Revista Reformador

O Verbo Divino e a evolução humana

Jorge Leite de Oliveira
jojorgeleite@gmail.com

Referindo-se ao Verbo Divino, disse o Apóstolo João, no capítulo 1 do seu Evangelho:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem Ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam (João, 1:1 a 5).

Logo adiante, o Evangelista João refere-se a João Batista, como precursor, que “veio para dar testemunho da luz” (João, 1:8). E, em seguida, completa: “Ele era a luz verdadeira que ilumina todo homem; Ele vinha ao mundo. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu” (João, 1:9 a 10).

Richard Simonetti foi expositor espírita conhecido internacionalmente, desencarnado em 3 de outubro de 2018. Publicou 48 excelentes obras espíritas, algumas delas editadas pela FEB Editora, e foi articulista de vários periódicos espíritas, inclusive de Reformador, periódico mensal da FEB. Em entrevista à Revista Internacional de Espiritismo (RIE), Simonetti, no ano de 2016, disse o seguinte sobre Jesus Cristo:

Segundo Emmanuel, o mentor espiritual de Chico Xavier, Jesus já era um Espírito puro e perfeito quando surgiu a Terra, há quatro bilhões e quinhentos milhões de anos. Foi, então, convocado por Deus para ser o governador de nosso planeta, com a tarefa de orientar os Espíritos que aqui fariam estágios evolutivos, quais alunos conduzidos a um educandário para aprendizado específico relacionado com suas necessidades.¹

Até seus 30 anos, apenas se conhece a passagem em que Jesus impressiona, aos 12 anos, os doutores no templo de
Jerusalém “[…] ouvindo-os e interrogando-os; e todos os que o ouviam ficavam extasiados com sua inteligência e com suas respostas […]”.² Quando questionado sobre o desconhecimento do que então teria feito Jesus em todo esse tempo omitido pelos evangelistas, mas informado por alguns pesquisadores ter sido o período de seu convívio com os essênios, “fontes de sabedoria”, respondeu Simonetti que

Jesus não tinha nada a aprender com ninguém, apresentando-se desde cedo na plenitude de seus poderes e conhecimentos. É ilustrativo o episódio no templo, em Jerusalém, quando maravilhou os doutores da lei com os valores de uma sabedoria invulgar, inconcebível num adolescente.³

Simonetti ainda nos informaria que “[…] O Evangelho era puro demais, sublime demais para uma Humanidade atrasada, presa aos impulsos primitivos da animalidade. Jesus sabia disso, tanto que proclamou que mais tarde enviaria o Consolador, o Espírito de Verdade, que viria lembrar suas lições e trazer novos conhecimentos”.⁴ Os cristãos, ligados ao culto exterior e ao imediatismo da vida, sentiram-se incomodados pelas revelações espirituais. Por isso, perseguiram os médiuns. Alguns deles foram considerados hereges e perigosos, por demonstrarem, com base nas revelações dos Espíritos, que a vida física não passa de um breve estágio, ao qual teremos de retornar, até que nos purifiquemos. Por esse motivo, na Idade Média, foram perseguidos e lançados às fogueiras, como se fossem seres demoníacos.

Em sua presciência, Jesus previra isso. Em Mateus (10:34 a 36) lemos isto: “Não penseis que Eu tenha vindo trazer paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada; pois vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra: e o homem terá por inimigos os de sua própria casa”. Essas palavras, aparentemente, contradizem os ensinamentos do Cristo. Explica Kardec que foi Jesus mesmo quem as disse, mas não devemos atentar para sua forma e sim para seu sentido simbólico. Qual seria, então, o significado de tão duras palavras? É o que nos explica o Codificador da Doutrina Espírita:

Jesus vinha proclamar uma doutrina que solaparia pela base os abusos de que viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo. Por isso o fizeram morrer, certos de que, matando o homem, matariam a ideia. Mas a ideia sobreviveu, porque era verdadeira; engrandeceu-se, porque correspondia aos desígnios de Deus e, nascida num pequeno e obscuro vilarejo da Judeia, foi plantar a sua bandeira na própria capital do mundo pagão, em face dos seus mais encarniçados inimigos, daqueles que tinham mais interesse em combatê-la, porque subvertia crenças seculares a que eles se apegavam muito mais por interesse do que por convicção. Lutas das mais terríveis esperavam aí por seus apóstolos. As vítimas foram inumeráveis, mas a ideia cresceu sempre e triunfou, porque, como verdade superava as suas antecessoras.⁵

Entretanto, a dureza do coração humano assolaria os próprios discípulos de Jesus no futuro. Confirmando suas palavras proféticas, os pais da Igreja, ao assumirem o poder temporal, inverteram a situação e levaram os cristãos a, de vítimas, passarem a ser verdugos, como vemos expresso nas seguintes palavras kardequianas:

Infelizmente, os adeptos da nova doutrina não se entenderam quanto à interpretação das palavras do Mestre, veladas, na maior parte das vezes, pela alegoria e pelas figuras da linguagem. Daí surgirem numerosas seitas desde o início, pretendendo todas a posse exclusiva da verdade e não tendo bastado dezoito séculos para pô-las de acordo. […] Jesus colocou como pedra angular do seu edifício e como condição expressa da salvação: a caridade, a fraternidade e o amor ao próximo, aquelas seitas anatematizaram-se reciprocamente,
arremeteram-se umas contra as outras, as mais fortes esmagando as mais fracas, afogando-as em sangue, aniquilando-as nas torturas e nas chamas das fogueiras. Os cristãos, vencedores do paganismo, de perseguidos que eram, fizeram-se perseguidores. Foi com ferro e fogo que plantaram a cruz do Cordeiro sem mácula nos dois mundos. É fato constatado que as guerras de religião foram mais cruéis e fizeram mais vítimas do que as guerras políticas, e que em nenhuma outra guerra se praticaram tantos atos de atrocidades e de barbárie.⁶

Deduz Kardec que do exposto nenhuma culpa cabe à doutrina de Jesus, “que condena formalmente toda violência”. Ele possuía a presciência dos fatos futuros que iriam acontecer, após seu retorno ao Mundo Espiritual. Conhecia, perfeitamente, a insipiência humana, sua imaturidade espiritual para compreender o Cristianismo em toda a sua essência. Por isso, explica-nos o Codificador que o pensamento do Cristo, ao dizer que não viera trazer a paz, mas a divisão não poderia ser diferente deste:

“Não creiais que a minha doutrina se estabeleça pacificamente; ela trará lutas sangrentas, tendo por pretexto o meu nome, porque os homens não me terão compreendido, ou não terão querido compreender-me. Os irmãos, separados por suas respectivas crenças, desembainharão a espada um contra o outro e a divisão reinará no seio de uma mesma família, cujos membros não partilhem da mesma crença. Vim lançar fogo à Terra para livrá-la dos erros e dos preconceitos, do mesmo modo que se põe fogo a um campo para destruir nele as ervas más, e tenho pressa de que o fogo se acenda para que a depuração seja mais rápida, visto que do conflito a verdade sairá triunfante […]”.⁷

Após explicar que o Espiritismo, como Consolador Prometido, viria esclarecer o sentido das palavras de Jesus e, na época certa, restabeleceria todas as coisas e revelaria o verdadeiro sentido das palavras do Mestre, sob a bandeira da caridade, conclui Kardec:

Essas palavras de Jesus devem, pois, entender-se em referência às cóleras que Ele previa que a sua doutrina suscitaria, aos conflitos momentâneos a que ia dar causa, às lutas que teria de sustentar antes de se estabelecer, como aconteceu aos hebreus antes de entrarem na Terra Prometida, e não como decorrentes de um desígnio premeditado de sua parte de semear a desordem e a confusão. O mal viria dos homens e não dele, que era como o médico que se apresenta para curar, mas cujos remédios provocam uma crise salutar, removendo os maus humores do doente.⁸

Segundo Mateus (26:51 a 52), um dos apóstolos de Jesus, que João (18:10) afirma ser Pedro, decepa a orelha do servo do sumo sacerdote, quando o Mestre era preso. Este pede a Pedro para guardar sua espada, pois quem com a espada fere por ela será ferido, numa clara alusão à Lei de Causa e Efeito. E imediatamente cura o servo a orelha decepada, segundo Lucas (22:50 a 51).

Referindo-se a condenações terrenas, diz Ubaldi, filósofo e médium intuitivo, que “[…] Quanto mais se é obrigado a condenar, tanto mais se dá prova de que a religião do Amor faliu”.⁹ Ou seja, é pelo amor e não pelo medo da condenação que se fará uma sociedade melhor. Em vista disso, reflete esse sábio italiano:

Mas a evolução não pode deixar de impor o árduo esforço, necessário para a salvação, de se voltar ao Evangelho, ou seja, aos métodos do Amor e do céu, ao invés dos métodos das condenações e da Terra. O homem não pode deter o caminho do Evangelho. Se esse caminho de regresso a ele não for escolhido por obra de inteligência ou aceito espontaneamente das mãos da história, será ele imposto pelos próximos cataclismos sociais, encarregados de purificar o ambiente das escórias do passado. Reconhecer-se-á que o fato de se ter seguido o caminho do mundo foi aceito apenas como condição transitória, imposta pelo grau de involução do elemento humano, com o qual era preciso trabalhar. Com sua forma mental, o homem só teria respondido aos terrores do inferno, em que agora já ninguém crê e que não são úteis à evolução; devendo, portanto, ser abandonados como expediente psicológico superado […].¹⁰

Diz o Espírito Emmanuel que o conhecimento da verdade, como base de nossa libertação (João, 8:32), consoante a promessa do Cristo, não se refere a “aspectos da verdade” ou às “verdades provisórias”, que se baseiam na defesa apaixonada de nossos meros “pontos de vista”. A “atividade incessante no bem” é que nos conduzirá à “verdade libertadora”. E acrescenta adiante:

Só existe verdadeira liberdade na submissão ao dever fielmente cumprido. Conhecer, portanto, a verdade é perceber o sentido da vida. E perceber o sentido da vida é crescer em serviço e burilamento constantes.¹¹

Após citar a hipótese de Flammarion sobre a pluralidade dos mundos habitados como algo que também considera possível, diz Ubaldi o seguinte:

O trabalho da evolução está assim distribuído no Universo: nos planos da matéria, o trabalho se realiza nas estrelas e galáxias; nos planos da energia, nestas e nos espaços interestelares; nos planos da vida, na superfície dos planetas. Aqui amadurece o universo e evolui, através da vida, para sua fase superior, que é a do Espírito. O ser subirá de forma em forma, de ambiente em ambiente, de planeta em planeta, até que, evoluindo e desmaterializando-se, assuma formas tão espirituais que para elas não será necessário suporte planetário, e a vida poderá existir sem o concurso da matéria, sobrevivendo, no fim do universo físico, como produto final de sua transformação.¹²

A “desmaterialização do Espírito”, citada pelo médium intuitivo italiano é mais ou menos o que dizem as entidades desencarnadas a Kardec sobre os Espíritos puros. Tais seres não mais se sujeitam à reencarnação, pois já não são influenciados pela matéria. Sua superioridade intelectual e moral é absoluta, em relação aos demais Espíritos classificados nas outras ordens da escala espírita.¹³

O Verbo Divino, nas palavras de João e do Espírito Emmanuel, é Jesus, o Messias encarregado por Deus para conduzir a evolução do imenso rebanho de suas ovelhas terrenas, ainda desgarradas, que somos nós. Após nos recomendar a observação de nossa posição diante da Luz, conclui o Espírito Emmanuel, e também encerramos este trabalho com estas palavras: “Quem apenas vislumbra a glória ofuscante da realidade, fala muito e age menos. Quem, todavia, lhe penetra a grandeza indefinível, age mais e fala menos”.¹⁴

REFERÊNCIAS:
¹ SIMONETTI, Richard. Uma mensagem de Jesus. In : Revista Internacional de Espiritismo. São Paulo: O Clarim, ano XCI, n. 11, p. 615, dez. 2016.
² BÍBLIA DE JERUSALÉM. 3. imp. Lucas, 2:46 e 47. São Paulo: Paulus, 2004.
³ SIMONETTI, Richard. A mensagem de Jesus. In : Revista Internacional de Espiritismo. São Paulo: O Clarim, ano XCI, n. 11, p. 615, dez. 2016.
⁴ ______. ______.
⁵ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2018. cap. 23, it. 13.
⁶ ______. ______. it. 15.
⁷ ______. ______. it. 16.
⁸ ______. ______. it. 18.
⁹ UBALDI, Pietro. Evolução e evangelho. Trad. Carlos Torres Pastorino. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1983. cap. 5 – A igreja .
¹⁰ ______. ______.
¹¹ XAVIER, Francisco C. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 173 – Ante a luz da Verdade .
¹² UBALDI, Pietro. Evolução e evangelho. Trad. Carlos Torres Pastorino. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi, 1983. cap. 7 – O futuro do homem.
¹³ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. q. 100 a 113, 170 e 188.
¹⁴ XAVIER, Francisco C. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 173 – Ante a luz da Verdade.