Revista Reformador

Problemas da obsessão infantil

“Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em consequência da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja desses Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão, que é um dos efeitos de semelhante ação […] deve, pois, ser considerada como provação ou expiação e aceita com esse caráter.”¹

Clara Lila Gonzalez de Araújo
claralilazez@gmail.com

Intriga-nos, sem dúvida, que esta situação possa ocorrer com crianças. A análise, feita por Allan Kardec, da resposta dada pelos Espíritos Superiores, à questão 199, em O livro dos espíritos, esclarece-nos sobre o problema.

Diz o Codificador:

Aliás, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência. Não se veem crianças dotadas dos piores instintos, numa idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação? Algumas não há que parecem trazer do berço a astúcia, a felonia, a perfídia, até o pendor para o roubo e para o assassínio, não obstante os bons exemplos que todos lhes dão? […].²

Conclui Kardec, no mesmo comentário, que esses Espíritos se revelam viciosos por não possuírem progresso, sofrendo, então, por efeito de sua inferioridade.

Essas crianças, geralmente, manifestam comportamentos desequilibrados, como resultante da rebeldia, da insatisfação, do nervosismo, da dificuldade intelectual que apresentam, agravando-se, cada vez mais, a sua existência, caso não recebam os cuidados urgentes dos pais, em forma de afeto, compreensão e providências terapêuticas adequadas, para que consigam superar reminiscências tão dolorosas. Além da assistência espiritual a ser dada às crianças, portadoras de dificuldades de natureza obsessiva – no atendimento de passes magnéticos, da água fluidificada, das reuniões do Evangelho no Lar e da Evangelização Infantil –, torna-se imprescindível atender às privações morais sem esquecer, todavia, das reais necessidades do Espírito, que constituem os princípios e os fins da Doutrina Espírita.

O Espírito Bezerra de Menezes alerta-nos para o fato de que determinados indivíduos, na fase infantil, sofrem processos seríssimos de obsessão, culminando em tragédias como o suicídio na idade adulta. É o caso de Leonel, figura do livro Dramas da obsessão, que sofria pressões de inimigos invisíveis, curvando-se a essa influência nefasta ao longo da sua existência, tornando-se irremediável a sua decisão de autocídio:

As anormalidades morais e psíquicas surgiram na vida de Leonel desde a infância. Durante esse período, em que, geralmente, a criança é graciosa e gentil, passiva às disciplinas educativas, a dita personagem mostrava-se avessa aos próprios carinhos maternos, preferindo rebelar-se contra toda e qualquer modalidade de correção imposta pelos pais, e também pelos mestres, na escola que frequentava, e repelindo conselhos e advertências que visavam a orientá-la para bons princípios. Demorara a instruir-se nas escolas […] queixando-se de constantes depressões, e frequentemente tornando-se presa de violentas dores de cabeça, que o arrastavam a crises de desesperos impróprias de uma criança. Dificilmente concordava em ingerir as drogas receitadas pelo médico da família, o qual se abalava, às vezes altas horas da noite, solicitado por alguém da família […].³

Narra o generoso Espírito que Leonel, geralmente possesso pelas entidades trevosas do Plano Espiritual, agredia a família, quebrando e estragando os objetos da casa, completamente desequilibrado e demonstrando excessiva violência, não se sentindo à vontade com a chegada do médico e insultando-o com certo desprezo e desconsideração. Aos poucos, o menino atingiu a puberdade, oferecendo possibilidades de cura para o seu doloroso problema, numa nova trajetória em seu destino. Porém, seus pais e familiares, indiferentes aos assuntos espirituais, conservando-se quase materialistas, não cogitaram de nenhum tratamento que lhe ajudasse efetivamente a se libertar do assédio intermitente dos obsessores. Apesar de encaminhá-lo para uma Igreja Católica, onde foi recebido afetuosamente, sobretudo, pelo vigário paroquial, Leonel tinha aversão por todos os ensinamentos religiosos, afastando-se rapidamente da catequese e sendo avaliado como uma criança incorrigível.

Anos mais tarde, casado e com filhos, atormentado pelos ataques obsessivos, Leonel se suicida, legando seu exemplo para Alícia, sua filha, jovem de 20 anos, que se suicidou 10 meses após a sua morte. Já Orlando, seu filho, de 15 anos, que também cultivava ideias de extermínio de si mesmo, tentou se jogar à frente de um trem, sem tê-lo conseguido graças à ação prestimosa de seus amigos, após intervenção espiritual de Espíritos Superiores e do próprio Bezerra de Menezes. Conforme a análise feita pelo grupo de Espíritos benévolos, que os assistiam, tratava-se de uma família inteira que sentia ímpetos para o suicídio, todos obsidiados e de forma coletiva, carentes de intervenção imediata e de socorro espiritual.

A obsessão na infância e na adolescência é assunto delicado e traz suas causas profundas no pretérito, atingindo desde cedo a vida dessas crianças, situação passível de mudança de acordo com as circunstâncias, graças à misericórdia divina, que nunca desamparou a nenhum de seus filhos. Os estudos sobre obsessão, entretanto, são extremamente complexos pela diversidade de manifestações e origens e, para podermos compreender o que se passa com a criança, atingida por esse grave problema, é importante analisarmos de que forma a ação obsessiva prejudica a todos aqueles que se entregam a certas faixas de pensamentos e sentimentos, presos às situações prejudiciais, de transtornos mentais e espirituais, dificultando suas experiências de vida na matéria.

De acordo com a observação de Kardec, ao final da resposta dos Espíritos reveladores à questão 199, em O livro dos espíritos, citada no início do presente artigo, surgem a seguintes indagações:

[…] Donde, porém, provirão instintos tão diversos em crianças da mesma idade, educadas em condições idênticas e sujeitas às mesmas influências? Donde a precoce perversidade, senão da inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribuiu para isso? As que se revelam viciosas, é porque seus Espíritos muito pouco hão progredido. Sofrem então, por efeito dessa falta de progresso, as consequências, não dos atos que praticam na infância, mas dos de suas existências anteriores. Assim é que a lei é uma só para todos e que todos são atingidos pela Justiça de Deus.⁴

Ao avaliar as condições morais de certas crianças, Allan Kardec procurou transmitir alertas e orientações sobre a periculosidade de indivíduos reencarnados, mostrando, ainda pequenos, a maldade que existe em alguns deles, fruto de sua falta de progresso espiritual. Um desses casos ocorreu com o assassinato de cinco crianças, cometido por um menino de 12 anos, contra seus colegas de brincadeiras e jogos, em 20 de outubro de 1857, em Bolkenham, na Silésia. O pavoroso acontecimento estarreceu as pessoas que leram a notícia na Gazette de Silésie, e publicada na Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, de Allan Kardec, em outubro de 1858. O caso singular foi motivo de estudos entre os grupos espíritas, evocando a opinião de Espíritos Superiores sobre o grave desenlace das crianças assassinadas. Conforme depoimento dos participantes, determinadas respostas dadas por um dos Espíritos comunicantes aclararam as razões do ato aberrante:

Que motivo teria levado uma criança dessa idade a cometer uma ação tão atroz e com tanto sangue-frio? Resp. – A maldade não tem idade; é ingênua na criança e raciocinada no homem adulto.

Quando a maldade existe numa criança que não raciocina, não denotará a encarnação de um Espírito muito inferior? Resp. – Nesse caso, procede diretamente da perversidade do coração; é seu próprio Espírito que o domina e o impele à perversidade.

Qual poderia ter sido a existência anterior de semelhante Espírito? Resp. – Horrível.

Nessa idade tinha perfeita consciência do crime que cometia? Como Espírito, será responsabilizado por ele? Resp. – Tinha a idade da consciência, e isso basta.⁵ (Grifo nosso).

O poder mental, como força criadora e renovadora, nem sempre nos nivela com a faixa de pensamentos elevados, mas nos ajusta às criaturas que permanecem no mesmo nível evolutivo:

Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É daquele fluido que importa desembaraçá-lo. Ora, um fluido mau não pode ser eliminado por outro igualmente mau […].⁶

Como agir em casos como esses?

Há necessidade de muito estudo, de observações cuidadosas e de realizações efetivas no bem, para que em nome da Doutrina consigamos ajudar situações como essas. A caridade não pode excluir o bom senso; para se chegar a grandes fins não se pode utilizar limitados meios.⁷

É imprescindível o estudo do obsesso, em quem vamos operar o trabalho que nos reclama a filantropia do coração: estudo fisiológico e patológico, estudo das causas determinantes dos sofrimentos que nos comovem; estudo do meio em que vamos atuar; dos sentimentos religiosos daquele a quem pretendemos curar; das suas qualidades morais; dos seus princípios; da sua educação; do tempo, de tudo, finalmente, que possa concorrer para a nossa orientação no trabalho que pretendemos fazer. Nesse estudo sério, seguro, é que […] nos guiará na obra da salvação do infeliz irmão, ovelha desgarrada, na frase do Evangelho […]⁸ (Grifo nosso).

Além disso, refletir sobre o valor imprescindível da Evangelização Espírita da criança, como portadora indispensável da contribuição ética e espiritual no desenvolvimento do caráter e na afirmação da personalidade do ser, visto que […] o Evangelho e o trabalho incessante pela renovação do homem
interior devem constituir a nossa causa comum […],⁹ de acordo com a orientação dos Espíritos responsáveis por esse trabalho, na urgente e nobilíssima tarefa de promover a Educação Espírita das novas gerações.

REFERÊNCIAS:
¹ KARDEC, Allan. A gênese . Trad. Guillon Ribeiro. 53. ed. 6. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2016. cap. 14, it. 45.
² ______. O livro dos espíritos . Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2019.
³ PEREIRA, Yvonne do A. Dramas da obsessão . Pelo Espírito Adolfo Bezerra de Menezes. 11. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2014. 1a pt. – Nos serviços do Consolador, cap. 7.
⁴ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2019.
⁵ ______. Revista Espírita : jornal de estudos psicológicos. ano 1, n. 10, out. 1858. Assassinato de cinco crianças por outra de doze anos – Problema moral [questões. 2, 3, 4, 6]. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 5. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2014.
⁶ ______. A gênese . Trad. Guillon Ribeiro. 53. ed. 6. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2016. cap. 14, it. 46.
⁷ ______. A prece . Trad. Guillon Ribeiro. 54. ed. 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2018. Instruções de Allan Kardec aos espíritas do Brasil , it. II – Estudos sobre obsessões [médium: Frederico Pereira da Silva Júnior].
⁸ ______. ______.
⁹ XAVIER, Francisco C. Pelo Espírito Emmanuel. À luz do evangelho . In : Reformador . ARAÚJO, Clara Lila G. de. Evangelização na infância – ação edificante e duradoura , ago. 2011, p. 17(295).