Revista Reformador

Não vim trazer a paz, mas a divisão1

Será mesmo possível que Jesus, a personificação da doçura e da bondade, logo Ele que não cessou de pregar o amor ao próximo, haja dito: “Não vim trazer a paz, mas a espada; vim causar divisão entre o filho e seu pai, entre o esposo e a esposa; vim lançar fogo à Terra e tenho pressa de que ele se acenda?”. Tais palavras não estarão em flagrante contradição com os seus ensinos? Não haverá
blasfêmia em lhe atribuírem a linguagem de um conquistador sanguinário e devastador? Não, não há blasfêmia nem contradição nessas palavras, pois foi Ele mesmo quem as pronunciou, e elas dão testemunho da sua alta sabedoria. Apenas a forma, um tanto equívoca, não exprime com exatidão o seu pensamento, o que fez com que muitas pessoas se enganassem quanto ao verdadeiro sentido delas. Tomadas ao pé da letra tenderiam a transformar a sua missão, inteiramente pacífica, noutra de perturbação e discórdia, consequência absurda, que o bom senso repele, uma vez que Jesus não podia desmentir-se.

Quando Jesus diz: “Não creiais que eu tenha vindo trazer a paz, mas a divisão”, seu pensamento era este:

“Não creiais que a minha doutrina se estabeleça pacificamente; ela trará lutas sangrentas, tendo por pretexto o meu nome, porque os homens não me terão compreendido, ou não terão querido compreender-me. Os irmãos, separados por suas respectivas crenças, desembainharão a espada um contra o outro e a divisão reinará no seio de uma mesma família, cujos membros não partilhem da mesma crença. Vim lançar fogo à Terra para livrá-la dos erros e dos preconceitos, do mesmo modo que se põe fogo a um campo para destruir nele as ervas más, e tenho pressa de que o fogo se acenda para que a depuração seja mais rápida, visto que do conflito a verdade sairá triunfante. À guerra sucederá a paz; ao ódio dos partidos, a fraternidade universal; às trevas do fanatismo, a luz da fé esclarecida. Então, quando o campo estiver preparado, eu vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que virá restabelecer todas as coisas, isto é, que dando a conhecer o sentido verdadeiro das minhas palavras, que os homens mais esclarecidos poderão enfim compreender, porá fim à luta fratricida que divide os filhos do mesmo Deus.”

Essas palavras de Jesus devem, pois, entender-se com referência às cóleras que Ele previa que a sua doutrina suscitaria, aos conflitos momentâneos a que ia dar causa, às lutas que teria de sustentar antes de se estabelecer, como aconteceu aos hebreus antes de entrarem na Terra Prometida, e não como decorrentes de um desígnio premeditado de sua parte de semear a desordem e a confusão. O mal viria dos homens e não dele, que era como o médico que se apresenta para curar, mas cujos remédios provocam uma crise salutar, removendo os maus humores do doente.

REFERÊNCIA:
1 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 23 – Estranha moral, its. 9,
11, 16 e 18. (Transcrição parcial.)