Revista Reformador

O caminho, a verdade e a vida

Mensagem crística
O caminho, a verdade e a vida

“E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes
o que dele se achava dito em todas as escrituras.” (Lucas, 24:27.)

O evangelista Mateus se esmerou nas citações de algumas revelações do Velho Testamento com o escopo de demonstrar que a luminosa passagem de Jesus Cristo pela Terra não havia sido obra do improviso e muito menos do acaso, mas sim o fiel cumprimento de um planejamento superior de Deus, levado a efeito por Jesus, com a colaboração daqueles que participaram do mais importante evento planetário.

Os intérpretes das Escrituras, no entanto, de acordo com a natural influência do limitado olhar humano, restrito aos elementos materiais de observação, atribuíram essa atitude do referido evangelista ao seu intuito de convencer apenas os judeus de que Jesus era, de fato, o Messias, cuja vinda já tinha sido anunciada pelo profeta Moisés, alguns séculos antes, e por vários outros que o sucederam na História, não vislumbrando que a mensagem do Cristo sempre teve como alvo a Humanidade inteira.

João Evangelista também não descurou desse magno acontecimento, mas o tratou de modo próprio, sob a mais elevada inspiração celeste, afirmando no prólogo de seu evangelho (João, 1:1 a 18) que Jesus convivia com Deus e que tinha sido Ele quem construíra o planeta Terra, assim como havia habitado entre nós, mas que o ser humano não o reconheceu como o criador da Terra e o mensageiro da Luz, enviado do Pai.

Apesar dos incontáveis indícios, evidências, sinais, pistas e testemunhos de que Jesus era, efetivamente, o Messias anunciado por Moisés, a Organização Divina, sabedora das dificuldades que o ser humano daquela época teria para identificar Jesus como o enviado, posto que a percepção humana acerca da dimensão espiritual ainda era extremamente rudimentar, providenciou o nascimento de João Batista, que reencarnou com a elevada missão de apontar Jesus como o celeste trabalhador que batizaria a Humanidade com o divino fogo do amor.

Interessante notar que João Batista passou quase despercebido pelo povo de sua época e assim continua até hoje, justamente pela sua incontestável grandeza espiritual, pois encarregou-se, ele próprio, na sua profunda lucidez espiritual e imensurável humildade, de deixar absolutamente clara a enorme distância evolutiva que havia entre ele e Jesus, quando afirma: “Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado.” (João, 2:26 e 27). (Grifo nosso.)

Em outro momento, João Batista enfatiza a natureza crística de Jesus, como o ser mais elevado que havia nascido na Terra, para revelar aos seres humanos as verdades oriundas dos reinos celestiais:

Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do céu é superior a todos.

Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe o seu testemunho. Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro. (João, 3:31 a 33.) (Grifo nosso.)

Observa-se também que Jesus, com a sua imensurável autoridade moral, não perde a oportunidade e endossa o testemunho de João Batista, porquanto nenhum outro ser terreno detinha a consciência necessária para fazê-lo, revelando a grandeza de João  Batista, conforme narrado em Mateus, 11:11: “Em verdade vos digo, entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no reino dos céus é maior do que ele”.

Em Deuteronômio, 18:15, temos a seguinte narrativa: “O Senhor teu Deus te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir”. Prosseguindo o relato no mesmo capítulo, versículo 18, está escrito: “[…] eu lhes suscitarei um profeta como tu dentre seus irmãos: por-lhe-ei minhas palavras na boca e ele lhes fará conhecer as minhas ordens”. Finalmente, no versículo 19, extrai-se este texto: “Mas o que recusar ouvir o que ele disser de minha parte, pedir-lhe-ei contas disso”. (Grifo nosso.)

Esse trecho das Escrituras deixa muito claro que Deus enviaria um profeta à Terra para transmitir sua mensagem, cujo conteúdo o próprio Deus conduziria por meio desse emissário, alertando, ainda, que iria sofrer as consequências naturais, em caso de recusa.

Importante destacar que, afastada a interpretação  supersticiosa, devemos compreender que essa recomendação não constitui infantil ameaça, mas sábio e prudente ensinamento, um cuidadoso alerta, uma vez que seria o mesmo que um engenheiro aconselhar a fiel execução do projeto e aplicação dos cálculos estruturais na construção de imenso edifício, asseverando que o não cumprimento resultará, a qualquer momento, no desmoronamento da obra; não como castigo, mas como consequência natural do seu descumprimento.

Essa recomendação para que a mensagem celeste fosse ouvida se repete quando da presença de Jesus entre nós, conforme narrado em Mateus, 17:5, por ocasião do fenômeno da Transfiguração: “Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem saiu uma voz que dizia: Eis o meu filho muito amado, em quem pus toda minha afeição: ouvi-o”. (Grifo nosso.)

Em outro momento Jesus assevera ser o transmissor da Mensagem crística, consoante a narrativa em João, 10:25 e 26: “Jesus respondeu-lhes: Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim. Entretanto, não credes porque não sois das minhas ovelhas”.

Jesus, com o objetivo de não deixar dúvidas de que era Ele o profeta, uma vez que Deus o enviou para anunciar a B oa-Nova ao mundo, numa conversa com os fariseus afirma: “Pois se crêsseis em Moisés, certamente  creríeis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. Mas se não credes nos meus escritos, como crereis nas minhas obras?” (João, 5: 46 e 47).

Inspirado certamente no fato de que Jesus foi o portador da mensagem de Deus à  Humanidade, o Espírito  Eurípedes Barsanulfo, em mensagem intitulada Mediunidade e  Jesus, psicografada pelo saudoso  Francisco C ândido Xavier na noite de 8 de abril de 1959, durante sessão no Centro Espírita Casa do Cinza, em Uberaba,  Minas Gerais, relembra a expressão constante em A gênese,1 de Allan Kardec, capítulo XV, item 2, em que o Messias Divino é denominado médium de Deus. Reproduzimos trecho da referida mensagem de Barsanulfo:

Assim, pois, não nos agastemos contra aqueles que a perseguem através do achincalhe – tristes negadores da realidade cristã, ainda mesmo quando se escondam sob os veneráveis distintivos da autoridade humana –, porquanto os talentos medianímicos estiveram, incessantemente, nas mãos de Jesus, o nosso divino mestre, que deve ser considerado, por todos nós, como sendo o excelso médium de Deus.2 (Grifo nosso.)

Enfatizamos que essa colocação de Eurípedes Barsanulfo, o missionário de Jesus, em  Sacramento, reproduziu em outras palavras, mas com absoluta fidelidade, a mesma ideia exarada por Moisés no Velho Testamento, ou seja, Deus transmitiu sua mensagem suprema à humanidade terrena, por meio das palavras proferidas por Jesus Cristo.

Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, não teve percepção diferente, posto que ao elaborar O evangelho segundo o espiritismo, referindo-se ao ensino moral de Jesus, em sua Introdução, assevera que:

[…] Para os homens, em particular, constitui aquele código uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa parte é a que será objeto exclusivo desta obra.3 (Grifo nosso.)

O reconhecido escritor russo, Liev Tolstói, em sua monumental obra: O reino de Deus está em vós, reconheceu de tal modo a grandiosidade dos ensinamentos de Jesus Cristo, que dedicou toda essa obra a enfatizar que se o Evangelho de Jesus fosse plenamente aplicado pela Humanidade, todas as formas de violência teriam desaparecido da Terra e que não há outra solução para o ser humano, que não seja se curvar diante desse Código Celeste.

Emmanuel, Espírito detentor de vasta ciência, sabedoria e bondade, em sua condição de Espírito Superior, conforme conceituação exarada na questão 111, de O livro dos espíritos, e por meio da missionária mediunidade de Chico Xavier, narra em A caminho da luz, agora numa visão científica, racional e histórica, a atuação do Cristo em toda extraordinária formação e trajetória do nosso planeta, durante os bilhões de anos de sua existência, a começar dos primeiros movimentos físicos que culminaram nas combinações químicas iniciais; no posterior surgimento da vida orgânica, como condição indispensável para a manifestação do princípio inteligente, tudo em perfeita concordância com a inspirada narrativa de João Evangelista, mencionada anteriormente.

Nessa obra, Emmanuel nos revela a grandiosidade do C risto e seu verdadeiro papel, como missionário de Deus, em todo processo de elaboração, construção, manutenção e transformação do planeta aos seus  superiores destinos, bem como na condução da Humanidade que aqui realiza seu caminhar evolutivo na direção do Pai.

O certo é que, se o Universo existe, é captado pelos nossos sentidos, concebido pela nossa inteligência e racionalidade, e internalizado pelos nossos sentimentos, portanto, conclui-se que existe uma verdade que deu origem, governa e mantém tudo isso que nos cerca e compõe o infinito Universo.

É essa, portanto, a Mensagem crística, reveladora da suprema Lei de Amor, que contém todas as demais leis n aturais do Universo, cujo conhecimento e prática são imprescindíveis para elevar o espírito humano ao seu destino final, a perfeição, por meio da internalização permanente e gradual do amor e da verdade.

Não poderíamos encerrar essa reflexão, sem lembrar a todos a peremptória e grave assertiva de Jesus Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por
mim.” (João, 14:6).

REFERÊNCIAS:

1 KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013.

2 NOVELINO, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. 11. ed. Araras (SP): IDE, 1995. p. 106.

3 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2015. Introdução, it. I – Objetivo desta obra.

4 TOLSTÓI, Liev. O reino de Deus está em vós. Trad. Celina Portocarrero. 3. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2016.

5 KARDEC. Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 3.

imp. Brasília: FEB, 2016.

6 XAVIER. Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 1 – A gênese planetária.