Revista Reformador

Reforma: 500 anos de renascença espiritual

A maior revolução espiritual do planeta Terra foi a Revelação de Amor que o Cristo de Deus anunciou há dois mil anos. Na prática, para o nível de maturidade do homem, tudo se traduz na força inquestionável da mensagem do perdão. A ordem maior do amor é “perdoar setenta vezes sete” (Mateus, 18:2), ou melhor, sempre. Assim, seremos “perfeitos, como o Pai celestial” (Mateus, 5:48), que eternamente espera o espírito de perdão de todos os seus filhos (Mateus, 6:14).

A generosidade da indulgência é a condição indispensável para a urbanidade, o convívio fraterno de toda a Humanidade, que cria a base sólida da unidade dos homens, independentemente de cor, raça, preferências políticas e religião. Mas, infelizmente, a mensagem do perdão, desde os primórdios da história do Cristianismo, foi esquecida. Os homens estabeleceram regras e limites para o perdão. As autoridades religiosas, inclusive, tomaram para si todas as possibilidades de acesso ao perdão. Engessou-se no dogmatismo a mensagem do Amor Divino. O “extremismo da intolerância” rapidamente gerou a “extorsão pecuniária”.1

Um “Longo período de sombra invadiu os departamentos da atividade humana” – como alerta o Espírito Emmanuel:

[…] A penumbra dos templos era teatro de cenas amargas e sacrílegas. Crimes tenebrosos foram perpetrados ao pé dos altares, em nome daquele que é amor, perdão e misericórdia. A instituição sinistra da Igreja ia cobrir a estrada evolutiva do homem com um sudário de trevas espessas.2

Por isso – continua o orientador espiritual –, “[…] um dos maiores apóstolos de Jesus desceu à carne com o nome de Francisco de Assis. […]”.3 Sua “[…] atividade reformista” estava alicerçada na humildade, fidelidade e obediência aos princípios evangélicos do Cristo. É, assim, que trezentos anos antes da renascença da Reforma religiosa, em 1216, ele revive a mensagem do perdão, na singela porciúncula de Santa Maria dos Anjos, em Assis, Itália, e solicita, por inspiração do Cristo, à autoridade terrena do papa Honório III, a concessão de uma indulgência plena para todos os corações que, sinceramente, se arrependessem de seus erros, fossem lá quais fossem, como perdoou amplamente o Cristo, inclusive do alto da cruz (Lucas, 23:34).

Surpreendentemente, o perdão pedido foi concedido. Sinais dos tempos! O perdão estava de volta, 1216 anos depois da recomendação de Jesus. Mas, infelizmente, limitado por pressão dos cardeais, por um dia e um lugar. É o conhecido Perdão da Porciúncula estabelecido apenas para o dia 2 de agosto.4 “Almas! Almas eu quero. Não dias e lugares” – bradava Francisco de Assis. Mas, aquiesceu, por hora, acendendo um raio de luz em meio às trevas da Humanidade.

Trezentos anos se passaram… A escuridão assombrava! O papa Leão X, de “vida mundana”, sob sua direção, publica o “[…] célebre Livro das taxas da sagrada chancelaria e da sagrada penitenciária apostólica, onde se encontrava estipulado o preço de absolvição para todos os pecados, para todos os adultérios, inclusive os crimes mais hediondos. […]”.5

O atalho em que se metera a Igreja Romana, a única denominação dita cristã que imperava no Ocidente, era sem volta para aquela curva do tempo na história da Humanidade. O Alto precisava reagir na mesma proporção para o atrevimento dos “aborrecidos da luz”. E, reagiu, enviando outro grande apóstolo Martinho Lutero, em alemão: Martin Luther (1483–1546), para dizer um não rotundo à loucura dos homens, criando com fé e determinação a Reforma Protestante, em outubro de 1517.

O teólogo agostiniano Martinho Lutero – “[…] o humilde filho de Eisleben” – no dizer de Emmanuel – “tornara-se órgão da repulsa geral aos abusos da Igreja […]”,6 quando fixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses ou Disputação do Doutor Martinho Lutero sobre o poder e eficácia das indulgências (em latim: Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum).

As 95 teses são uma lista de proposições para uma disputa acadêmica com as quais se iniciou a Reforma Protestante, um cisma que mudou profundamente a história cristã. Elas discorrem sobre as posições de Lutero contra o que ele viu como práticas abusivas por pregadores que realizavam a venda de indulgências, que tinham por finalidade reduzir a punição temporal de pecados cometidos pelos próprios compradores ou por algum de seus entes queridos.

A Igreja Católica esperneou! Gritou heresia! Heresia! Heresia! Exigiu das autoridades seculares que impusessem silêncio absoluto ao contrassenso. Expediu convocação para sua presença em Roma. Seria a fogueira para o herege. Mas, tudo em vão. Os príncipes germanos, insatisfeitos com a sangria de recursos que eram obrigados a pagar para manter os gastos faraônicos do papado, também se rebelaram e deram proteção a Lutero.

Tempos difíceis! Lutero, à semelhança do apostolado de Paulo de Tarso, precisou viver escondido por algum tempo, inclusive se ocultou nas vestimentas do Cavaleiro de São Jorge, para se locomover pela região, visando relações e orientações para a estratégia e o fortalecimento das ideias do movimento nascente. A reação era imensa; os choques foram
inevitáveis, ensina Emmanuel:

[…] Os postulados de Lutero constituíram, antes de tudo, modalidade de combate aos absurdos romanos, sem representarem o caminho ideal para as verdades religiosas. Ao extremismo do abuso, respondia com o extremismo da intolerância, prejudicando a sua própria doutrina. Mas o seu esforço se coroou de notável importância para os caminhos do porvir.7

A Humanidade não podia, naquele tempo, dar um passo maior que as pernas. Por isso era necessário um homem forte e destemido, e também um povo disciplinado, acostumado aos combates.E os germanos, inegavelmente, revela Emmanuel, expressam a mesma fisionomia dos espartanos da Grécia antiga.8

No romance Renúncia, Emmanuel, na roupagem de padre Damiano, comenta:

– Aceito a necessidade da reforma íntima. Se os protestantes puderem alcançar semelhante renovação, por certo serão bem-aventurados. […].9

Como lembrávamos acima, Paulo de Tarso, o Apóstolo das Gentes, em missão hercúlea retorna à carne na vestimenta de Matinho Lutero.* Tal revelação surgiu por meio do médium e historiador César Burnier, confirmada num encontro histórico na cidade de Franca (SP), em 1969, quando ele e Chico Xavier palestraram sobre reencarnações na história universal.10 Mais tarde, 1984, o pesquisador Hermínio Miranda, em trabalho de fôlego, publicou o livro As marcas do Cristo, pela FEB Editora, em dois volumes: 1 – Paulo, o Apóstolo dos Gentios e 2 – Lutero, o Reformador.

Destacamos alguns pontos principais do grande movimento luterano:

1º) Reforma Protestante, com liberdade de consciência para a opção religiosa cristã.

2º) Tradução da Bíblia para a língua alemã e, com isso, o fortalecimento cultural dos germanos, para se constituírem como nação.

3º) A liberdade de leitura da Bíblia, em qualquer tempo e lugar, inclusive implantando o estudo e a meditação religiosa em culto nos lares.11

4º) Igualdade de gênero. Tanto o homem quanto a mulher poderiam ser pastores.

5º) Os pastores e as pastoras podem casar. Aliás, o monge Lutero se casou com a ex-freira, inteligente e dinâmica, Katharina von Bora. Aqui o escândalo abalou os alicerces do preconceito. O próprio Emmanuel “profetizaria” pela boca do padre Damiano: “[…] No futuro, naturalmente, o ministro do Evangelho, no Catolicismo, a exemplo do que já sucede com a Reforma, participará das alegrias doces de um lar […]”.12

6º) Escolas para ambos os sexos, com ênfase no ensino das artes, em especial, a música.

Em resumo, conclui o sábio Emmanuel: “[…] De nada valeram as perseguições e ameaças ao eminente frade agostiniano. […]”,13 Martinho Lutero. Missão cumprida!

A Federação Espírita Brasileira, seguindo a orientação espiritual do “instruí-vos”,14 publica este artigo sem espírito de contenda. Apenas registram- se as dificuldades do passado histórico. Mas, ciente do lema complementar do “amai-vos”,15 abraça fraternalmente os irmãos do Catolicismo e da Reforma, pedindo a Jesus, luz e bênçãos, para todos nós, cristãos em Cristo.
Paz!

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* N.R.: A hipótese de que Lutero foi a reencarnação do Apóstolo Paulo não goza de unanimidade no meio espírita.

REFERÊNCIAS:
1 XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 20 –Renascença do mundo, it. Renascença religiosa, p. 163 e 164.
2 ______. ______. cap. 18 – Os abusos do poder religioso, it. A Inquisição.
3 ______. ______. it. Francisco de Assis. 4 Ver A mensagem do perdão pelo médium Pietro Ubaldi. Trad. Guillon Ribeiro. In: Reformador. mar. 1934, p. 95 a 101. In: MARTINS, Jorge Damas;
DAMASCENO, Júlio Couto. Para entender Pietro Ubaldi.  Bragança Paulista (SP): Lachâtre, 2012. cap. 6.
5 XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 20 – Renascença do mundo, it. Renascença religiosa.
6 ______. ______. p. 163.
7 ______. ______. p. 163 e 164.
8 ______. ______. cap. 10 – A Grécia e a missão de Sócrates, it. Atenas e Esparta.
9 ______. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2017. Pt. 1, cap. 6 – Novos rumos, p. 162.
10 MARTINS, Jorge Damas. 13o apóstolo: as reencarnações de Bezerra de Menezes. 8. ed. Rio de Janeiro: Novo Ser, 2015. Introdução.
11 PEREIRA, Yvonne do A. Nas voragensdo pecado. Pelo Espírito Charles.12. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. Pt. 1, cap. 2 – Uma família de filantropos.
12 XAVIER, Francisco C. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 36. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2017. Pt. 2, cap. 1 – O padre Carlos, p. 209.
13 ______. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 20 – Renascença do mundo, it. Renascença religiosa.
14 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 6, it. 5.
15 ______. ______.