Revista Reformador

A luz que jamais se apaga

Mário Frigéri*
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Resumo

Neste artigo-homenagem, celebramos a vida e a missão de Divaldo Pereira Franco, destacando sua trajetória luminosa como orador, médium, educador e semeador do bem. Com um olhar de gratidão e reconhecimento, relembramos a grandiosidade espiritual do tribuno baiano, sua parceria com Joanna de Ângelis, a fundação da Mansão do Caminho, e a universalidade de sua mensagem de amor e serviço. A prosa se entrelaça a quatro poemas, que enfeixam o louvor ao médium com a suavidade da arte e da fé. Mais que uma despedida, o texto é um cântico de esperança, reiterando que a luz de Divaldo jamais se apagará, pois continua a brilhar em cada alma tocada por sua obra.

Palavras-chave

Divaldo Franco; homenagem póstuma; Espiritismo; Joanna de Ângelis; Mansão do Caminho; legado espiritual; missão mediúnica; poesia espírita; amor e caridade.

Neste instante de doce saudade, mas sobretudo de pro funda gratidão, rendemos nossa homenagem a Divaldo Pereira Franco, que retornou recentemente à Pátria da Verdade com a consciência em júbilo e a alma em festa pelo dever integralmente cumprido. Não nos entristecemos por sua ausência física; pelo contrário, celebramos sua presença espiritual que ficará junto a nós para sempre – pois é uma vida que se oceaniza em passos geométricos, uma missão que paira soberana acima e além do tempo. Divaldo deixou a matéria, mas permanece no coração do Brasil e da Humanidade como fulgurante luz que continuará a nos guiar pelos caminhos do amor, da sabedoria e do serviço ao próximo.

A notícia que recebemos pela mídia sobre sua desencarnação nos alcançou com suave melancolia, embora esse passa mento fosse visto como normal e esperado por conta da idade avançada e do desgaste físico a que todo ser humano está sujeito. Sempre há na partida iminente de grandes missionários um silêncio que se alonga na alma coletiva, como se as vozes da Terra se recolhessem para escutar o passo discreto de quem começa a atravessar os umbrais da Imortalidade. No entanto, é esse silêncio que nos ensina a ouvir, mais nitidamen te, o eco luminoso de sua vida inteira devotada ao bem.

O Espiritismo, com sua proposta regeneradora e sua ética espiritual profunda, tem sido um campo fértil onde Espíritos comprometidos com as Leis Eternas buscam reescrever o livro de suas consciências. Intelectualmente privilegiados e moralmente despertos, mas marcados por débitos expressivos perante a Justiça Divina, encontram na seara espírita o solo ideal para plantar os gestos redentores que um dia frutificarão em benefício de sua paz. O sofrimento, muitas vezes intenso, é acolhido por esses missionários do espírito com a dignidade dos que compreendem o significado da maioria das dores como instrumento de um renascer em um patamar mais iluminado.

O incansável tribuno baiano é um desses Espíritos. Ele próprio, em diversos momentos de sua vida pública, revelou que trazia de vidas passadas compromissos severos perante a Consciência Cósmica. Assim também o dissera anteriormente Chico Xavier. Ambos nas ceram em solo brasileiro, sem auréolas antecipadas, mas com o fulgor oculto de almas que aceitaram o desafio da reparação por meio do amor incondicional e do serviço incessante ao próximo. A cada lágrima derramada, um débito apagado. A cada criança acolhida, um passado resgatado. A cada palavra proferida em nome da Verdade, um elo reatado com o Altíssimo.

A trajetória de Divaldo é dessas que não se medem em anos ou décadas, mas em legados. Desde a juventude, quando começou a ouvir a voz suave e firme de Joanna de Ângelis, até seus últimos momentos na matéria, Divaldo percorreu o Brasil e o mundo levando a mensagem libertadora do Espiritismo. Foi o orador in cansável de mais de 20 mil conferências em mais de 70 países, e o médium lúcido que psicografou mais de 260 livros, cujos direitos autorais foram todos destinados à caridade. Sua palavra, impregnada de unção, unia o saber à sensibilidade, o raciocínio à ternura, a ciência espiritual à poesia do amor.

Sob a inspiração de sua mentora espiritual Joanna de Ângelis, que é um Espírito vinculado à tradição franciscana e à psicologia profunda do ser, Divaldo inaugurou uma nova era na literatura espírita, abordando com profundidade e linguagem coerente os conflitos psicológicos da alma humana. Suas obras formam hoje uma biblioteca terapêutica de iluminação interior, lidas e estuda das por milhares de pessoas em busca de autoconhecimento, equilíbrio e transcendência. Por meio dessas páginas, Joanna fala ao mundo, e Divaldo soube transferi-las do plano invisível para o visível com fidelidade, coragem e elevação.

Além da palavra e da pena, porém, estão o gesto e a ação. E foi por meio da Mansão do Caminho, fundada em Salvador, na Bahia, que Divaldo imprimiu no chão de nosso planeta as letras do Evangelho com suas pegadas de luz. Com a ajuda de seu inseparável amigo Nilson de Souza Pereira, criou um complexo educacional e assistencial que acolhe diariamente milhares de pessoas, oferecendo desde o berçário até o curso técnico, além de atendimentos médicos, odontológicos e psicológicos. A Mansão é, de fato, um oásis de esperança em meio ao deserto da exclusão social, um foco luminescente que traduz em obras a fé que prega.

O bem que Divaldo realizou, e sua obra continua a realizar, honra sobremaneira o Espiritismo. Sua presença na história contemporânea do Brasil é comparável à de raríssimas almas que, com amor e renúncia, reformulam os destinos de comunidades inteiras. Ele não apenas divulgou uma doutrina espiritual: ele a substancializou e corporificou. Sua existência foi uma carta viva do Evangelho, lida por olhos de todas as religiões e mesmo de nenhuma, porque há algo universal em sua conduta e pregação que agrega fraternalmente até aqueles que se proclamam sem nenhuma fé. O Brasil é hoje melhor porque Divaldo Franco viveu entre nós.

Não obstante as múltiplas tarefas que assoberbavam esse numinoso servidor do Cristo, ele nunca deixou de responder às correspondências que lhe enviávamos. Em 2016 ocorreu o lançamento de nosso sétimo livro, O esplendor das bem-aventuranças, publicado pela Mundo Maior Editora. Como de costume, enviamos um exemplar a Divaldo, com uma dedicatória nascida do coração. Com agradável surpresa, recebemos dele, poucos dias depois, o seguinte e-mail que nos deixou profundamente emocionado:

“Salvador, 8 de setembro de 2016. Querido irmão, Mário Frigéri. Sempre em paz. Acabo de receber o seu lindo livro O esplendor das bem-aventuranças. Estou encantado. Que maravilhosas interpretações, distantes do lugar-comum a que todos estamos acostumados. Deus prossiga inspirando-o, a fim de que a beleza salve o mundo, encantando-nos a todos. Agradeço emocionado o seu carinho, que reconheço não merecer. Gostaria muito de abraçá-lo numa das próximas viagens a nossa querida Campinas, antes de meu retor no à Pátria Espiritual. Seu velho irmão e amigo, dedicado e reconhecido, Divaldo”.

Respondemos-lhe, agradecendo por sua carinhosa atenção e, entre outras recordações de sua vasta e frutuosa existência, manifestamos-lhe nossa rogativa a Jesus para que lhe desse vida longa, ao mesmo tempo em que comparamo-lo a outros grandes missionários, como Pietro Ubaldi e Chico Xavier, cujas vidas missionárias honraram, como ele, a seara de Nosso Divino Senhor. Divaldo, então, retomando a pena (ou o teclado), nos escreveu um segundo e-mail:

“Meu abençoado irmão Mário Frigéri. Sempre em Paz. Como você penetra no meu coração e me diz ditos indizíveis que não sei como agradecer! Sinto que vai chegando o momento do retorno. As resistências são cada dia menores, embora o esforço hercúleo que faço. Uma imensa nostalgia me domina e procuro no Senhor Jesus a alegria que me renova. Nesta semana estarei no Rio, na temporada anual que faço desde 1957, sem nunca haver deixado uma vez. Você irá longe também, porque Jesus, por mais incrível que pareça, necessita dos servidores fiéis que escasseiam para trabalhar na sua seara. Eu lhe confesso que sua comparação em referência a mim e aos apóstolos citados me comove muito. Claro que não me considero na condição de ser semelhante ou parecido a eles, mas ler isto, escrito por alguém lúcido e respeitado como você, confesso que me reanima, acostumado que estou a incompreensões, como é natural, e a interpretações equivocadas que sempre procuro silenciar. Deus o guarde em paz, amigo e irmão querido. Até breve. Divaldo”.

Diante dessa e de uma ter ceira manifestação sua em novo e-mail, achamos tudo tão espontâneo e edificante que lhe pedimos autorização para divulgar nosso diálogo em um vídeo para conhecimento de nossos irmãos internautas. Ele autorizou e o vídeo, intitulado “O livro que encantou Divaldo Franco”, foi confeccionado por nós e postado em nosso canal no YouTube e Facebook poucos dias depois.

Lembramo-nos desses acontecimentos com muita emoção e ficamos muito feliz em poder deixá-los registrados nesta edição de Reformador. Este artigo, pois, é mais que uma homenagem: é um cântico de louvor à sua trajetória extraordinária. E para envolver na luz da poesia os nossos mais elevados sentimentos, reunimos quatro poemas escritos por nós ao longo dos anos com carinho fraternal, versos que brotaram da admiração e da convivência epistolar e espiritual com esse semeador impertérrito do bem. Que cada estrofe seja um abraço ao seu Espírito boníssimo, e que cada palavra alcance o coração de quem, como nós, o amou e o continuará amando para sempre:

Divaldo na TV
Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto Eu estou contigo e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. (Atos, 18:9.)

Divaldo vai à TV?
Meu amigo, estou ligado!
É nele que a gente vê
O Homem já iluminado.

Na Conferência de luz
Ou no Workshop lotado,
Ele interpreta Jesus
Num clima divinizado.

Também se entregou a fundo
Ao feliz apostolado
De semear pelo mundo
O texto Codificado.

E para nosso conforto,
Quando é entrevistado,
Nunca está em ponto morto,
Mas está sempre engrenado.

Quer sobre o átomo físsil,
Quer sobre o amor e o pecado,
Não há pergunta difícil
Para seu verbo inspirado.

E trocando agora a rima,
Indo de ado pra aldo,
Mais o povo se sublima
Quanto mais ouve Divaldo!

Divaldo Franco
O mundo necessita de luz para superar as sombras dominantes. Joanna De Ângelis

Sua palavra energizante e forte
Aponta o norte a todo caminhante
Que aspire, embora o peso da matéria,
À fé sidérea que o fará triunfante.

Quer na oratória sacra, quer na escrita
Que flui bendita de altas dimensões,
Há nele igual vanguarda de esperança
E amor que avança e inflama os corações.

Quando tal voz nas almas relampeja,
A Ideal Igreja em doce paz imanta
E faz das trevas luz, ao convertê-las.

E quanto mor o estrondo da batalha,
Mais prega e espalha e exemplifica e canta
E vive o Cristo O Semeador de Estrelas!

Canção para Divaldo
Homenagem ao nobre tribuno, em seus 90 anos de um feliz semear.

Hoje estamos aqui festejando um amigo
Que nos vem num sorriso expressar seu amor,
Sua voz calorosa é aconchego e abrigo
E transmite a mensagem de Nosso Senhor.

Ele traz suas mãos carregadas de trigo
E revela no olhar um divino fulgor,
Já pregou às nações sem temer o perigo,
Pois com o Cristo ele é sempre um feliz Vencedor.

Seus exemplos de fé e seu verbo viril
Deixam o mundo melhor e mais iluminado,
E mais forte e cristã, nossa Pátria, o Brasil.

O seu nome é Divaldo e seu Mestre é Jesus:
Com Joanna de Ângelis sempre a seu lado,
É o Estafeta do Amor a serviço da Luz!

Cântico De luz
A Divaldo Franco, ao completar seus 98 anos.

Silente vai, qual astro que se inclina,
Na curva mansa de alta penedia,
Mas deixa aqui na Terra a poesia
De uma existência plena e peregrina.

Em cada gesto, a paz se fez doutrina,
Deu brilho à dor em cada serventia,
Falou de Deus com tanta galhardia
Que o verbo amar vibrou de luz divina.

Não cessa a luz que acende outras vigílias!
Parte-se o vaso, não as maravilhas,
Nem finda a voz que ensina o amor profundo.

Fica a semente viva aqui, brotando,
Fica a lição nos corações, pulsando,
Fica o legado a iluminar o mundo!

Ao concluir este tributo em forma de poesia, não nos despedimos de Divaldo – mas vislumbramo-lo com alegria em nova trajetória em Planos mais alcandorados, a prosseguir em uma nova jornada maior do que aquela que ele aqui desempenhou com tanta determinação e ternura. Sua luz não se apaga: ela se multiplica semelhante às estrelas do Infinito em cada alma tocada por sua palavra, em cada gesto inspirado por seu exemplo, em cada coração que passou a amar ainda mais após ouvi-lo em suas conferências. Ele foi e é, por excelência, o estafeta do amor, o missionário da esperança, o amigo fiel de Jesus e de todos nós.

Guardemos com alegria a certeza de que um dia o reencontraremos, quando também cruzarmos os umbrais da Eternidade. Até lá, honremos seu legado com coragem, cultivando a fé ativa, a caridade operante e a fraternidade universal. Divaldo venceu – e nos mostrou, com humildade e grandeza, que, como ele, todos podemos vencer também. E assim, comovi dos e em júbilo, nós dizemos:

– Obrigado, Divaldo, por ter vi vido entre nós como arauto do bem. Siga em paz, missionário da ternura e da verdade, que nós ficaremos aqui, firmes, espalhando as estrelas com que você engrinaldou os nossos corações.

N.A.: Autor, escritor, poeta e youtuber compromissado com a Doutrina Espírita – Campinas (SP).