mesmo tempo por toda parte. O Espiritismo tornou-se conhecido de todos; logo será julgado e posto em prática. Quanto mais perseguições houver, tanto mais depressa esta sublime doutrina alcançará o apogeu. Seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, atuam de maneira que ninguém possa ignorar a permissão de Deus, dada àqueles que deixaram esta Terra de exílio, de voltarem aos que amaram.

Ficai certos: as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas: e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive”.

O tempo, contudo, “[…] é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito […]”, afirma Allan Kardec,¹⁵ e o tempo avança, enquanto o inspirado e dócil instrumento dos Espíritos codificadores dá prosseguimento à sua exemplar missão, programando, inclusive, suas famosas viagens espíritas para o ano de 1862, enquanto as Leis de Deus regem os destinos dos seres vivos, das coisas inanimadas e do Universo como um todo.

Então, em meados de 1862, Allan Kardec recebe carta da Espanha, informando-o que o bispo de Barcelona, Dom Antonio Palau y Térmens, nascido em 1806, havia morrido em 9 de agosto daquele ano de 1862. O remetente sugere a Allan Kardec evocá-lo em uma das reuniões de intercâmbio. Contudo, o bispo apresenta-se espontaneamente, de forma imprevista, e o Codificador reproduz na Revista Espírita as suas palavras, proferidas durante a comunicação:¹⁶

“Auxiliado por vosso chefe espiritual pude vir ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas clamarão como a voz do Anjo: Caim, que fizestes de teu irmão? Que fizestes de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade? O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível lhe disse: Queimaste as ideias e as ideias te queimarão!…

Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em benefício do perseguidor. Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente”.

Comentando a inesperada comunicação, Allan Kardec declara que não podemos censurar o depoente, pelo motivo de que

[…] o verdadeiro espírita a ninguém condena, não guarda rancor, esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos seus inimigos […].

E conclui, em comovedor apelo:

Espíritas, perdoemos-lhe o mal que nos quis fazer, como quereríamos que as nossas ofensas nos fossem perdoadas e oremos por ele no aniversário do auto de fé de 9 de outubro de 1861.

REFERÊNCIAS:

¹ KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 11, nov. 1861. Resquícios da Idade Média. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

² Catálogo dos livros proibidos pela Igreja Católica [criado no Concílio de Trento de 1559], suprimido em 1966. Dicionário enciclopédico Koogan Larousse seleções, 1978.

³ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 9. imp. Brasília, DF: FEB, 2020. Influência do Espiritismo no progresso.

⁴ . ______ Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 4. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. 2a pt., cap. Extratos, in extenso, do livro Previsões relativos ao espiritismo, it. Minha missão (12 de junho de 1856).

⁵ ______ Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 6, n. 12, dez. 1863. Período de luta. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

______ . Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 4. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. 2a pt., cap. Extratos, in extenso, do livro Previsões relativos ao espiritismo, it. Auto de fé de Barcelona

______. ______ it. Auto de fé de Barcelona. Apreensão dos livros. Sobre o Auto de fé de Barcelona vide também Allan Kardec: o educador e codificador de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen. 3a pt., cap. 2 – Intolerância e perseguições, it. O Auto de fé de Barcelona. FEB Editora.

⁸ Maurice Lachâtre, escritor e editor, nascido em Issoudun, na França, em 1814 e desencarnado em Paris em 1900, condenado pelo regime de Napoleão III, estava refugiado na Espanha.

⁹ KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 4. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. 2a pt., cap. Extratos, in extenso, do livro Previsões relativos ao espiritismo, it. Auto de fé de Barcelona. Apreensão dos livros.

¹⁰ ______ . ______

¹¹ ______ . ______ . it. Auto de fé de Barcelona.

¹² ______ . Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 11, nov. 1861. Resquícios da Idade Média. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

¹³ ______ . Obras póstumas. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 4. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. 2a pt., cap. Extratos, in extenso, do livro Previsões relativos ao espiritismo, it. Auto de fé de Barcelona. Nota 38.

¹⁴ .______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 11, nov. 1861. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2019.

¹⁵ ______ . A gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 53. ed. 9. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2020. cap. 6, it. 2.

¹⁶ ______ . Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 8, ago. 1862. Necrologia, it. Morte do bispo de Barcelona. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília, D