Revista Reformador

A Casa Espírita e a pureza doutrinária

Ismênia Nunes
ismenianunes.jornalismo@gmail.com

O século XIX foi o berço de muitas conquistas, tanto na área científica, quanto em relação ao surgimento de uma nova ciência, a ciência espírita. O Espiritismo, que até então era visto como sobrenatural, maravilhoso, foi alvo de pesquisas e estudos, dando lugar a uma doutrina filosófica de consequências morais e religiosas. Foi em 1857 que Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, publicou O livro dos espíritos, trazendo a público as bases da Doutrina dos Espíritos, ou Espiritismo, que é o termo correto, e não “Kardecismo” como algumas pessoas teimam em dizer erroneamente, pois que o próprio Kardec insistiu em afirmar que a Doutrina era dos Espíritos, e não dele.

Kardec, que era pedagogo e discípulo de Pestalozzi, foi responsável por codificar, organizar e sistematizar todo o conhecimento passado pelos Espíritos Superiores. Nosso Codificador foi sempre muito criterioso em seu trabalho, a fim de que a Doutrina se firmasse em bases inamovíveis. Por exemplo, era extremamente cuidadoso ao selecionar as mensagens que seriam publicadas em seus livros. Seguia a opinião do Espírito Erasto, que, em O livro dos médiuns, capítulo 20, item 230, afirma que “[…] Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea […]”.1 E foi exatamente por este motivo que o Codificador não teve pressa em publicar de chofre as mensagens ditadas pelos Espíritos. Ele as comparou, organizou e codificou de forma didática e científica.

No entanto, hoje, em pleno século XXI, quando as ciências e os estudos espíritas já estão mais difundidos, numa época em que há toda uma organização estabelecida em nosso Movimento – federações espíritas, URE’s dos conselhos regionais e até mesmo departamentos doutrinários e do livro, ainda caímos no erro e na falta de cuidados para com a Doutrina, que não é nossa, mas dos Espíritos.

Um exemplo é a falta de critérios objetivos quanto à seleção dos livros evangélico-doutrinários a serem vendidos nas livrarias das instituições espíritas.

É dever das casas espíritas, por meio dos seus Departamentos do Livro, ou equivalentes, utilizar critérios de seleção que respeitem a pureza doutrinária. É preciso responsabilidade na definição do tipo de livro e de mensagem que estão sendo difundidos. A Casa Espírita precisa estar atenta para decidir quais livros e autores devem permanecer nas prateleiras, e quais devem, cuidadosamente, ser excluídos. Afinal, quais são os critérios que estamos utilizando para a avaliação dos livros que entram nas bibliotecas e nas livrarias? Será que existe uma seleção, uma avaliação cuidadosa? Somos responsáveis pelo trabalho que executamos hoje, e dele prestaremos contas um dia à Justiça Divina.

Os centros espíritas precisam agir com cautela e muita prudência ao selecionar os livros que serão expostos à venda em suas livrarias. Seu compromisso é com a Doutrina, e não com este ou aquele autor. Seu papel é difundir a Doutrina Espírita tal como no-la apresentou Allan Kardec, e não vender todo e qualquer livro lançado no mercado editorial, sem o devido cuidado e sem a criteriosa análise doutrinária. Além de contribuir para a sustentação das atividades materiais da Casa Espírita, a venda do livro tem por objetivo o auxílio às pessoas, a disseminação do conhecimento doutrinário e de mensagens de Espíritos sérios e comprometidos com o bem. Há obras muito procuradas de autores que algum dia dizem “ter sido espíritas, mas atualmente não são mais”. Têm eles compromisso com a Doutrina Espírita, ou buscam tão somente o resultado financeiro com o lucro das vendas? Infelizmente o público nem sempre sabe fazer essa distinção. E não venha a Instituição justificar suas escolhas, porque precisa vender livros de autores procurados, conhecidos na mídia, para se manter. Vale revisitar os critérios para a compra e venda dos livros: São livros espíritas? São doutrinários? Os autores e as editoras são éticos, confiáveis, respeitam a Codificação?

Hoje é grande a quantidade de livros vendidos nos centros espíritas, mas fica sempre a pergunta: Serão todos, realmente, livros espíritas? Refletem as bases doutrinárias codificadas por Allan Kardec? Por que incorporar ao grande acervo de obras consagradas à Codificação Espírita a de autores que escrevem e psicografam livros em flagrante contradição com os princípios doutrinários, bem como de editoras que os comercializam sem outra preocupação além do lucro fácil e rápido?

Há muitos livros e autores consagrados, entre eles as obras básicas de Allan Kardec, além das obras complementares que lhe seguem fielmente as diretrizes. O fato é que a Doutrina Espírita é riquíssima em obras confiáveis, de cunho evangélico-doutrinário, bem como de autores encarnados e desencarnados que respeitam os princípios espíritas estatuídos na Codificação, os quais, por seu comportamento, têm conquistado respeito, credibilidade e confiança. Vender livros pelo título pomposo, pela capa bem cuidada, pela fama que inspire o autor, pelo ânimo de lucro, sem considerar os critérios doutrinários é prestar um desserviço à Causa espírita.

REFERÊNCIA:
¹KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 81. ed. 5. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2016.