Revista Reformador

Os caminhos da família

Caíam as noites e, aos poucos, as pessoas procuravam um lugar em torno da fogueira. Um adulto, animado pelo êxito do dia, relatava sua experiência com certa presa. Ele falava do vigor do animal e falava de si, de sua astúcia e destreza de caçador, e pelejava com o vocabulário escasso e a gramática rudimentar, apoiando- se em gestos. A narrativa atraía ouvintes. Até crianças mais desenvolvidas se entregavam à arte de imaginar, a partir dos detalhes descritos, ao mesmo tempo em que absorviam técnicas de caça. Outros adultos aproveitavam a atenção geral e também contavam suas aventuras. Um deles se punha a relembrar acontecimentos misteriosos, que falavam de forças e poderes invisíveis, transmitindo mitos e lendas.

Foi dessa vivência comum em torno do fogo que surgiu, mais tarde, na língua grega arcaica, uma linda palavra: epistion, que deu nome ao grupo que ficava em torno do fogo doméstico, termo que acabou sendo empregado para designar “família”. A família, assim, nasceu do movimento de aproximação humana e da troca de saberes.

Um dos modelos de família mais duradouros da história humana pode ser justamente chamado de núcleo familiar antigo. Esse arranjo familiar, consolidado durante o Império Romano, e que está se retraindo desde o século XX, é centrado na autoridade paterna e se organiza a partir de duas funções: a) matrimonium, o múnus, a função da mulher casada é ser mãe; b) patrimonium, a função do homem casado é gerir os bens, inclusive a mulher e os filhos. Dentro dessa perspectiva, na cerimônia do casamento religioso tradicional, a noiva nunca caminha sozinha no templo: ela entra levada pelo pai e é entregue ao futuro esposo, sem intermediários, significando, literalmente, a transferência da autoridade de um para o outro sobre ela. Os conceitos fundamentais do núcleo familiar antigo são: o nome, o sangue, a honra, o trabalho, a fé e a subordinação. Embora constitua famílias relativamente estáveis, aptas a garantir o funcionamento econômico, essa proposta familiar gera tensão íntima e intensa anemia intelectual em seus participantes. Apenas o interesse de um prevalece. As escolhas são subordinadas e as discordâncias são caladas. As ideias sobre o mundo, a vida e o destino ficam aprisionadas às opiniões do chefe do clã, que espelham as concepções recebidas de seus antepassados.

Do final do século XVIII até meados do século XX, proliferou o modelo familiar moderno. Podemos representar o núcleo familiar antigo (como já sugeriram) desenhando um círculo rígido e fechado, com apenas uma porta de comunicação com o seu interior, qual seja, a autoridade paterna, sustentada pela autoridade religiosa e pela tradição. No núcleo familiar moderno, variadas portas de comunicação se abrem na estrutura circular para a entrada de novas influências. Essa dinâmica familiar faculta aos membros fruir de parcelas de liberdade para agir, mas enfrentando tensões nos relacionamentos, em face da necessidade de se contestar os valores do núcleo familiar antigo.

No tempo de predomínio do núcleo familiar antigo, o ensino ocorria para bem poucos, e, via de regra, dentro de casa. O trabalho era exercido quase sempre no reduto do lar; a oficina era doméstica. Na era da família moderna, desenvolve-se a escola. O trabalho, em geral, migra para fora do lar. Meios de comunicação se disseminam, ligando os integrantes ao mundo. Multiplica-se o livro, aparece o folhetim, o jornal, o rádio e a televisão. Essa família ainda é estendida, isto é, tem interesse em conviver com outros parentes além de pais, filhos e irmãos. O casal alimenta anseios de amor romântico, o que não se costuma ver na família antiga. E a autoridade paterna lentamente diminui, ou para dar espaço à autoridade materna, ou por estar em conflito com ela.

O ano de 1968 é considerado o marco de nova fase da vida social humana, chamada Pós-modernidade, período que vem se caracterizando pelo ideal do consumo, pela cultura do hedonismo, do individualismo e da competição, pelo desinvestimento da política e do político, quer dizer, o desinteresse do cidadão pela condução da coisa pública e pela participação nos rumos da pólis. O círculo representativo da família pós-moderna tem mais aberturas do que o da família moderna. A informática revoluciona as comunicações. Mesmo estando dentro de casa, a pessoa costuma estar fora de casa, conectada com qualquer pessoa, a qualquer parte do mundo. Por consequência, é um núcleo familiar esvaziado, quase ninguém fica em casa, inclusive, e com o mesmo direito, a mãe.

Surge, com o núcleo familiarpós-moderno, a preocupação em dar autonomia aos filhos, uma preocupação de muitos, mas que, em alguns, carrega um conteúdo inconsciente: “Eu não preciso me dedicar tanto a eles”. Os analistas sociais identificaramesse padrão: o valor da juventude para o mundo adulto pós-moderno, isto é, o desejo de alongar a juventude, é proporcional ao desejo de dar autonomia aos filhos. O New Oxford Dictionary of English1 já cita um neologismo criado pela imprensa britânica em 1997: “adultescente”, que mistura as palavras adult (adulto) e adolescent (adolescente) para caracterizar adultos que se fazem de adolescentes, que têm um comportamento e uma estética adolescentes. E os analistas sociais estão dando o alerta: faltam adultos nos lares. Na verdade, ninguém pode dar autonomia ao outro; ela é uma conquista pessoal, significa a capacidade de se autogovernar com base em determinados objetivos. O que muitos pais estão dando aos filhos não é autonomia, é independência. Em O livro dos espíritos,2 Allan Kardec perguntou (q. 775): Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família? E os Espíritos avaliaram: “Uma recrudescência [intensificação] do egoísmo”.

A família pós-moderna é “criançocêntrica”, como se tem dito. Nem matriarcal, nem patriarcal. Pela primeira vez na civilização humana muitas famílias giram em torno dos desejos dos filhos, apesar de não ter a criança a apropriada compreensão do mundo e das coisas. Essa geração vem sendo prejudicada pelos pais adeptos do “dar tudo pronto na hora”.

Nesses novos tempos, a família vem diminuindo de tamanho, e está se tornando cada vez mais restrita, nuclear. Se no Brasil dos anos de 1970 a média era de cinco filhos por mulher, a média atual é 1,79 filhos por mulher.3 E do núcleo familiar moderno para o núcleo familiar pós-moderno, os pais vêm perdendo o papel de iniciadores do saber dos filhos. Os pais descobriram que têm que conversar com os filhos. Mas não só conversa; têm também de ter o que dizer a eles. E o que têm a dizer, por exemplo, sobre a vida? Por que estamos aqui? É, principalmente, isso que tem afetado os relacionamentos e alterado os rumos de muitas famílias. Quais são as consequências disso? Manifesta- se uma profunda anemia ética. Não é raro os filhos desajustados serem medicados, confundindo-se problemas existenciais com problemas de saúde mental. Certo perfil de religião está perdendo o respeito, em razão de seu conteúdo, que não fala à inteligência, e isso vem levando muitas pessoas a se afastarem dos valores religiosos. Se o lar está vazio, adultos e jovens se sentem esvaziados. Se numa casa falta especialmente a atenção materna – o que é diferente da presença física –, o sentimento de desamparo cresce. Tudo isso produz ânsia de sensações fortes; algo especialmente grave para grande parte dos filhos, pouco hábil em avaliar riscos.

Até os anos de 1970, alguns diziam que a família estava em decadência, ou a caminho da extinção. Falava-se em sociedade pós-família. Observadores mais atentos notaram, porém, nas décadas seguintes, que as vozes apocalípticas que anunciavam o fim da família emudeceram. Quase ninguém mais questiona a validade e a importância da família. A crítica contra a família está próxima de zero. A lei de família é uma lei natural, e prossegue agindo sobre a Criação, mesmo que se alterem os formatos de família. Não se pode falar em sociedade sem estruturas familiares.

A família é um refúgio num mundo sem coração, disse o historiador americano Christopher Lasch, em famoso livro4 de 1977. Por outro lado, o consumismo é um aspecto da vida pós-moderna que influencia poderosamente as famílias, por ser um fator que compromete as uniões conjugais. Uma sociedade de consumo é aquela que oferece produtos que continuamente devem dar prazer, e com ar de novidade; ou, como alguém formulou, é aquela em que as coisas valem cada vez mais e as pessoas cada vez menos. O casamento necessariamente tem que produzir certo desencanto. O Espírito Emmanuel propôs, num dos mais notáveis livros sobre a formação familiar, Vida e sexo,5 lançado em 1970, que

[…] o Espírito encarnado nenhum proveito recolheria do casamento, caso pretendesse imobilizar-se no êxtase do noivado. (cap. 9 – União infeliz, p. 36).

Muito comum se alterem as condições afetivas depois que o navio do casamento se afasta do cais do sonho para o mar largo da experiência.

[…]

Urge, porém, salvar a embarcação ameaçada de soçobro [naufrágio], seja pelo choque contra os rochedos ocultos das dificuldades morais ou pelo naufrágio nas águas mortas do desencanto. (cap. 11 – Alterações afetivas, p. 43 e 44).

A dinâmica pós-moderna, contudo, sugere sucessivos amores conjugais, na expectativa de muitos prazeres e, se possível, nenhum desencanto.

O discurso mudou: a família não está em decadência, está em desordem. Esse, aliás, é o título de um livro da célebre psicanalista Elisabeth Roudinesco: La famille en désordre,6 de 2002. Acrescentamos “em desordem” porque estão se formando arranjos familiares a partir da ascensão de certos valores, sob a influência de velhos conflitos da alma.

Os seres humanos prosseguem valorizando o casamento, ainda que o façam por meio de metodologias duvidosas. E mesmo que o façam sucessivamente, continuam a se casar esperando o êxito da nova tentativa. A pergunta 696 de O livro dos espíritos7 questionou: Qual seria o efeito da abolição do casamento sobre a sociedade humana? “Uma regressão à vida dos animais”, responderam os Espíritos. Óbvio que, aqui, casamento não significa “contrato civil”. Mas também não podemos esquecer a importância social desse contrato jurídico.

As pessoas continuam acreditando na e querendo a família; sentem cada vez mais necessidade dela. O conforto que a família oferece é incomparável e dificilmente substituível: ela é privilegiada fonte do alimento das almas, o amor, além de dar a sensação de ser e de pertencer. Contudo, as novas gerações desejam que a família se reconfigure numa construção de laços que façam dela um refúgio, uma fonte de proteção, afeto e fraternidade, um campo de relações interpessoais que harmonize necessidades tais como liberdade e dever, renúncia e valorização individual, fé e saber. Lembrando Michelle Perrot, queremos o ninho e não o nó.

Michelle Perrot, historiadora francesa, foi convidada, em 1993, por uma revista semanária brasileira a opinar sobre os rumos da família no terceiro milênio. Ela deu ao seu texto o título O nó e o ninho.8 A família do século XIX – considerou a historiadora – era ambígua: ninho e nó ao mesmo tempo. Como ninho, era um refúgio, centro de intercâmbio afetivo e sexual, barreira contra as agressões exteriores, abrigo solidário. Como nó, era patriarcal, fechada, exclusivista e normativa, palco de incessantes conflitos. Se apresentava certo nível de solidariedade nos relacionamentos, por outro lado era inflexível com a liberdade individual, praticamente inexistente para os filhos e a esposa.

Perrot, acertadamente, acredita que outra família “está a caminho”. E esclarece:

Não é a família em si que nossos contemporâneos recusam, mas o modelo excessivamente rígido e normativo que assumiu no século XIX. Eles rejeitam o nó, não o ninho. A casa é, cada vez mais, o centro da existência. O lar oferece, num mundo duro, um abrigo, uma proteção, um pouco de calor humano. O que eles desejam é conciliar as vantagens da solidariedade familiar e as da liberdade individual. […]. O que se gostaria se conservar da família, no terceiro milênio, são seus aspectos positivos: a solidariedade, a fraternidade, a ajuda mútua, os laços de afeto e o amor. Belo sonho. (cap. 7, p. 81).

Bela imagem! O nó constrange, comprime e limita. O ninho é a representação do aconchego, do acolhimento, do calor terno e da cooperação fraterna, em que os seres são preparados (ganham asas) para conquistarem o infinito.

Ocorre que os indivíduos não iniciam a vida na existência que está em curso. São Espíritos em experiências corporais múltiplas, tendo experimentado outras existências humanas, outras culturas e outros contextos familiares, em que formaram vínculos afetivos e morais com outros indivíduos.

Os Espíritos, fora da transitória realidade humana, estão continuamente construindo suas famílias espirituais, “[…] entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança de inclinações. […]”.9 Deixando o Mundo Espiritual – o plano permanente da evolução – os Espíritos retornam à existência material arrastando problemas do passado não solucionados e carregando, igualmente, conquistas de valor eterno. E a família consanguínea costuma
ser o ponto de reencontro dos vínculos afetivos, por afinidade, e dos vínculos morais, por dívidas da consciência, notadamente em razão dos prejuízos causados ou pelo bem que não foi feito ao outro. Por isso, não é raro se sentir em família como se estivesse dentro de um “espinheiral magnético de vibrações contraditórias”, ou caminhando por um “labirinto de enigmas emocionais”, cuja
estrutura é difícil de entender e a saída desafia nossos melhores investimentos de tolerância e boa vontade.

Daí a importância indispensável dos conhecimentos alusivos à reencarnação na análise da família, para que o lar não se converta, de bendita escola que é, em pouso neurótico, sementeira de moléstias psicológicas dificilmente reversíveis, como considerou Emmanuel (cap. 12 – Família): “A família consanguínea pode ser apreciada como o centro essencial de nossos reflexos. Reflexos agradáveis ou desagradáveis que o pretérito nos devolve.”.10 Temos no grupo doméstico, “[…] os laços de elevação e alegria que já conseguimos tecer, por intermédio do amor louvavelmente vivido, mas também, as algemas de constrangimento e aversão, nas quais recolhemos, de volta, os clichês inquietantes que nós mesmos plasmamos na memória do destino e que necessitamos desfazer, à custa de trabalho e sacrifício, paciência e humildade […].”.11 A família pós-moderna parece estar menos sólida que as anteriores, e talvez esteja mesmo, mas cremos que ela é mais promissora, se superada a desordem, especialmente a desordem dos conceitos. Ela, urgentemente, necessita das chaves de entendimento que o Espiritismo veio oferecer. Deus é a chave de compreensão do Universo, a alma é a chave de compreensão do homem e a reencarnação é a chave de compreensão do destino (síntese do pensamento de Gabriel Delanne no seu livro Evolução anímica). Estamos realizando experiências no laboratório das sociedades terrestres que, mais adiante, irão nos proporcionar a predominância do núcleo familiar maduro, o ninho. Nele,

REFERÊNCIAS:

1 Disponível em: https://en.oxforddictionaries. com/definition/adultescent: A middle-aged person whose clothes, interests, and activities are typically associated with youth culture [Uma pessoa de meia-idade cujas roupas, interesses e atividades são tipicamente associados com a cultura jovem] (traduzimos).

2 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016.

3 Disponível em: https://brasilemsintese. ibge.gov.br/populacao/taxas-de-fecundidade-total.html.

4 LASCH, Christopher. Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada?. Trad. Ítalo Tronca e Lúcia Szmrecsanyi. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1991.

5 XAVIER, Francisco C. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016.

6 ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

7 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016.

8 VEJA: 25 anos: reflexões para o futuro. Autores diversos. Rio de Janeiro: Editora Abril, 1993.

9 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2017. cap. 4, it. 18.

10 XAVIER, Francisco C. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 19. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016.

11 ______. ______. p. 53.