Revista Reformador

O Evangelho da caridade1

“Estudar e praticar o Evangelho espírita é regar todos os dias o canteiro do coração e depois desfrutar de uma farta e abençoada colheita.”

Quando sinto o assédio das forças perturbadoras do mundo tentando assaltar a cidadela de minha alma, mergulho o coração nas águas desse rio sereno que flui da Eternidade chamado O evangelho segundo o espiritismo. E me sinto em paz, protegido por sua mensagem de Amor, impregnada pela Misericórdia Divina. Por isso, se me fosse permitido lhe acrescentar um segundo nome, eu o chamaria de “O Evangelho da Caridade”.

Sim, porque o Anjo da Caridade, esse ser divino de asas puríssimas que espaneja pó de ouro sobre todas as suas passagens, também começa a se aninhar em nosso coração quando nos habituamos a assimilar os seus ensinamentos e a vivenciá-los no decorrer de nossa existência.Em vista disso, tomo a liberdade de convidar gentilmente o caro leitor para sondarmos, com reverência e discrição, apenas duas passagens, pelo nosso meio, desse anjo de vulto evanescente:

A dama distinta

1. Quem é essa mulher de ar distinto, de trajes simples, que se faz acompanhar de uma mocinha também modestamente vestida? Entra numa casa de aparência pobre, onde jaz uma mãe de família cercada de crianças. Ela vem acalmar todas as dores. Traz tudo o de que necessitam, acompanhado de meigas e consoladoras palavras, que fazem com que seus protegidos aceitem o benefício sem corar. O pai está no hospital e, enquanto lá permanece, a mãe não consegue prover às necessidades da família. Graças à boa senhora, aquelas crianças não mais sentirão frio, nem fome; irão à escola agasalhadas e, para as menores, o seio que as amamenta não secará. Terminada a sua jornada, a boa senhora diz de si para consigo: “Comecei bem o meu dia”. Qual o seu nome? Onde mora? Ninguém o sabe. Para os infelizes, é um nome que nada indica, mas é o anjo da consolação. À noite, um concerto de bênçãos se eleva em seu benefício ao Criador, porque todos a bendizem.
Por que esse traje tão singelo? Para não insultar a miséria. Por que se faz acompanhar da filha? Para lhe ensinar como se deve praticar a Caridade. Em casa, é mulher da sociedade, porque a sua posição o exige. Ignoram, porém, o que faz, porque ela não deseja outra aprovação, além da aprovação de Deus e da sua consciência.

Certo dia, no entanto, uma circunstância imprevista leva-lhe à porta da casa uma de suas protegidas, que andava a vender trabalhos executados por suas mãos. A protegida, ao vê-la, reconheceu nela a sua benfeitora. “Silêncio! ordena-lhe a senhora, não o digas a ninguém”. Jesus também falava assim.2

O anjo do Amor
2. Dei esta manhã o meu passeio habitual e, com o coração amargurado, venho dizer-vos: “Oh! meus amigos, quantas lágrimas e quanto tendes de fazer para secá-las todas!”. Em vão, procurei consolar algumas pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: “Coragem! há corações bons que velam por vós; não sereis abandonadas!”. Elas pareciam ouvir-me e voltavam para o meu lado os olhos arregalados de espanto. Eu lia nos seus semblantes que seus corpos tinham fome e que, se minhas palavras lhes serenavam um pouco os corações, não lhes enchiam os estômagos.

Então uma pobre mãe, ainda muito jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e a estendeu no espaço vazio, como a pedir-me que protegesse aquele entezinho que só encontrava, num seio estéril, uma alimentação insuficiente. Vi em outros locais, pobres velhos sem trabalho e quase sem abrigo, envergonhados de sua miséria, sem ousarem implorar a piedade dos transeuntes. Com o coração cheio de compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga para eles e vou, por toda parte, estimular a Caridade, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos.

É por isso que venho aqui e vos digo: “Há por aí infelizes, em cujas choupanas falta o pão, os fogões estão sem lume e os leitos sem coberta. Não vos digo o que deveis fazer; deixo a iniciativa aos vossos bons corações”.  Mas, se peço, também dou e dou bastante. Eu vos convido para um banquete e vos ofereço uma árvore carregada de flores e de frutos! Colhei os frutos dessa linda árvore que se chama Caridade. No lugar dos frutos que tirardes pendurarei todas as boas ações que praticardes e levarei a árvore a Deus, que a carregará de novo, visto que a Caridade é uma fonte inesgotável.

Acompanhai-me, pois, a fim de que vos conte entre os que se alistam sob a minha bandeira. Nada temais; eu vos conduzirei pelo caminho da salvação, porque meu nome é Caridade.3

Eis o que representa para mim O evangelho segundo o espiritismo. Porque todos nós já sabemos – o Apóstolo Paulo, você e eu – que podíamos falar todas as línguas dos anjos e dos homens, ter o dom da profecia, conhecer todos os mistérios e todas as ciências, distribuir todos os nossos bens aos pobres e até entregar às chamas os nossos corpos vivos, mas se não tivermos Caridade, nada disso nos aproveita, porque não passaremos de um metal que tine e de um sino vão que soa (I Coríntios, 13:1 a 7). Como vemos em Paulo, há dois tipos de Caridade: a que é feita ao retumbar dos bombos, para consumo externo, e que conduz à tranquilidade estéril do Mar Morto; e a que é feita no silêncio da alma, por Amor ao próximo, e que conduz à tranquilidade da Paz Celestial prometida pelo Cristo.

Esta é a Caridade que faz resplandecer sua abençoada luz no Evangelho elaborado por Kardec.

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1 N.A.: Artigo condensado por Mário Frigéri, extraído do livro O esplendor das bem-aventuranças , de sua autoria, lançado em 2016 pela Mundo Maior Editora.
2 N.A.: KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 13, it. 4 – Os infortúnios ocultos (texto condensado).
3 N.A.: ____. ____. it. 13 – A beneficência (texto condensado).