Revista Reformador

As fontes de conhecimento espírita

“Mas o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem […]”¹

José Carlos da Silva Silveira
csilveira440@gmail.com

Bastante acentuada é, em nossos meios, a busca de conhecimento espírita nas palestras doutrinárias.

Talvez porque, arraigados aos velhos hábitos de tantas existências, em que nos acostumamos a orbitar quais satélites em torno de líderes espirituais, continuemos a buscar a luz por meio daqueles que admiramos, ainda que essa luz venha refratada pelo prisma das interpretações pessoais.

De olhos fitos, muitas vezes em quase êxtase de deslumbramento, sorvemos a palavra carinhosa, não raro, à semelhança da terra boa da parábola do Cristo, pronta para a germinação.

À medida, porém, que estudamos o Espiritismo, refletindo sobre seus conceitos e proposta de vida, passamos a compreender melhor as diferenças entre as fontes de conhecimento espírita.

Allan Kardec, no capítulo primeiro de seu livro A gênese, adverte-nos sobre essa questão, ao referir-se às duas categorias de reveladores: a dos primitivos e a dos secundários.

Os reveladores primitivos revelam o que descobriram por si mesmos. São os Espíritos encarnados que denominamos homens de gênio. Trazem as ideias inatas de trabalhos anteriores nos diversos campos da sabedoria humana: científico, artístico, físico, metafísico e moral. Em se tratando, porém, das verdades espirituais, os reveladores primitivos não estão entre os encarnados. São, exclusivamente, os Espíritos Superiores, que, por sua vez, transmitem seus ensinos apenas àqueles que se esforçam por manter a própria disciplina moral, indispensável para a filtragem correta desses ensinamentos.

Os reveladores secundários ensinam apenas o que aprenderam. São os professores, nas variadas áreas do conhecimento, aos quais podemos juntar os comunicadores das ideias religiosas. Oferecem aos aprendizes o fruto de suas reflexões sobre os estudos que realizam, reflexões estas que passam, necessariamente, pelos matizes de experiências pessoais.

Na esteira desse pensamento, consideremos a missão especialíssima de Allan Kardec. Este, pela inteireza de seu caráter e solidez das ideias inatas, conseguia, por si só, manter o clima espiritual de todo o contexto das experiências a que se dedicava. As condições aí reinantes eram, portanto, extremamente favoráveis à percepção clara do ensino dos Espíritos Superiores, os quais apresentavam ao mundo a mensagem do Consolador prometido por Jesus. Tal fato leva-nos a afirmar, com toda certeza, que a Codificação Espírita surge, naturalmente, como primeira e mais pura fonte da Doutrina dos Espíritos entre nós, erigindo-se também em seu permanente sustentáculo.

Sempre que nos afastamos das obras básicas da Codificação, toda vez que deixamos de refletir sobre suas páginas, para seguir, em total confiança, os reveladores secundários, quer nas palestras doutrinárias,
acima referidas, quer em seus escritos, sujeitamo-nos aos desvios de conhecimento, de importância variada, mas sempre prejudiciais à compreensão real do Espiritismo. E isso porque a grande dificuldade de aprendizado, por meio dos reveladores de segunda ordem, consiste na ilusão de conhecimento que a luz refratada é capaz de suscitar.

Os estudos específicos das obras básicas, atualmente em larga escala nas instituições espíritas, demonstram uma tendência à reversão desse quadro, levando-nos às origens do Espiritismo, quando o foco principal de conhecimento eram os ditados da Espiritualidade Superior insertos na Codificação Espírita. Mesmo quando se trata de estudos temáticos, como ocorre no Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), as obras básicas têm sido cada vez mais usadas, não apenas como referência bibliográfica, mas também como recurso didático, para reflexão em sala, incentivando-se, com tal procedimento, o hábito de consulta às fontes mais puras de conhecimento espírita.

A observância constante das bases doutrinárias do Espiritismo será, portanto, qual bússola preciosa a nos guiar na separação que somos chamados a fazer entre o que é e o que não é Doutrina Espírita. Essa seleção se aplica a tudo que vemos, ouvimos ou lemos, seja proveniente dos encarnados, como acima visto, seja, ainda, oriundo do Plano Espiritual. Só assim torna-se possível preservar a essência da Doutrina Espírita, tal como nos foi ofertada por Kardec.

Dentro desse contexto, todos nós, estudiosos do Espiritismo, que nos inserimos no quadro de seus reveladores secundários, passamos a exercer, em realidade, o papel de facilitadores da aprendizagem, estimulando reflexões e discussões em torno do pensamento espírita, na interação salutar da fraternal convivência.

O hábito do acesso às obras básicas servirá, por fim, de valiosa ferramenta para identificação do joio que prolifera no mundo virtual, ameaçando o trigo doutrinário. Esse joio, não poucas vezes disfarçado de vestes artísticas, possui, de regra, todos os ingredientes fantasiosos para desviar a atenção dos incautos, induzindo-os a conceitos equivocados e a sugestões de vida incompatíveis com os fundamentos doutrinários do Espiritismo.

REFERÊNCIA: ¹KARDEC, Allan. A gênese . [1a edição – 1868]. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. 1. imp. (Edição Histórica Bilíngue). Brasília: FEB, 2018. cap. 1, it. 5.