Doutrina de luz¹
[O homem que luta contra suas próprias inferioridades
não pode obter vitória mais expressiva do que as
que lograr sobre seus vícios e fraquezas.]²
Indalício Mendes³
O Espiritismo é uma religião de esperança no futuro espiritual da Humanidade, porque esclarece e orienta, educa e encaminha, fortalece e revitaliza. Quando se diz que a Doutrina Espírita é doutrina de amor e renúncia, os que não a conhecem profundamente podem supor, como renúncia, a apatia moral, a ausência de esforço para as lutas sadias, o marasmo espiritual. Tal não se dá, porém, porque renunciar é ceder e conceder conscientemente, é compreender a beleza de dar para servir, nunca, entretanto, abandonar–se discricionariamente a influências estranhas e refutáveis.
O espírita consciencioso deve ser um lutador no bom sentido da palavra. Deve forrar-se de otimismo e de esperança, de coragem e alegria para compreender a vida e poder interpretá-la à luz fulgurante do Evangelho do Cristo. Lutar pela vitória espiritual, trabalhar pela conquista de uma posição moral progressivamente mais alta, capaz de beneficiar aqueles que com ele se ponham em contato, esse o dever do espírita que estuda e assimila a doutrina que Allan Kardec codificou. Nem pode haver luta mais estrênua e nobre que a do bem, que procura sobrepujar o mal apenas com a exemplificação do amor e da caridade. O homem que luta contra suas próprias inferioridades não pode obter vitória mais expressiva do que as que lograr sobre seus vícios e fraquezas. Mas há outros setores de luta. Em vez de desprezar, por má compreensão do pensamento doutrinário, o trabalho de elevação ou de reconstrução de seu caráter, deve o homem lutar com ânimo e pertinácia, mas lutar com amor e tolerância, esclarecendo, ensinando, educando, sem a preocupação equívoca de se sobrepor aos seus semelhantes. Pensar-se que o espírita deve ser voluntariamente um vencido, entregue à passividade que o fatalismo inculca, é erro ainda mais grave porque ofende a pureza do sentimento lidimamente cristão.
Percorram-se as páginas do Evangelho e nelas encontrar-se-á o Cristo sempre em trabalho ativo, sempre lutando, incutindo bom ânimo, encorajando, socorrendo, estimulando todos à luta gloriosa do bem pelo bem. Peregrinou de cidade em cidade, levando aos homens a Boa-Nova, o coração transbordante de otimismo, referto de compaixão, saturado de amor ao próximo! Realizou a pesca maravilhosa, curou enfermos do corpo e da alma, firmou o conceito superior da “Lei Áurea”, edificou os contemporâneos, como edifica os pósteros, com as prodigiosas lições das parábolas fecundas e instrutivas! Multiplicou os pães, sempre lutando a boa luta, jamais renunciando ao sagrado direito de lutar. E ao compreender a necessidade de deixar a Terra, após haver ensinado aos homens os fundamentos do Cristianismo, sofreu gloriosa mente a suprema humilhação no alto do Calvário, para, afinal, no momento cruciante do inenarrável sacrifício, realçar seu piedoso trabalho de amor e de caridade, pedindo a Deus misericordioso:
– Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem!…
O Espiritismo nada mais é que o Cristianismo em sua roupagem simples e primitiva, porque é doutrina de amor, de trabalho, de paz, de compreensão e de renúncia. É falsa a atitude do homem que, diante da adversidade, cruza os braços, desanimado, e se rende ao fata lismo necrosante, murmurando: “É minha provação. Devo aceitá-la resignadamente por que essa é a vontade de Deus”. Em certos casos, assim pode suceder, mas, na maioria deles, o homem deve lembrar-se de que Deus nos dotou de ânimo e força de vontade para podermos lutar contra o pessimismo e a inércia, para que saibamos enfrentar com galhardia os contratempos da vida, sem o que demonstraremos falta de fé em seus desígnios e ausência de entendimento das lições do Mestre Amado. O espírita, mais do que qualquer profitente de outra religião, deve reagir contra esse estado d’alma negativo. Deve reagir e não se abismar na desesperança. Pelo contrário, nas horas difíceis, seu pensa mento precisa erguer-se até o Cristo, com a maior sinceridade. A doutrina oferece armas poderosas para a reação salutar: fé, amor e coragem!
Diante das provações, de vemos lutar corajosamente, porque esse espírito de luta poderá ajudar-nos a ganhar uma recompensa que a passividade não pode oferecer. A resignação é bela e necessária, mas a resignação superior, em face das situações verdadeiramente irremediáveis. Aceitar todas as vicissitudes como inelutáveis e ceder aos seus efeitos sem reagir será contraproducente, porque o Espiritismo não ensina o fatalismo, não defende a passividade, que é sempre uma enfermidade do espírito insuficientemente forte para lutar. Não. O Espiritismo é doutrina de luz: esclarece e orienta, educa e encaminha, fortalece e revitaliza. Essa doutrina dá-nos força para lutar, para reagir, para formar reservas morais que nos permitam reagir aos contratempos da vida. Isto porque o Espiritismo traçou seu roteiro dentro do Evangelho, onde encontramos os elementos que podem fazer do homem vencido um vitorioso, mas não faz jamais um derrotado daquele que luta a boa luta e procura vencer com o Cristo!
¹ N.R.: Transcrito de Reformador jan. 1949, p. 5 e 6.
² N.R.: Frase do autor, interposta pelo Editor de Reformador.
³ N.R.: Indalício Hildegárdio Mendes [1901–1987] – Dedicado colaborador da FEB, destacou-se especialmente como articulista e secretário da revista Reformador durante longos anos, tendo exercido, entre outras funções, a vice-presidência da Casa de Ismael.