Revista Reformador

O Código Divino

“[…] importa observar que os Evangelhos são o roteiro das almas, e é com a visão espiritual que devem ser lidos; pois, constituindo a cátedra de Jesus, o discípulo que deles se aproximar com a intenção sincera de aprender encontra, sob todos os símbolos da letra, a palavra persuasiva e doce, simples e enérgica, da inspiração do seu Mestre imortal.”1

Sem sombra de dúvida foi com essa superior visão espiritual, com essa certeza e sentimento, que Allan Kardec compõe o magnífico livro da Codificação, o terceiro, O evangelho segundo o espiritismo, lançado em Paris, em abril de 1864. Tudo nos leva a crer que ele conhecia profundamente o legado de luz que o Cristo deixou para a Humanidade, pois que em tão pouco tempo esse cabedal de conhecimento emerge, intuitivamente, sob a assessoria da falange do Espírito de Verdade que dele se acerca para que o Consolador se instale, definitivamente, na Terra.

Na Introdução I de O evangelho segundo o espiritismo,2 o Codificador ressalta, de imediato, que as matérias que constituem os Evangelhos podem ser divididas em cinco partes: “os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral”.

As quatro primeiras têm sido o foco de inúmeras controvérsias; a última, porém, conservou–se, constantemente, inatacável. Na sequência, leitor (a) amigo (a), é possível notar que o pensamento de Kardec se eleva e entra na visão espiritual, para
falar sobre a “cátedra de Jesus”, como a seguir:

[…] Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas. […] (Grifo nosso.)

Logo adiante o mestre lionês enfatiza com muita clareza, com vista aos seres humanos e suas realizações, que o código expressa:

[…] uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa é a parte que será objeto exclusivo dessa obra.

Isto nos leva a visualizar o conjunto de O evangelho segundo o espiritismo, imaginando os instantes iniciais quando Kardec, compondo a obra, se apresta a selecionar as passagens que seriam as mais propícias, aduzindo os seus comentários e trazendo como complemento da maior importância as Instruções dos Espíritos.  Ele afirma que foi classificando metodicamente os ensinos do Mestre, de acordo com as lições que melhor se complementavam, tanto quanto possível.

“A Doutrina Espírita enseja uma abertura mental extraordinária, revelando a nossa condição de Espíritos imortais e nossa pátria de origem, o Mundo Espiritual, de onde viemos e para onde retornaremos.”

Este magistral trabalho de Allan Kardec abre um horizonte infinito de realizações para cada ser humano, pois resultou no notável “código de moral universal, sem distinção de culto”. Vale lembrar, por oportuno, que a palavra código significa coleção de regras e preceitos; coleção de leis. Diante disso, é interessante observarmos que o Código Divino, constitui uma regra de proceder, que abrange e permeia:
• todas as circunstâncias da vida privada e pública – de cada indivíduo, significando a imprescindívelvivência;
• princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça – Justiça Divina, equânime, igual para todos;
• roteiro infalível para a felicidade vindoura – esses preceitos, se cumpridos, preparam uma vida de maior equilíbrio e paz, felicitando cada criarura;
• o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. A Doutrina Espírita enseja uma abertura mental extraordinária, revelando a nossa condição de Espíritos imortais e nossa pátria e origem, o Mundo Espiritual, de onde viemos e para onde retornaremos.

Para termos uma noção um pouco mais precisa da grandiosa e superior programação espiritual do advento do Consolador, da Terceira Revelação de Deus à Humanidade, alguns aspectos devem ser considerados.

Segundo a Doutrina Espírita esclarece, três são as Revelações Divinas, perfeitamente encadeadas, mas cada uma em seu tempo apropriado, ensejando o progresso intelecto-moral e espiritual das criaturas.

Primeira Revelação: a Justiça – personificada em Moisés, médium poderoso que possibilitou um espetacular fenômeno de escrita direta (pneumatografia) quando Espíritos escreveram diretamente na pedra (uma espécie de raio laser?), o Decálogo, conjunto de regras e leis que ensinavam o que NÃO FAZER.

Segunda Revelação: o Amor – lei esta ensinada e exemplificada por Jesus, que veio, digamos, pessoalmente, lecionar  COMO FAZER. O próprio Mestre preparou o futuro, antevendo que as criaturas estariam ainda distantes da vivência de seu Evangelho, fazendo, então, a promessa de enviar o Consolador, o Espírito de Verdade. Conforme em João, 14: 15 a 17 e 26.

Terceira Revelação: o Espiritismo – não tem a personificá-la nenhuma individualidade, sendo fruto do ensino dos Espíritos, que são as vozes do Céu, que esclarecem o PORQUÊ FAZER.

Esta abertura de O evangelho segundo o espiritismo é realmente grandiosa e nós ainda não conseguimos aquilatar a sua importância e profundo significado.  A sensação que invade os que estão lendo e se deixam mergulhar nesse oceano de pensamentos que a Doutrina Espírita suscita é a de constatarmos que ela está na vanguarda dos tempos, que antecipa o futuro da Humanidade, enquanto simultaneamente o prepara.

Com muita razão, André Luiz, em seu livro No mundo maior,[1] registra a palavra do sábio instrutor Calderaro, que em brilhantes considerações lega-nos essa obra admirável, ao afirmar, a certa altura de uma de suas notáveis lições o seguinte:

[…] o homem, para auxiliar o presente, é obrigado a viver no futuro da raça. A vanguarda impõe-lhe a soledade e a incompreensão por vezes dolorosas […] Ninguém pode ensinar caminhos que não haja percorrido. […]

Todos os grandes vultos da história humana viveram no futuro, enquanto o anunciavam; muitos não foram compreendidos de imediato, mas somente décadas após deixarem o corpo físico.

O Espiritismo descortina “as veredas do Senhor”, numa visão cósmica e infinita, que nossa precária condição apenas imagina. É o que Kardec denomina de “Ciência do

Infinito”.[1]

Concluindo o tema, meditemos nas palavras do Codificador:

[…] O Espiritismo se nos depara por toda a parte na Antiguidade e nas diferentes épocas da Humanidade. Por toda a parte se lhe descobrem os vestígios: nos escritos, nas crenças e nos monumentos. Essa a razão por que, ao mesmo tempo que rasga horizontes novos para o futuro, projeta luz não menos viva sobre os mistérios do passado.

REFERÊNCIAS:
1 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. q. 321.
2 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2015. Introdução I – Objetivo desta obra.
3 XAVIER, Francisco C. No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. 28. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 9 – Mediunidade, p. 124.
4 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016. Introdução XIII, p. 38 e q. 466.
5 ____. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6.imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB,  2015. Introdução I – Objetivo desta obra, p. 19.