Juventude e maturidade espírita
Carlos Augusto Abranches*
[email protected]
Resumo
O artigo reflete sobre a fundamental importância do jo vem na Casa Espírita. A ideia é chamar a atenção da comunidade espírita para a necessidade da renovação dos quadros dos trabalhadores das instituições.
Palavras-chave
Movimento Espírita; juventude; Casa Espírita; maturidade.
•
Pretendo desenvolver aqui algumas reflexões em torno da necessária ressignificação do relacionamento entre os jovens espíritas e os confrades que atuam no labor espírita há mais tempo. Nosso objetivo é desta car a importância da integração de quem está na faixa entre 12 e 20 anos, a receber estímulos dos dirigentes para desenvolver atividades integradas com os destinos da casa.
Não nos esqueçamos de que são os jovens de hoje que precisam estar preparados para assumir a direção dos trabalhos amanhã.
Preocupo-me fortemente com o envelhecimento do público frequentador das casas espíritas. Paralelo a essa preocupação, pergunto também: em qual faixa etária nossos trabalhadores diretos, comprometidos com a administração dos centros, se encontram? E como fica a renovação desses quadros?
Onde estão os adolescentes das mocidades? Estão sendo devidamente preparados para assumirem os serviços da casa, em um futuro próximo, ou es tão migrando para outras frentes religiosas, que seduzem de forma convidativa, através de músicas e louvores, seus futuros profitentes?
Sem descer a profundas ilações, aproveito para lembrar o que seria do mundo se alguns jovens não tivessem tido a coragem de quebrar as resistências e superar a rigidez do estabelecido, criando espaço para novos ares e avanços diferenciados na história do pensamento religioso.
Jesus de Nazaré – o próprio Mestre da Boa-Nova revelou os fundamentos da Nova Era, com apenas 33 anos.
João Evangelista – contaria 20 anos, quando presenciou a cena dolorosa do Calvário; um jovem iluminado, que se iniciou no apostolado com menos de 20.
O Cristianismo primitivo, nos primeiros anos da experiência cristã na linha do tempo, está repleto de referências a pessoas jovens que não fraquejaram na fé pelo seu ideal, nem mesmo à frente das feras, nos circos de Roma. As obras mediúnicas, sobretudo as de Emmanuel, se referem a esses jovens com respeito e gratidão, reputando a eles notáveis exemplos da renovação pelo amor, capazes de oferecer ao futuro dos séculos exemplos de honradez, fidelidade e elevação moral.
Francisco de Assis (1182 1226) – um dos Espíritos mais iluminados que vieram à Terra nos primeiros tempos do se gundo milênio, contava 20 anos quando vozes espirituais o advertiram, lembrando-lhe os compromissos firmados com o Senhor, ao reencarnar.
Antônio de Pádua (1195 1231) – o notável “Fernando de Bulhões” deixou a família aos 16 anos para pesquisar as belezas da vida celestial e se tornou o poderoso médium de trans porte em corpo astral, o baluarte da oratória religiosa, numa época de cavalaria e guerras, e cuja ternura pelas crianças marcou para sempre os corações de quem lê sua biografia.
Joana d’Arc (1412–1431) – essa menina tinha 18 anos quando auxiliou a França a quebrar elos cristalizados de dureza nos corações, vindos da infeliz relação entre o Estado e a Religião, e petrificados na dureza sectária da Inquisição.
Vicente de Paulo (1581 1660) – um dos mais marcantes exemplos de caridade e de carinho para com os mais desvalidos, esse missionário francês iniciou seu inesquecível apostolado aos 24 anos, em plena alvorada de sua maturidade, alimentada e nutrida de luz nos anos da juventude.
•
A história do Espiritismo não é menos significativa, com a impressionante legião de mo ços que desde cedo projetaram e realizaram suas tarefas, apesar da oposição de muitos.
Irmãs Fox – estavam mergulhadas em plena adolescência quando compromissos iniciaram mediúnicos com o Alto, compromissos esses que abalaram os alicerces de uma civilização e marcaram a aurora de uma nova etapa para a Humanidade.
Codificação do Espiritismo – as sessões mediúnicas conduzidas por Allan Kardec contavam com a presença de moças médiuns, como as adolescentes Julie e Caroline Baudin, de 14 e 16 anos, respectivamente. Foram elas as médiuns de Espíritos da elevação de Sócrates, Platão, Santo Agostinho e até Jesus.
Elizabeth d’Espérance – a célebre médium de Alexander Aksakof, desde menina falava com os desencarnados. Acabou se tornando, ainda na juventude, um dos maiores médiuns de efeitos físicos e materializações de Espíritos, de todos os tempos.
Léon Denis – começou a escrever seus livros, de funda mental importância para a história da filosofia espírita, com 21 anos.
•
No Brasil, são fartos os exem plos de jovens que despertaram para o ideal do bem ainda na juventude. Citemos aqui alguns:
Frederico Jr – tinha 21 anos quando iniciou o trabalho com a mediunidade;
Chico Xavier – tinha só 22 anos quando teve seu primeiro livro mediúnico publicado, Par naso de além-túmulo. Daí para diante, as bases fincadas na grandeza de um Espírito que se ajustou durante a infância e a juventude geraram mais de 416 obras mediúnicas, um verdadeiro portal de luz para a Humanidade do futuro.
Yvonne A. Pereira – sua trajetória mediúnica começou aos 12 anos, quando passou a escrever mediunizada, sem o saber. Antes da segunda década de vida, já era responsável pelo receituário e curas de obsessão em Rio das Flores, onde nasceu, e posteriormente em cidades de Minas Gerais, para onde se mu dou, como Juiz de Fora e Lavras.
Leopoldo Cirne – aos 21 anos, foi eleito vice-presidente, 90 28 e aos 31, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB).
•
Espero que a breve lembrança desses personagens históricos do pensamento cristão, vários deles ligados à Doutrina Espírita, nos permita compreender a beleza da presença do jovem em nossas lides.
Diante desse fato, aproveito para rogar aos benfeitores espirituais que auxiliem os jovens a se manterem com prometidos com a educação e vivência espíritas desde a infância, para que, quando chegarem à maturidade, não sejam pedras de tropeço para os dirigentes mais amadurecidos na experiência da vida.
Que nossos jovens espíritas consigam vencer os sutis chamamentos para as facilidades que a vida superficial e vazia de nosso tempo presente lhes oferece.
Que na trajetória da encarnação, nossos moços de hoje honrem a dignidade de ser protótipos do homem integral do futuro, aquele a quem Kardec chamou de “homem de bem”.
E que, no conjunto geral da grande família espírita, sejamos todos nós, crianças, jovens e adultos, os primeiros a desejarem fortalecer os laços da fraternidade pura, aquela que faz a “liga” dos valores eleitos pelo Codificador como as mais poderosas ferramentas de transformação do mundo – trabalho, solidariedade e tolerância.
*N.A.: Escritor e autor de livros, um deles Vozes do espírito, publicado pela FEB Editora. Colaborador do Movimento Espírita de São José dos Campos (SP).