Revista Reformador

Inauguração do dólmen de Allan Kardec1

No dia 31 de março de 1870, por volta das duas horas da tarde, grande número de espíritas, recolhidos e emocionados, reuniu-se no cemitério do Père-Lachaise, em redor do monumento que foi erguido para honrar a memória imperecível do eminente fundador da Filosofia Espírita. Sumamente admirados, os transeuntes se detinham diante dessa edificação simples e imponente, falando
aos olhos e ao coração a linguagem dos séculos que se foram, evocando a lembrança de antigas gerações que, por seu culto e monumentos funerários, consagraram as crenças que o Espiritismo moderno fez ressurgir.

Tão logo a forma do mausoléu foi decidida de modo definitivo – um dólmen composto de três pedras verticais de granito bruto, encimadas por uma quarta pedra tabular, repousando um tanto obliquamente sobre as três primeiras –, a comissão encarregada pela Sra. Allan Kardec de dirigir os trabalhos empenhou- -se em acelerar a sua construção, de modo a fazer coincidir o aniversário
de morte do mestre com a inauguração do monumento.

Situado num ângulo formado por duas alamedas, numa altitude de onde se domina inteiramente o campo de repouso, o terreno escolhido era admiravelmente propício ao objetivo a que se  ropunha. As providências indispensáveis para sua aquisição, a extração dos blocos de pedra, totalizando mais de 30 toneladas, a construção de um jazigo bastante sólido para suportar semelhante massa, a execução do busto de Allan Kardec, confiada ao talento notável do Sr. Capellaro, tudo isso tomava um tempo considerável; a própria comissão, às vésperas da inauguração, ainda não sabia se o trabalho estaria concluído no dia fixado. A exumação e o traslado do corpo3 não puderam ser feitos antes de 29 de março e, na manhã do dia 31, a pedra tabular superior, pesando seis toneladas, ainda jazia no chão, em consequência de uma falsa manobra dos operários, que por pouco não puseram o trabalho a perder.

Entretanto, na hora marcada, o dólmen estava definitivamente construído. O busto de Allan Kardec repousava sobre o pedestal de granito e, não obstante os andaimes que ainda o cercavam, os espíritas que chegavam para saudar as cinzas do mestre podiam admirar, em todo o seu esplendor original, o símbolo indestrutível dos princípios eternos ensinados pelo Espiritismo.

Ainda faltavam as inscrições, que só foram gravadas depois. Os visitantes, atraídos diariamente à vasta necrópole pela lembrança dos amigos desaparecidos, detêm-se para meditar-lhes o sentido, dali se afastando com pesar, surpresos com as ideias de futuro e de esperança que elas fazem brotar em seus espíritos.

É que, em verdade, a Doutrina Espírita ali está contida em sua inteireza, e o pensamento inscrito na pedra, ao atrair os olhares, penetra profundamente a inteligência, como uma verdade indestrutível. No pedestal do busto lê-se:

Allan Kardec Fundador da Filosofia Espírita Mais abaixo, a epígrafe da Revista Espírita:

Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.

Que demonstração mais concisa e mais convincente se poderia dar da existência e da grandeza de Deus?

Enfim, as datas do nascimento e da morte:

3 de outubro de 1804

31 de março de 1869

Na face anterior da pedra tabular superior, lê-se:

Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a Lei.

A pluralidade das existências e o progresso indefinido, tais são, com efeito, as bases fundamentais da Filosofia Espírita, as pedras angulares do edifício!…

A incerteza em que se achava a Sra. Allan Kardec, em relação à execução definitiva do mausoléu não lhe permitira prevenir de antemão os nossos irmãos em crença, aqueles que haviam manifestado o desejo de assistir à reunião comemorativa. Nada obstante, o Espiritismo estava dignamente representado por numerosos espíritas, tanto de Paris quanto da província.

Aliás, ninguém se esqueceu de que no ano passado, em semelhante data, um justo foi buscar, na erraticidade, a sanção de uma vida de devotamento e abnegação. A abundante correspondência que  recebemos naquela ocasião é um testemunho irrecusável de que Allan Kardec, embora tenha deixado de existir materialmente entre nós, viverá eternamente, por sua memória e pela lembrança de seus trabalhos, no coração de quantos ele abriu, por meio do Espiritismo, os vastos horizontes da vida futura.

//////////////////

1R.: Revue Spirite – maio de 1870 – Inauguration du monument funèbre d’Allan Kardec, p. 149 e 150. Artigo traduzido por Evandro Noleto Bezerra.

2R.: Embora o artigo não esteja assinado, atribui-se sua autoria a Armand T. Desliens, médium da Sociedade Espírita de Paris e “Secretário-gerente” da Revista Espírita após a desencarnação do Codificador.

3R.: O corpo de Allan Kardec foi inumado no cemitério de Montmartre, em Paris, no dia 2 de abril 1869. Em 29 de março de 1870 seus restos mortais foram transferidos definitivamente para o cemitério do Père-Lachaise, na mesma cidade, dois dias antes da inauguração do dólmen de que trata o presente artigo.