Revista Reformador

Não vim trazer a paz, mas a divisão¹

Allan Kardec

Toda ideia nova encontra forçosamente oposição e não há uma só que se tenha estabelecido sem lutas. Ora, nesses casos, a resistência é sempre proporcional à importância dos resultados previstos, porque, quanto maior ela é, tanto mais numerosos são os interesses que fere. Se for notoriamente falsa, se a julgam sem consequência, ninguém se alarma e deixam-na passar, certos de que lhe falta vitalidade.

Se, porém, é verdadeira, se está assentada em bases sólidas, se lhe preveem o futuro, um secreto pressentimento adverte os seus antagonistas de que constitui um perigo para eles e para a ordem de coisas em cuja manutenção se empenham. Então, atiram-se contra ela e contra os seus adeptos.

Jesus vinha proclamar uma Doutrina que solaparia pela base os abusos de que viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo. Por isso o fizeram morrer, certos de que, matando o homem, matariam a ideia. Mas a ideia sobreviveu, porque era verdadeira; engrandeceu-se, porque correspondia aos desígnios de Deus e, nascida num pequeno e obscuro vilarejo da Judeia, foi plantar a sua bandeira na própria capital do mundo pagão, em face dos seus mais encarniçados inimigos, daqueles que tinham mais interesse em combatê-la, porque subvertia crenças seculares a que eles se apegavam muito mais por interesse do que por convicção. Lutas das mais terríveis esperavam aí por seus apóstolos. As vítimas foram inumeráveis, mas a ideia cresceu sempre e triunfou, porque, como verdade, superava as suas antecessoras.

O Espiritismo vem realizar, na época prevista, as promessas do Cristo. Entretanto, não o pode fazer sem destruir os abusos. Como Jesus, ele se defronta com o orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, os quais, leva[1]dos às suas últimas trincheiras, tentam barrar-lhe o caminho e lhe suscitam entraves e perseguições…

¹N.R.: KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 10. imp. Brasília, DF: FEB, 2020. cap. 23, its. 12, 13 e 17 (Transcrição parcial).