Revista Reformador

Psicogênese da drogadição

Wesley Caldeira
weslleyscaldeira@gmail.com

As drogas psicotrópicas alteram as funções do cérebro e o comportamento do usuário, interferindo nos neurotransmissores – as substâncias mensageiras secretadas pelas porções terminais dos neurônios, responsáveis pela comunicação entre essas células do sistema nervoso.

Clandestinas no cérebro, algumas delas multiplicam os impulsos dos neurotransmissores, fazendo-os trafegar mais depressa entre as células nervosas; são as drogas estimulantes. Outras, de modo inverso, reduzem o fluxo das substâncias mensageiras entre os neurônios, que passam a trabalhar lentamente; são as drogas depressoras. Também há aquelas alucinógenas, que encaixam nos receptores neuronais mensagens falsas.

Assim, as drogas oferecem, para alguns, estímulos, para outros, calma e, para outros, fantasias. Por isso, são atraentes a algumas personalidades e produzem nelas dependência, psíquica e física. O seu uso contínuo levará, progressivamente, à perda de tudo o que envolve o consumo: quantidade, qualidade e frequência, aproximando o usuário, aos poucos, da destruição orgânica, não sem antes subjugá-lo a gravíssimos transtornos psíquicos e espirituais.

O corpo espiritual, ou perispírito, é constituído de substância rarefeita e se organiza igualmente, nos estágios primários da evolução, a partir de trilhões de unidades celulares. As substâncias químicas – por meio do magnetismo peculiar que emana de suas associações moleculares e que faz a intermediação da fronteira material com o Plano Espiritual – podem afetar a sensibilidade do perispírito. A insulina injetada no organismo físico, por exemplo, provoca hipoglicemia, que pode acarretar, conforme o grau, coma e convulsões, devido ao déficit de glicose nas células cerebrais; em relação ao corpo espiritual, seu magnetismo específico afeta os centros de força e pode reajustá-los temporariamente. Por consequência, as atividades dos neurônios se normalizam e eles se readaptam ao serviço da mente.¹

Justo porque atuam no sistema nervoso, os componentes químicos das drogas psicotrópicas impressionam em especial o perispírito, repercutindo nele, por efeito de seu magnetismo, à maneira de golpes vibratórios. Ademais, as pessoas que manuseiam as drogas (traficantes e outros usuários) impregnam essas substâncias com sua matéria mental, que também toca nocivamente a sensibilidade perispiritual do usuário. Esses choques vibratórios atingem o organismo perispirítico principalmente na zona de seu acoplamento com o corpo físico e desencadeiam desordens vibratórias que equivalem a verdadeiras lesões nos tecidos sutis do corpo espiritual. Entre os efeitos desses desarranjos vibratórios, pode-se contar o rompimento das barreiras energéticas que separam o inconsciente do consciente, ocasionando a emersão de imagens infelizes do passado reencarnatório do usuário. O Espírito Joanna de Ângelis, sobre isso, anotou:²

Fixando-se nas estruturas sutis do perispírito, em processo vigoroso, os estupefacientes desagregam a personalidade, porquanto produzem na memória anterior a liberação do subconsciente que invade a consciência atual com as imagens torpes e deletérias das vidas pregressas, que a misericórdia da reencarnação faz jazer adormecidas… De incursão em incursão no conturbado mundo interior, desorganizam-se os comandos da consciência, arrojando o viciado nos lôbregos alçapões da loucura que os absorve, desarticulando os centros do equilíbrio, da saúde, da vontade, sem possibilidade reversiva, pela dependência que o próprio organismo físico e mental passa a sofrer, irresistivelmente…

As drogas, desse modo, promovem verdadeiros tumores mentais, que irrompem, na fisiologia psíquica, das brechas que filtram sombras do psiquismo profundo e introduzem na consciência sentimentos e pensamentos mórbidos. Isso gera também desequilíbrio parcial ou total na harmonia orgânica. E corpo e alma se enredam na enfermidade.

Entre outros efeitos das desordens vibratórias no perispírito causadas pelo consumo de drogas, deve-se listar a sintonia com Espíritos vinculados ao passado perturbador do usuário ou com Espíritos toxicômanos. A influência nociva desses Espíritos importará em desgaste energético do usuário, transtornos nos centros de força de seu corpo espiritual, fragilizando as defesas do sistema imunológico orgânico e expondo-o a contaminações ou ativação de anomalias genéticas.

Vários usuários de drogas são Espíritos primários: estagiam nas etapas iniciais da evolução espiritual, internados na forma humana material, com pouca maturidade psicológica para a avaliação das próprias responsabilidades na conquista da felicidade. Expectantes de existências prazerosas, desejam caminhos sem lutas e caem na inconformação quando esbarram na frustração, ou sofrem de ansiedade em face do futuro duvidoso.

Outros, mais numerosos, são Espíritos fragilizados pelas dores morais advindas de suas dívidas acumuladas nas jornadas reencarnatórias.

Não poucos, porém, carregam consigo a constituição toxicófila, por dependência cármica, e desenvolvem transtornos do humor e outros transtornos mentais. Viciados renitentes são vítimas do mesmo hábito que mantiveram em existência anterior; retornam, agora, com as marcas da dependência que os consome, a caminho de expiações dolorosas.³

No Mundo Espiritual, após a existência terrestre arruinada pelo vício, os usuários de entorpecentes aparecem, muitas vezes, com depressão vibratória cujo efeito é uma debilidade mental assemelhada à oligofrenia (deficiência do desenvolvimento mental que compromete sobretudo o comportamento intelectual), que impede o raciocínio na plenitude do senso, dominado por impressões atordoantes, reflexo das drogas no corpo orgânico e igualmente na contextura espiritual. Alguns autores espirituais fizeram relatos sobre isso:⁴

Efetivamente, víamos […] individualidades desfiguradas pelo mal que em si conservavam, consequências calamitosas da intemperança – atoleimadas, chorosas, doloridas, abatidas, cujas feições alteradas, feias, deprimidas, recordavam ainda os trágicos panoramas do Vale Sinistro. Excessivamente maculadas, deixavam à mostra, em sua configuração astral, os estigmas do vício a que se haviam entregado, alguns oferecendo mesmo a ideia de se acharem leprosos, ao passo que outros exalavam odores fétidos, repugnantes, como se a mistura do fumo, do álcool, dos entorpecentes, de que tanto abusaram, fermentassem exalações pútridas cujas repercussões contaminassem as próprias vibrações que, pesadas, viciadas, traduzissem o vírus que havia envenenado o corpo material!

Espíritos nessa situação podem retornar ao plano terrestre em reencarnações especiais, nas quais um freio psíquico procurará diminuir a intensidade dos impulsos da toxicofilia cármica. A própria oligofrenia poderá exercer esse papel, com as suas várias expressões clínicas, tais a microcefalia, a Síndrome de Down, o desenvolvimento incompleto ou precário do funcionamento intelectual. É o caso do adolescente Charles,⁵ de 13 anos, cujo Espírito Allan Kardec evoca mesmo estando encarnado, a fim de sondar as origens profundas da limitação de suas faculdades intelectuais, tão nulas a ponto de não reconhecer os pais. Consciente de sua expiação e do processo de reabilitação, Charles (Espírito) confidenciou que foi um jovem libertino no reinado de Henrique III de França (século XVI).

Além da oligofrenia, outros recursos expiatórios podem beneficiar as mentes desequilibradas pelos entorpecentes, como a epilepsia secundária (sintoma provocado por uma doença subjacente), a hidrocefalia e as deformidades de nascença.⁶

O fator primordial nos casos de drogadição é o próprio indivíduo, isto é, sua transitória condição moral e psicológica: “Nenhum processo de toxicomania está dissociado dos processos das almas enfermas. Espíritos sadios não se deixam embair pelas drogas”.⁷

Mas há fatores que fazem o papel de desencadeantes, e que, outras vezes, funcionam como coadjuvantes. São eles:

a) A obsessão espiritual, imperceptível ou notória, em que a simbiose das mentes de usuários encarnados e desencarnados produz a troca de fluidos mentais que tornam mais aderentes os fios da teia da dependência;

b) A possível predisposição genética;

c) O hábito dos pais de se servirem de medicamentos para a calma e o repouso, oferecendo aos filhos exemplos negativos de resistência para enfrentarem desafios e problemas;

d) O uso de bebidas alcoólicas e o tabagismo, induzindo os filhos a conceberem que a boa distração e recreação estão associadas à intoxicação;

e) A anemia ética em voga, patrona da vontade enfraquecida;

f) As pressões familiares, profissionais e existenciais;

g) Os incentivos comerciais, que instigam a sedução das imitações irrefletidas.

O Espírito Camilo observou que “não encontramos um viciado que não esteja filtrando a energia venenosa e viciosa dos comparsas trevosos que, por vingança, por simpatia ou por oportunismo comum, locupletam-se das almas desatentas”.⁸

Em certos contextos de obsessões espirituais, o usuário de drogas tem as suas dores íntimas exploradas pelos adversários desencarnados de sua família, a fim de ser transformado em intérprete e açoite do ódio. Um deles relatou do Além-Túmulo:

Velhos inimigos desencarnados de nossa equipe familiar fizeram de mim seu intérprete. […]

Bebendo por mim e por todas as entidades viciosas que nos hostilizavam a casa […].⁹

Na incapacidade de definir, no plano terrestre, se a pessoa integra o grupo das almas primárias ou das fragilizadas por dívidas pretéritas, ou das que trazem constituição toxicófila, por dependência cármica, como identificar os indivíduos que revelam maior risco à toxicodependência?

Segundo o Espírito Joanna de Ângelis,¹⁰ há dois grandes grupos de pessoas a serem observados em vigilância fraternal. O primeiro é o dos portadores de angústia vital; o segundo é o dos vitimados pelo taedium vitae [tédio da vida].

A angústia vital constitui a psicogênese do primeiro grupo, isto é, a origem do fato psíquico, no caso, o risco à toxidependência. O angustiado tem ânsia de alívio. Se usuário, irá sentir alívio temporário após o consumo de drogas, o que as tornam muito atrativas. Nesse grupo, estão indivíduos à procura de encorajamento, visto que não sentem segurança própria no estado de lucidez para confrontarem situações desafiadoras, ante a sensação de ausência de valor pessoal. Eles se refugiam, por isso, ou em drogas estimulantes que geram euforia emocional e vivacidade intelectual, para que sintam audácia para agir (e não coragem), ou em drogas depressoras, para controlarem a ansiedade. Ainda nesse grupo se localizam pessoas que tentam apagar impressões íntimas desagradáveis, alojadas no inconsciente, e fixadas ali na infância traumatizada ou em existências anteriores. Várias são fugitivas de processos de fobias. Muitas carregam a falsa ideia de que a vida é injusta e perversa, numa interpretação intuitiva de suas próprias faltas e delitos pretéritos. Assim, além da insegurança costumeira, enraizada no complexo de inferioridade, apresentam conflitos sexuais, estados de frustração e revolta, e até desejo de vingança contra o meio social, o que frequentemente faz o vício abraçar a delinquência.

O tédio vital é a base psicogênica que agremia o grupo com pior motivação, a dos desmotivados para viver. A falta de propósito e de sentido em si e fora de si atrai o usuário ao universo das fantasias quimicamente induzidas, e ele, sempre que desperta do pesadelo travestido de sonho, se sente mais cansado, entediado, sofrendo com um vazio que vai se tingindo de amargura, sofrendo também com a saudade das sensações químicas experimentadas. A vacuidade interior às vezes engendra personalidades hipocondríacas ou vaidosas e exibicionistas.¹¹

Porque as sociedades terrestres estigmatizam os usuários de drogas psicotrópicas, muitos deles procuram camuflar suas dores com as drogas, ocultando-se no pedestal do poder, do sucesso e da fama. Com isso, apenas transitam por caminhos perigosos. A falsa felicidade margeia à beira de um declive.

A drogadição é um distúrbio resultante de vários fatores associados e, ao mesmo tempo, personalizado quanto às suas causas no indivíduo, e que pede estratégias de tratamento multidisciplinares que atendam às necessidades pessoais dos vitimados. A base da profilaxia e da terapêutica, porém, é a reestruturação profunda da personalidade, para o que uma compreensão imortalista da vida, preferentemente reencarnacionista, contribui imperativamente, ensejando novos e melhores conceitos sobre si mesmo e a vida.

O bem e o mal que se faz – segundo bem analisou Allan Kardec¹² – decorre das qualidades que se possui. A Lei do  Progresso dá a toda alma a possibilidade de adquirir as qualidades que vão despojá-la do que tem de mau, conforme o esforço e a vontade próprios. O futuro é aberto a todas as criaturas.

REFERÊNCIAS:
¹ XAVIER, Francisco C. No mundo maior . Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 7 – Processo redentor .
² FRANCO, Divaldo. Após a tempestade . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 3. ed. Salvador: LEAL, 1985. cap. 8, p. 51.
³ ______. Conflitos existenciais . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 6. ed. Série Psicológica, v. 13. Salvador: LEAL, 2014. cap. 12 – Drogadição , it. Fatores causais da drogadição.
⁴ PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida . Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. 27. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2018. Pt. 2, cap. 10 – O Manicômio .
⁵ KARDEC, Allan. O céu e o inferno . Trad. Manuel Quintão. 61. ed. 5. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2018. Pt. 2, cap. 8, it. Charles de Saint-G…, idiota.
⁶ XAVIER, Francisco C. Nos domínios da mediunidade . Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 15 – Forças viciadas .
⁷ TEIXEIRA, José Raul. Educação e vivências . Pelo Espírito Camilo. 2. ed. Niterói (RJ): Fráter Livros Espíritas, 1994. cap. 6, p. 51.
⁸ ______. ______. cap. 8, p. 62.
⁹ XAVIER, Francisco C. Vozes do grande além . Espíritos diversos. Org. Arnaldo Rocha. 6. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. cap. 30 – Alcoólatra .
¹⁰ FRANCO, Divaldo. Conflitos existenciais . Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 6. ed. Série Psicológica, v. 13. Salvador: LEAL, 2014. cap. 12 – Drogadição , it. Fatores causais da drogadição.
¹¹ TEIXEIRA, José Raul. Educação e vivências . Pelo Espírito Camilo. 2. ed. Niterói (RJ): Fráter Livros Espíritas, 1994. cap. 6, p. 49 e 50.
¹² KARDEC, Allan. O céu e o inferno . Trad. Manuel Quintão. 61. ed. 5. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2018. Pt. 1, cap. 7, it. Código penal da vida futura: 4o e 6o.