Revista Reformador

O “Pacto Áureo” no contexto da obra de Ismael

Jorge Godinho Barreto Nery
jgodinho@febnet.org.br

Antes da edição de O livro dos espíritos, a falange de Ismael já preparava o Brasil para acolher a novel Doutrina que Allan Kardec traria a lume em 1857, expondo os ensinos que os Espíritos ministrariam, abrindo uma Nova Era para a Humanidade.

Humberto de Campos, Espírito, recolhendo nas tradições do Plano Espiritual os registros daqueles anos que antecederam a chegada da Doutrina Espírita em terras brasileiras, esclarece-nos que:

Por volta de 1840, ao influxo das falanges de Ismael, chegavam dois médicos humanitários ao Brasil. Eram Bento Mure e Vicente Martins, que fariam da Medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da Codificação Kardequiana, conheciam ambos os transes mediúnicos e o elevado alcance da aplicação do magnetismo espiritual. Introduziram vários serviços de beneficência no Brasil e traziam por lema, dentro da sua maravilhosa intuição, a mesma inscrição divina da bandeira de Ismael – “Deus, Cristo e Caridade”. Indescritível foi o devotamento de ambos à coletividade brasileira, à qual se haviam incorporado, sob os altos desígnios do Mundo Espiritual.

Nas suas luminosas pegadas, seguiram, mais tarde, outros pioneiros da Homeopatia e do Espiritismo, na Pátria do
Evangelho. Foram eles, os médicos homeopatas, que iniciaram aqui os passes magnéticos, como imediato auxílio das curas. Hahnemann conhecia a fonte infinita de recursos do magnetismo espiritual e recomendava esses processos psicoterápicos aos seus seguidores.

Os primeiros fenômenos de Hydesville, na América do Norte, em 1848, não passaram despercebidos à corte do Segundo Reinado. A febre de experimentações que se lhes seguiu, nas grandes cidades europeias, incendiou, igualmente, no Rio de Janeiro, alguns cérebros mais destacados no meio social. Em 1853, a cidade já possuía um pequeno grupo de estudiosos, entre os quais se podia notar a presença do marquês de Olinda e do visconde de Uberaba. Em Salvador, esses núcleos de experimentação também existiam, em idênticas circunstâncias. […]¹

Logo após a edição de O livro dos espíritos, as publicações francesas chegaram ao Brasil e encontram terreno fértil para que surgissem as primeiras publicações espíritas, comentários da imprensa e os primeiros folhetos sobre a Doutrina:

[…] Em 1865, o Dr. Luís Olímpio Teles de Menezes, com alguns colegas, replicava pelo Diário da Bahia a um artigo algo irônico de um cientista francês, desfavorável ao Espiritismo, publicado na Gazette Médicale e transcrito no jornal referido. As publicações brasileiras não passaram despercebidas ao próprio Allan Kardec, que delas teve conhecimento, com a mais justa satisfação íntima.²

O Brasil já estava com o terreno arado para receber as instruções e os esclarecimentos contidos na Doutrina Espírita, que veio abrir uma Nova Era para a renovação moral e espiritual da Humanidade, conforme os Espíritos ditaram a Allan Kardec:

Os Espíritos anunciam que chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus e os agentes de sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da Humanidade.

[…]

“A vaidade de certos homens, que julgam saber tudo e tudo querem explicar a seu modo, dará nascimento a opiniões dissidentes. Mas todos os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão num só sentimento: o do amor do bem e se unirão por um laço fraterno, que prenderá o mundo inteiro. Estes deixarão de lado as miseráveis questões de palavras, para só se ocuparem com o que é essencial. E a Doutrina será sempre a mesma, quanto ao fundo, para todos os que receberem comunicações de Espíritos Superiores. […]

Lembra-te de que os bons Espíritos só dispensam assistência aos que servem a Deus com humildade e desinteresse e que repudiam a todo aquele que busca na senda do Céu um degrau para conquistar as coisas da Terra; que se afastam do orgulhoso e do ambicioso. O orgulho e a ambição serão sempre uma barreira erguida entre o homem e Deus. São um véu lançado sobre as claridades celestes, e Deus não pode servir-se do cego para fazer perceptível a luz”.³

Nessas primeiras observações, logo no início de O livro dos espíritos, verifica-se, de maneira límpida, instruções, esclarecimentos e pontos essenciais a serem observados e praticados pelos estudiosos da obra basilar do Espiritismo.

A vaidade dará nascimento a opiniões dissidentes, mas os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão num único sentimento: o do amor no bem e se unirão por um laço fraterno, que prenderá o mundo inteiro.

Chamamento claro para a prática do amor e da união, deixando de lado as miseráveis questões de palavras para só se ocuparem com o essencial; no entanto, ao observar a chegada do Espiritismo no Brasil e o seu desenvolvimento, percebe-se que as referidas instruções foram olvidadas pelos que deram azo às opiniões dissidentes e não puseram em prática as claridades celestes que os Mensageiros de Deus e os agentes de sua vontade vieram trazer, a fim de que a luz fosse perceptível na escuridão da ignorância e do materialismo vigentes.

A Doutrina seguia marcha vitoriosa, por dentro de todos os ambientes cultos da Europa e da América, quando o grande codificador se desprendeu dos laços que o retinham à vida material, em 1869. Justamente nesse ano surgira o primeiro periódico espírita brasileiro — O Eco d’Além-Túmulo. O desaparecimento do mestre deixara algo desorientado no campo geral da Doutrina em organização. Em Paris, como nos grandes centros mundiais, quiseram inutilmente substituir-lhe a autoridade. As falanges de Ismael estavam vigilantes.

Sugeriram aos espiritistas brasileiros a necessidade de criar, no Rio, um núcleo central das atividades, que ficasse como o órgão orientador de todos os movimentos da Doutrina no Brasil. Um dos emissários de Ismael, que dispunha de maiores elementos no terreno das afinidades mediúnicas, para se comunicar nos grupos particulares organizados na cidade, adotou o pseudônimo Confúcio, sob o qual transmitia instrutivas mensagens e valiosos ensinamentos. Em 1873 fundava-se, com estatutos impressos e demais formalidades exigidas, o “Grupo Confúcio”, que constituiria a base da obra tangível e determinada de Ismael, na terra brasileira. Por esse grupo passaram, na época, todos os simpatizantes da Doutrina e, se efêmera foi a sua existência como sociedade organizada, memoráveis foram os seus trabalhos, aos quais compareceu pessoalmente o próprio Ismael, pela primeira vez, esclarecendo os grandes objetivos da sua elevada missão no País do Cruzeiro.⁴

Nas palavras do ex-presidente da FEB, Juvanir Borges de Souza,

Vale a pena rememorar aqui, para a edificação das novas gerações de espíritas, as previsões de Ismael em rara e eloquente mensagem de transcendente significação, eis que ela resume a orientação espiritual que a Federação abraçou e sempre procurou imprimir à sua obra:

“O Brasil tem a missão de cristianizar. É a terra da Promissão. A terra de todos. A terra da fraternidade. A terra de Jesus. A terra do Evangelho. Não foi por acaso que tomou o nome de Vera Cruz, de Santa Cruz. Não foi por casualidade que recebeu desde o berço o leite da religião cristã. Não foi sem significação que a viram os primeiros navegadores debaixo do Cruzeiro do Sul. Na Era Nova e próxima, abrigará um povo diferente pelos costumes cristãos. Cumpre ao que ouve os arautos do Espaço, que convocam os homens de boa-vontade para o preparo da Nova Era, reconhecer em Jesus o chefe espiritual. Com o Evangelho explicado à luz do Espiritismo, a moral de Jesus, semeada pelos jesuítas e alimentada pelos católicos, atingirá a sua finalidade, que é rejuvenescer os homens velhos, que aqui nascerão ou para aqui virão de todos os pontos do globo, cansados de lutas fratricidas e sedentos de confraternidade. A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho em Espírito e Verdade. Os que quiserem bem cumprir o dever, a que se obrigaram antes de nascer, deverão, pois, reunir-se debaixo desse pálio trinitário: Deus, Cristo e Caridade. Onde estiver esta bandeira, ai estarei eu, Ismael”.⁵

Ismael, desde então, deixou clara a missão do Brasil, que mais tarde veio a ser ratificada pela mediunidade abençoada de Chico Xavier, quando o Espírito Humberto de Campos, recolhendo nas tradições do Mundo Espiritual as informações contidas no livro Brasil coração do mundo, pátria do evangelho, esclarece:

Estas páginas modestas constituem, pois, uma contribuição humilde à elucidação da história da civilização brasileira em sua marcha através dos tempos. Têm por único objetivo provar a excelência da missão evangélica do Brasil no concerto dos povos e que, acima de tudo, todas as suas realizações e todos os seus feitos, forros dos miseráveis troféus das glórias sanguinolentas, tiveram suas origens profundas no Plano Espiritual, de onde Jesus, pelas mãos carinhosas de Ismael, acompanha desveladamente a evolução da pátria extraordinária, em cujos céus fulguram as estrelas da cruz […].⁶

Da mesma forma, Emmanuel, ao prefaciar a obra citada, informa:

[…] O Brasil não está somente destinado a suprir as necessidades materiais dos povos mais pobres do planeta, mas também a facultar ao mundo inteiro uma expressão consoladora de crença e de fé raciocinada e a ser o maior celeiro de claridades espirituais do orbe inteiro […].⁷

O Dr. Joaquim Carlos Travassos, um dos membros do “Grupo Confúcio”, havia empreendido a primeira tradução das obras de Kardec e, assim que O livro dos espíritos foi editado em português, levou um exemplar ao então deputado católico, Bezerra de Menezes, com dedicatória.

É o próprio Bezerra⁸ que no-lo afirma em Reformador de 15 de julho de 1892:

Deu-mo na cidade, e eu morava na Tijuca, a uma hora de viagem em bonde. Embarquei com o livro e, como não tinha distração para a longa viagem, disse comigo: “ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto… Depois, é ridículo confessar-me ignorante dessa filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas”. Pensando assim abri o livro e prendi-me a ele como acontecera com a Bíblia. Lia. Mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito. Entretanto, tudo aquilo era novo para mim!… Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava em O livro dos espíritos… Preocupei-me seriamente com esse fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: “parece que eu era espírita inconsciente, ou, como se diz vulgarmente, de nascença”.

A partir de então, Bezerra de Menezes passou a ser, além de adepto do Espiritismo, seu defensor e divulgador.

Ao “Grupo Confúcio” seguiu-se a Sociedade Espírita “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876, com programação francamente evangélica estampada em seu próprio nome e cumprida até 1879.

Cindida a Sociedade, passando a denominar-se Sociedade Acadêmica, num processo de seleção natural segundo as inclinações dos elementos humanos e dentro da liberdade individual sempre presente, uma ala, tendo à frente Bittencourt Sampaio, Sayão e Frederico Junior, destacou-se para fundar o “Grupo Espírita Fraternidade”, em 1880. O “Fraternidade” prosseguiu com a orientação evangélica até transformar-se em “Sociedade Psicológica”, desaparecendo em 1893.

Observe-se a definição de rumos, com a preocupação de alguns adeptos desavisados, suprimindo o qualificativo “Espírita” e substituindo-o por “Acadêmica” e “Psicológica” nas duas sociedades. […]⁹

Aqueles eram dias difíceis para os espíritas da primeira hora no Brasil, principalmente no que respeita à divulgação doutrinária, que encontrava no catolicismo o seu grande opositor. Foi nesse contexto que, em junho de 1882, Augusto Elias da Silva resolveu escrever uma réplica a uma Pastoral da Igreja, em que o Chefe desta, no Rio de Janeiro, declarava: “Devemos odiar [o Espiritismo] pelo dever de consciência”. Como não conseguiu espaço para inserir o artigo em nenhuma folha, foi tomado do desejo de possuir um jornal próprio, a serviço das ideias liberais. E, quase sozinho, fazendo sacrifício acima de suas possibilidades, veio a concretizar a ideia seis meses após, ao editar a revista Reformador com o propósito de renovar os costumes. Dentre suas seções, uma era voltada a todas as corporações cientificas, filosóficas e literárias; outra, dedicada exclusivamente ao Espiritismo.

Naquela hora as forças católicas estavam em marcha. Dos púlpitos fluminenses despejavam-se insultos e insinuações […].

Elias foi bater à porta liberal de Bezerra de Menezes. Este o aconselhou a seguir naquele momento uma política discreta, não revidar com as mesmas armas, opor contra o ódio o amor, esperar que os vagalhões da maior força religiosa do país se acalmassem. Afrontar o temporal seria uma imprudência… era conveniente conquistar, e não combater o católico.¹⁰

Nessa época, já existiam muitas sociedades espíritas na capital do Império e em algumas províncias.

Coube a Augusto Elias da Silva a iniciativa de fundar a Federação Espírita Brasileira (FEB), em 2 de janeiro de 1884, com o apoio de Ewerton Quadros, Xavier Pinheiro, Fernandes Figueira, Silveira Pinto e outros. Uma de suas primeiras resoluções foi a incorporação do órgão Reformador à nova Sociedade.

Faz-se mister ressaltar que a denominação – Federação – não contava, inicialmente, com nenhuma filiação de qualquer outra entidade; criou-se uma Federação, sem ter nada para federar, até porque ainda era o Segundo Império. No entanto, fica evidenciado que seus fundadores foram instrumentos da falange de Ismael, dentro de um planejamento maior que projetava o futuro da FEB.

Nos dez anos que se seguiram, até 1894, a FEB suportou enormes vicissitudes: dissensões, penúria econômica, deserções, e dificuldades decorrentes de questões sociais e políticas impostas pela Abolição da Escravatura, seguida da queda do Império, da Proclamação da República, da Revolta da Armada; o ideal, porém, permaneceu firme no tumulto dos acontecimentos, sustentado por uns poucos.

Nesse contexto disperso, em que os interesses pessoais, institucionais, bem como a vivência dos postulados espíritas, por alguns adeptos, ainda não se fazia como desejado, é que Ismael,

[…] começando o movimento de organização nos primeiros dias de 1889, preparara o ambiente necessário para que todos os companheiros do Rio ouvissem a palavra póstuma de Allan Kardec, que, por meio do médium Frederico Júnior, forneceu as suas instruções aos espiritistas da capital brasileira, exortando-os ao estudo, à caridade e à unificação.

Bezerra de Menezes, que já militava ativamente nos labores doutrinários, recebeu a palavra do Alto com a alma fremente de júbilo e de esperança, e considerou, no campo de suas meditações e de suas preces, a necessidade de se reunir a família espiritista brasileira sob o lábaro bendito de Ismael, a fim de que o mundo conhecesse o Cristianismo restaurado. Existiam, no Rio, sociedades prestigiosas, mas cada qual com o seu programa particular, descentralizando a ação renovadora que as instruções do plano invisível traziam, logicamente, a todos os corações que militavam no sagrado labor da Doutrina.¹¹

Foi assim que, naquele ano de 1889, convidado, aceitou Bezerra a presidência da Federação Espírita Brasileira, com a esperança de realizar um Movimento, conforme havia mostrado Allan Kardec.

[…] Convocou todos os grupos para um congresso, que teve lugar em 31 de março de 1889. Compareceram 24 grupos, que aceitaram a sua sugestão de pôr-se de lado qualquer das entidades existentes, e formar-se um Centro, em que cada grupo tivesse um representante. E cheio de animação, disse pelo Reformador de 1º de maio: “Por toda a parte, em terra e nos ares, ouviam-se as vozes dos que clamavam por união dos espíritas, por ordem e regularidade em seus trabalhos. […] Da Federação ergueu-se o brado de reunir e, mediante convite a todos os grupos espíritas da Corte, teve lugar uma assembleia, em que estiveram representados 24 grupos, dois terços, pouco mais ou menos, dos que trabalham entre nós. Nesta assembleia, em que transparecia o ardente desejo de todos: de verem erguer-se, no Brasil, sobre as bases da união e da fraternidade o templo do angélico Ismael, resolveu-se por unanimidade, convocar um congresso constituinte para se assentar no modo de dar-se satisfação à recomendação do Mestre, e aspiração de todos os espíritas. A esse congresso (constituinte) concorreram representantes de 24 grupos que formaram a assembleia que o convocara, e mais 10 novos, portanto, 34 delegados dos grupos espíritas da Corte”. Mais adiante, “[…] o congresso dissolveu-se…”¹²

O momento era de confusão, rivalidade, orgulho e isolamento, contrário ao que Kardec dissera no final de sua mensagem:

[…] “Permita Deus que os espíritas a quem falo, que os homens a quem foi dada a graça de conhecer em Espírito e Verdade a Doutrina do Cristo, tenham a boa vontade de me compreender – a boa vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhes consagro” […]¹³

Ao final do ano de 1889, muito sobrecarregado, o Dr. Bezerra passou a outro companheiro a presidência da Federação Espírita Brasileira.

Logo após a proclamação da República, Ismael volta a concentrar seu esforço na consolidação da sua obra terrestre. Seu primeiro cuidado foi examinar todos os elementos, procurando reafirmar, no seio dos ambientes espiritistas, a necessidade da obra evangélica, no sentido de que ressurgisse a doutrina de tolerância e de amor, de piedade e perdão, do Crucificado. Todo um campo de trabalho se desdobrava aos olhos de suas abnegadas falanges, aguardando o esforço dos arroteadores para a esperançosa semeadura. Seu coração angélico e misericordioso, sob a égide do Divino Mestre, já havia distribuído as noções evangélicas a todos os Espíritos sedentos das claridades do Consolador, e a Doutrina dos Espíritos, no Brasil, sob a sua influência, se tocava da luz divina da caridade e da crença, pressagiando as mais sublimes edificações morais. […]

A Federação Espírita Brasileira, fundada desde o ano-bom de 1884, por Elias da Silva, Manoel Fernandes Figueira, Pinheiro Guedes e outros companheiros do ideal espiritualista, no Rio de Janeiro, esperava, sob a proteção de Ismael, a época propícia para desempenhar a sua elevada tarefa junto de todos os grupos do país, no sentido de federá-los, coordenando-lhes as atividades dentro das mais sadias expressões da Doutrina. Bezerra de Menezes, desde 1887, iniciara uma série de trabalhos magistrais pelas colunas de O Paiz, oferecendo a todos as mais belas e produtivas sementes do Cristianismo. A palavra de Max, pseudônimo que ele havia adotado, inundava de esperança e de fé o coração dos seus leitores, iniciando-se, desse modo, uma das mais prodigiosas sementeiras do Espiritismo no Brasil. Desde 1885, igualmente funcionava o Grupo Ismael, com Sayão e Bittencourt Sampaio, célula de evangelização, cujas claridades divinas tocariam todos os corações.

Em breve, os mensageiros do Senhor conseguiram agremiar a caravana dispersa. No templo de Ismael iam reunir-se, enfim, os operários da grande oficina do Evangelho: Bezerra, Sayão, Bittencourt, Frederico, Filgueiras, Richard, Albano do Couto, Zeferino Campos e outros elementos da vanguarda cristã.

O tempo, todavia, era de transição e de incertezas.

A República, com as suas ideologias novas, filhas do positivismo mais avançado, criara os mais sérios embaraços ao desenvolvimento da Doutrina. O novo Código Penal incluíra o Espiritismo nos seus textos e o ambiente era obscuro, sentindo todas as correntes espiritistas a necessidade imediata de união para a defesa comum e, enquanto se balbuciavam protestos a medo, a Federação, com a sua prudência e a sua serenidade, iniciou a defesa pacífica da Doutrina, dirigindo uma “Carta Aberta” ao Ministro da Justiça do Governo Provisório, em que esclarecia devidamente a situação. Os mensageiros invisíveis cuidaram, então, de organizar os novos planos de unificação de todos os elementos.

[…]

As energias dissolventes das trevas do mundo invisível lutaram contra ele [Ismael] e contra o Evangelho. Forças terríveis de separatividade pesaram sobre os seus esforços no ano de 1893, quando o próprio Bezerra, incansável e abnegado missionário, foi obrigado a paralisar os seus escritos nas páginas de O Paiz, depois de quase sete anos de doutrinação ininterrupta e brilhante, num apelo a Jesus, com as mais comovedoras lágrimas da sua crença e do seu sacrifício.

Ismael, porém, não abandonou os seus devotados colaboradores; reuniu os companheiros
mais afins com as suas ideias generosas e reorganizou a sua obra.

[…] Escolheu as reservas preciosas da Federação e assentou, dentro dela, a sua tenda de trabalho espiritual. Consolidou a Assistência aos Necessitados, fundada em 1890, que radicou a sua obra no coração da coletividade carioca, e a caridade foi e será sempre o inabalável esteio da venerável Instituição […]. Com essas providências levadas a efeito numa das noites memoráveis de julho de 1895, Bezerra de Menezes assumia a sua posição de diretor de todos os trabalhos de Ismael no Brasil, coordenando os elementos para a evangelização e deixando a Federação como o porto luminoso de todas as esperanças, entre o Grupo Ismael, que constitui o seu santuário de ligação com os trabalhadores do Infinito, e a Assistência aos Necessitados, que a vincula, na Terra, a todos os corações infortunados e sofredores, e representa, de fato, até hoje, a sua âncora de conservação no mesmo programa evangélico, no seio das ideologias novas e das perigosas ilusões do campo social e político. Bezerra desprendeu-se do orbe, tendo consolidado a sua missão para que a obra de Ismael pudesse ser livremente cultivada no século XX. […]¹⁴

Desencarnou em 11 de abril de 1900, às 11h30, tendo ao lado a dedicada companheira de tantos anos, Cândida Augusta.

Os continuadores da obra, mal refeitos da penosa impressão causada pela desencarnação do companheiro e condutor ( Bezerra de Menezes), logo compreenderam que não poderiam estacionar, nem recuar. Continuar o programa delineado, com tão bons resultados práticos alcançados, impunha-se logicamente.

O novo Presidente eleito, Leopoldo Cirne, sucessivamente reconduzido até 1914, seguiu o roteiro, reajustando pormenores impostos pelas circunstâncias.

Grandes realizações caracterizam esse período, inicialmente despojou-se o novo Presidente dos poderes excepcionais conferidos a Bezerra, decorrentes das circunstâncias extremamente difíceis enfrentadas por seu antecessor.

Em 1901, procedeu-se à revisão nos Estatutos, com inovações de alto interesse, destacando-se a reorganização da Assistência aos Necessitados e os dispositivos referentes à filiação das instituições espíritas de todo o Brasil, com vistas à unificação, sob a forma federativa, plenamente aprovada, na prática. Definiu-se, desde então, o significado da unificação, com vistas à união solidária e fraterna, sem prejuízo da autonomia individual, administrativa e patrimonial das entidades adesas.

A organização federativa assim concebida ultrapassava os limites geográficos da então Capital da República para ganhar as vastas linhas do país continental, surgindo de muitas cidades dos Estados brasileiros os pedidos de adesão das casas espíritas à Federação.

A 3 de outubro de 1904 transcorreria o centenário do nascimento do Codificador do Espiritismo. Os espíritas de todo o mundo comemorariam de alguma forma aquela data.

Reformador lançou, com muita antecedência, a ideia de reunir no Rio de Janeiro os representantes dos centros e sociedades espíritas de todos os Estados, em homenagem ao missionário.

O convite foi bem recebido. A Federação organizou intenso programa de três dias, compreendendo conferências, encontros fraternais, inauguração de cursos, encerrando-se a jornada com sessão solene, na noite de 3 de outubro, no salão da Associação dos Empregados do Comércio, reunindo multidão de cerca de duas mil pessoas.

Nesse memorável encontro de âmbito nacional, de significativa importância, fizeram-se representar os espiritistas dos Estados do Amazonas, Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, além das casas espíritas da Capital Federal.

O ponto mais importante do congraçamento foi, sem dúvida, a apreciação e aprovação das “Bases de Organização Espírita”, documento que passou a orientar a marcha do Movimento Espiritista no nosso país. Preconizaram as “Bases” a criação de uma instituição na capital de cada Estado brasileiro, a qual ficaria incumbida de filiar os centros e associações estaduais, formando assim, com a FEB, uma rede de entidades fortalecidas na solidariedade e na fraternidade.

Instituíram, outrossim, um programa doutrinário básico, semelhante ao da Federação, com fulcro nas obras O livro dos espíritos, e O livro dos médiuns facultando-se o estudo dos Evangelhos, segundo a tendência de cada entidade, pela obra O evangelho segundo o espiritismo ou Os quatro evangelhos. Recomendaram ainda a fundação de escolas de médiuns, objetivando o preparo dos médiuns por meio do estudo doutrinário, a criação de caixas de socorro, semelhantes à Assistência aos Necessitados, serviços de curas espíritas por meio de receituário homeopático, aulas de instrução elementar e secundária e outras providências.¹⁵

Nesse documento: “Bases de Organização Espírita”, delinearam-se as diretrizes para todo o Movimento Espírita. Era a construção de um anseio que amadurecia, a cada ano, até o momento em que se efetivou.

Somente a 5 de outubro de 1949 a família espírita brasileira veio a consolidar formalmente a unificação, sonho gradativamente acalentado desde os esforços iniciais do Dr. Bezerra, após haver tomado conhecimento das palavras póstumas de Allan Kardec, em 1889.

Foi necessário nascer Chico Xavier, a fim de que trouxesse, pela sua mediunidade abençoada, os relatos colhidos por Humberto de Campos, Espírito, nas tradições do Mundo Espiritual, sobre a missão do Brasil, com a publicação, pela FEB Editora, do livro Brasil coração do mundo pátria do evangelho, em 1938, ratificando o que houvera dito Ismael em 1873.

Mesmo assim, somente onze anos após, em 1949, naquele 5 de outubro, precedido pelo Congresso Pan-Americano que atraíra à antiga Capital da República muitos espíritas dirigentes de instituições estaduais, é que se efetivou a Grande Conferência do Rio de Janeiro.

Foi nessa oportunidade que, espontaneamente, surgiu em diversas mentes a ideia simultânea e voluntária de se dirigirem à Federação Espírita Brasileira, a fim de buscarem o entendimento entre todos os espíritas, que expressasse o anseio de Fraternidade preconizado no Evangelho, observado por Allan Kardec em sua mensagem póstuma de 1889 e, de há muito, acalentado pelos espíritas sinceros que, também, auguravam uma organização livre e responsável das instituições espíritas, sem personalismos e imposições de espécie alguma.

Após entendimentos preliminares, foi marcado um encontro com a Diretoria da FEB na sua sede; compareceram os representantes das Federações e demais instituições estaduais. Este momento ficou conhecido como a Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, tendo sido lavrada a célebre Ata com os pontos essenciais sobre os quais se assentava o acordo de Unificação.

Os representantes das entidades ali presentes expuseram os motivos e as esperanças de todos, elaboraram um esboço contendo princípios para a Unificação, quando foram surpreendidos pelo então Presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, com um projeto de resolução, por ele escrito um dia antes, que atendia às proposições dos representantes e mais outras não reivindicadas.

Esse fato facilitou os entendimentos e a concórdia, proporcionando uma alegria comum e a aprovação do projeto do Presidente Wantuil.

Finalmente, após sessenta anos, desde a mensagem póstuma de Allan Kardec e os incansáveis esforços do Dr. Bezerra de Menezes, em ambos os planos da vida, os espíritas estavam amadurecidos e preparados para a consolidação do ideal unificador, tendo sido lavrada a Ata num clima de emoção e alegria pela conclusão do acordo, que encontrou ressonância nos corações dos espíritas verdadeiros ao espalhar-se a notícia por todo o nosso imenso Brasil.

Lins de Vasconcelos, um dos signatários, numa expressão feliz, certamente inspirado pelo Alto, denominou aquela Ata de “Pacto Áureo”.

Dentre as disposições do referido documento estava a da criação do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (CFN-FEB), incumbido de executar, desenvolver e ampliar os planos da Organização Federativa em que se estabelecia a estrutura organizacional do Espiritismo no Brasil.

O CFN vem funcionando ininterruptamente, desde então, fortalecendo os laços fraternos de união entre os espíritas e as instituições espíritas, prestando inestimável serviço à causa espírita, esclarecendo, orientando, recomendando normas e diretrizes, aproximando instituições, contornando as incompreensões e os equívocos no mundo imperfeito de que somos protagonistas.

É o “Pacto Áureo” a expressão mais lúcida de entendimento e concórdia entre cultores da Doutrina dos Espíritos, que podem divergir em pequenos e secundários pontos doutrinários, mas que não têm razão para fazer da divergência pomo de discórdia, de intransigência, intolerância e incompreensão.

Dentro da tríplice abrangência da Doutrina, vastíssima em seu contexto, ao qual se inscrevem os postulados de contínua evolução e da liberdade individual, precisamos todos entender que os espíritas não se poderiam grupar numa massa uniforme de adeptos, na qual não houvesse a menor discrepância. A Doutrina é, sim, um só corpo, mas o estágio evolutivo de cada adepto determina-lhe a forma de compreensão dos princípios doutrinários básicos, de conformidade com o maior ou menor cabedal de conhecimentos, a bagagem carregada do pretérito e a tendência de cada um. Esse pensamento, fundamentado na índole e no gênio universalista do Espiritismo, ao lado dos sentimentos cristãos da tolerância e da fraternidade, que não podemos esquecer jamais, induz-nos a rejeitar a posição radical dos que procuram rotular os espíritas, com essa ou aquela tendência, de kardecistas e roustenistas, místicos e científicos, desde que todos, sendo espíritas, aceitam as bases da Doutrina e sua vinculação estreita com o Evangelho de Jesus.

Dentro dessa constante, será perfeitamente possível ao espírita assimilar a Doutrina, de acordo com seu estágio evolutivo, e praticá-la na medida de suas forças e tendências, esforçando-se continuamente por aperfeiçoar-se, rejeitando a intransigência e a intolerância, formas de coação espiritual incompatíveis com a fraternidade entre irmãos muito próximos.

O “Pacto Áureo” veio compatibilizar a vivência da Doutrina dentro do princípio da liberdade, sem exclusão do amor fraterno, tornando viável o que parecia inconciliável.

Após sua vigência, todo o Movimento Espírita brasileiro conheceu nova fase de crescimento, de cooperação, de expansão.¹⁶

Assim, pois, neste ano em que se comemoram sete décadas daquele momento áureo, culminância de um anseio dos espíritas sinceros, que desejam a Fraternidade, compete a nós outros estreitar os laços de solidariedade, respeito mútuo à liberdade e à autonomia das instituições espíritas, para que, unidos, amando-nos mutuamente, possamos protagonizar a divulgação do Evangelho de Jesus, em Espírito e Verdade, debaixo do pálio trinitário de Ismael: Deus, Cristo e Caridade.

Os signatários do “Acordo” cumpriram seus deveres e não se restringiram à assinatura, mas ao trabalho, realizando em caravana, que denominaram Caravana da Fraternidade, viagem pelo Brasil afora, a fim de divulgarem o “Pacto” e conseguirem o apoio do Movimento Espírita.

Setenta anos após, o programa ideal para os espíritas no Brasil se encontra em pleno desenvolvimento, com a adesão das 26 Federativas e do Distrito Federal, integrando o CFN, coordenado pela FEB.

Cabe, pois, aos espíritas permanecerem fraternos e solidários, para que a união se consolide e a mensagem do Evangelho, à luz da Doutrina Espírita, seja cada vez mais levada aos corações aflitos e sedentos de consolo, a fim de que um mundo melhor e de paz seja construído.

Salve o “Pacto Áureo”! Clímax do anseio dos espíritas no Brasil, desde o momento em que Allan Kardec os advertiu sobre o estudo, a caridade e a unificação.

Benditos sejam os seus signatários e todos os que, conscientes dos seus deveres, têm estreitado os laços de união para que a Unificação se fortaleça.

Louvado seja o Dr. Bezerra de Menezes, que, incansavelmente, tem sido o paladino da União e da Unificação, desde o instante em que tomou conhecimento da recomendação

póstuma de Allan Kardec, em 1889 e, sem descontinuidade, após o seu desenlace, em 1900, vem orientando paternalmente os espíritas ao desiderato da união, para que a unificação se faça com base no “amai-vos uns aos outros”, conforme recomendou Jesus, o Cristo de Deus!

Louvado seja Ismael, nosso bondoso guia, que, tomando a responsabilidade de nos conduzir ao grande templo do amor e da fraternidade humana, ergueu a sua bandeira: Deus, Cristo e Caridade, a fim de que, sob este pálio trinitário, os trabalhadores do Campo do Senhor possam cumprir os compromissos assumidos, antes do nascimento, com a sua Obra e com o grande Programa do Cristo para a regeneração da Humanidade.

Finalmente, louvada sejas, Caridade, porque sem ti não há salvação! E bendita sejas, Fraternidade, porque sem ti não haverá união!

REFERÊNCIAS:
¹ XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 23 – A obra de Ismael .
² ______. ______.
³ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 2. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2016. Prolegômenos.
⁴ XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 23 – A obra de Ismael.  
⁵ SOUZA, Juvanir Borges de. Escorço histórico da Federação Espírita Brasileira. 1. ed. Brasília: FEB, 1989. it. As origens da Federação.  
⁶ XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. Esclarecendo .
⁷ ______. ______. Prefácio .
⁸ SOUZA, Juvanir Borges de. (Coord.). Bezerra de Menezes: ontem e hoje. 4. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2016. Pt. 1, cap. 2 – Evolução religiosa de Bezerra de Menezes.
⁹ ______. Escorço histórico da Federação Espírita Brasileira. 1. ed. Brasília: FEB, 1989. it. As origens da Federação.
 ¹⁰ ABREU, Canuto. Adolpho Bezerra de Menezes. Notas biográficas com esboço da História do Espiritismo no Brasil até agosto de 1895. Livraria Allan Kardec Editora, 1950.
¹¹ XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 28 – A Federação Espírita Brasileira.
¹² ABREU, Canuto. Adolpho Bezerra de Menezes. Notas biográficas com esboço da História do Espiritismo no Brasil até agosto de 1895. Livraria Allan Kardec Editora, 1950.
¹³ ______. ______.
¹⁴ XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 34. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 28 – A Federação Espírita Brasileira.
¹⁵ SOUZA, Juvanir Borges de. Escorço histórico da Federação Espírita Brasileira. 1. ed. Brasília: FEB, 1989. it. Os primeiros anos do século XX.
¹⁶ ______. ______. it. O “Pacto Áureo” – Surge o atual Conselho Federativo Nacional