Revista Reformador

Leitura mental no livro da alma

Mário Frigéri*
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Resumo

Apresentamos neste artigo a história de Domênico, um sacerdote desencarnado, que se encontra em estado deplorável, exilado nas regiões umbralinas, o qual foi submetido a uma leitura mental prévia por seus amigos espirituais, como preparatória e orientadora de nova existência de cunho redentor a ser vivida na crosta terrestre. A narrativa sublinha aos olhos de todos nós a importância de vivermos com amor, justiça e responsabilidade, incentivando a oração e a vigilância ensina das por Jesus, bem como o autoconhecimento e a melhoria espiritual.

Palavras-chave

Leitura mental; Umbral; redenção; consciência; misericórdia divina; transformação espiritual.

No vasto universo da literatura espírita, há momentos que nos tocam de forma profunda o coração, fazendo-nos refletir sobre a capacidade transformadora do amor, do perdão e da fé em nossa vida. Este artigo traz à tona um desses momentos sublimes, extraído do livro Obreiros da vida eterna, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier e publicado pela FEB Editora. Através da comovente história do padre Domênico, somos convidados a mergulhar numa narrativa de dor, remorso, arrependimento e, sobretudo, redenção. Domênico é um Espírito em estado de semidemência, muito endividado e exilado no Umbral, onde é visitado por sua mãe Ernestina, anjo sublime em forma de mulher que desce das Esferas Superiores para socorrer o filho.

Há outros atores em cena nesta história, todos concorrendo para o bom êxito desse evento espiritual. Temos, por exemplo, Zenóbia, que é diretora da Casa Transitória, uma instituição do mundo invisível, situada próximo à crosta terrestre, dedicada a socorrer as almas em sofrimento umbralino. Temos o padre Hipólito, cuja principal atividade é dirigir apelos cristãos aos infelizes que choram na tenebrosa zona dos abismos. Temos o assistente Jerônimo, que orienta um pequeno e operoso grupo do qual participa André Luiz, que é colaborador do grupo e autor da reportagem. E temos, finalmente, Luciana, que é enfermeira clarividente com especialidade em leitura mental.

A história de Domênico é um retrato das complexas relações entre o espiritual e o humano, destacando como nossas ações e escolhas durante a vida física trazem profundas consequências para nosso estado espiritual após a morte. Luciana, com sua faculdade de leitura da mente, conseguiu trazer à luz as memórias de Domênico que ele próprio procurava ocultar, a fim de expor seus equívocos e oferecer uma chance de com preensão e, consequentemente, de redenção.

Esse caso sinaliza também uma forte chamada à introspecção e à busca contínua de nossa melhoria espiritual, que é tema central no Espiritismo e nas obras de André Luiz. A história de Domênico serve ainda como um facho de esperança, mostrando que independente mente dos erros cometidos por nós, sempre há uma nova oportunidade para nossa transformação e crescimento espiritual.

Domênico, Espírito atormentado por erros de vidas pretéritas, encontra na presença amorosa de sua mãe desencarnada renovadora luz de esperança e redenção. Ernestina, com sua fé inabalável e ternura infinita, guia o filho por um caminho de oração e reconciliação com a Lei de Deus, demonstrando que a Luz Divina, às vezes como delicado pincel de luz e às vezes como possante explosão de claridade, tem o condão de penetrar nas sombras mais densas para transformar e redimir.

Permita, amigo leitor, que a jornada de Domênico e Ernestina penetre em seu coração, para lembrar-lhe, e a nós também, de que com amor e fé podemos superar qualquer obstáculo em nosso caminho. Que isto sirva de luz e esperança para todos aqueles que buscam a verdadeira redenção, pois encontramos aqui um relato impactante de leitura da memória espiritual, um procedimento que revela as profundezas das experiências humanas e espirituais de uma forma extremamente comovedora. O capítulo do livro citado, que tem o título de Leitura mental, é um exemplo notável dessa técnica, onde a clarividente Luciana lê a memória do padre Domênico, trazendo à tona uma história de erros, remorsos e redenção. O texto foi condensado e recontado por nós para caber no exíguo espaço deste artigo.

A gênese de tudo

Zenóbia solicita o concurso de todos os personagens que citamos para o socorro a Domênico, entidade que era muitíssimo cara ao seu coração. O grupo, acompanhado por outros tarefeiros, desce às sombrias regiões do Umbral e, após atravessar vastas regiões pantanosas onde almas penadas gemiam sob o jugo de impiedosos feitores, chega à beira de um abismo no qual se situava o padre Domênico, em deplorável estado de severa alienação mental. Transportado pelos tarefeiros para local mais ameno e reservado, onde Domênico pudesse ser atendido sem interrupções, o sacerdote foi acomodado no colo de Zenóbia, a qual sentara-se na grama para poder acolhê-lo melhor. Passou então a acariciar-lhe a fronte e a proferir sentida prece em benefício de sua recuperação espiritual.

Após longo diálogo com o enfermo, que conseguia ouvi-la, mas não vê-la nem reconhecer-lhe a voz, Zenóbia solicita ao padre Hipólito que dirija exortações a Domênico, que fora seu colega de sacerdócio, a fim de prepará-lo para a próxima etapa daquele trata mento. Esse diálogo, ocorrido entre os dois, enfatiza a importância do arrependimento e da busca pela redenção. Hipólito sinaliza que todos nós carregamos na consciência o registro de nossas ações, e que a verdadeira justiça, a Justiça Divina, está entronizada, viva e pulsante, em nossa própria consciência.

Após essa exortação, o enfermo infeliz ficou mudo por alguns momentos, e o grupo elevou sentida prece a Deus, rogando lenitivo para o sofre dor e bastante luz para Luciana, a fim de que ela pudesse exercer agora a sua faculdade com a necessária proficiência. Luciana, então, com carinho fraterno, aproximou-se do Espírito atormentado e, fixando os olhos em sua fronte, iniciou a leitura mental, revelando aspectos profundos de seu passado. Disse-lhe Luciana:

– Padre Domênico, vossa mente revela o passado distante e esse pretérito fala muito alto diante de Deus e dos irmãos em humanidade! Duvidais da Providência Divina, alegais que o vosso ministério não foi devidamente remunerado com a salvação e imprecais contra o Pai de misericórdia infinita… Vossa dor permanece repleta de blasfêmia e desespero, proclamais que as forças celestes vos abandonaram ao tenebroso fundo do abismo!

Domênico, ressentido e desesperado, interrompeu Luciana com protestos, dizendo sentir-se traído por uma Igreja que lhe prometera honras e salvação, mas o havia decepcionado. Luciana, no entanto, não se deixou abater pela lamentação revoltosa do sacerdote e continuou a dia logar com ele, ressaltando a importância da conduta cristã e da responsabilidade pessoal. E lhe disse:

– As igrejas, meu amigo, são sempre elevadas e belas. Consubstanciam, invariavelmente, o roteiro de nosso encontro divino com o Pai de infinito amor. Ensinam a bondade universal, o perdão das faltas, a solidariedade comum. Mas e os nossos crimes, fraquezas e defecções? Em geral, todos nós que somos filiados a correntes várias do pensamento religioso na Terra, exigimos que se nos faça justiça, esquecidos, contudo, de que as noções de justiça envolvem a existência da lei. […]

Luciana continuou a interpretar a mente do enfermo, revelando os últimos momentos da vida física de Domenico, onde ele foi vítima de envenenamento traiçoeiro, efetuado por um marido que fora traído pelo próprio padre. A descrição minuciosa da cena, com todos os detalhes dolorosos, trouxe à tona a verdade dos sofrimentos do moribundo e a necessidade de redenção. Luciana detalhou a noite fatídica em que, após ser envenenado, Domênico foi ridicularizado por seu assassino, levando-o à morte agônica e desesperada.

Dando sequência à leitura mental do sacerdote, Luciana continua a revelar os segredos ocultos e as transgressões daquele Espírito infeliz, expondo seus erros passados de maneira vívida e detalhada. Essa passagem é importante porque aprofunda o processo de revelação e arrependimento, apresentando três figuras que aparecem na visão íntima do sacerdote: seu velho pai na véspera da desencarnação, bem como um eclesiástico que Domênico prejudicou, e uma senhora que sofreu por causa de suas ações.

Na mente do enfermo, seu pai aparece-lhe reclamando sobre certa escritura que não foi tornada pública, o que sugere que Domênico não cumpriu a promessa feita ao progenitor no leito de morte. O pai confessou seus erros passados e pediu a Domênico que cuidasse de outros filhos que ele tivera fora do lar principal. O sacerdote infiel, porém, após a morte do moribundo, escondeu o testamento, impedindo que suas vontades fossem cumpridas.

Em seguida, aparece-lhe na mente a figura de um sacerdote idoso que foi removido de sua paróquia por influência de Domênico, porque este desejava ocupar o seu curato para atender a interesses pessoais inconfessáveis. Após manipulações políticas, o sacerdote foi removido e morreu em singela paróquia situada entre montanhas distantes, odiando terrivelmente Domênico.

Uma senhora, que desencarnou após melindrosa operação nos olhos, destaca-se agora na mente do sacerdote. Ela e seu filho, fruto de relação pretérita com o padre, foram rejeitados por ele quando procuraram sua ajuda. Foram expulsos da paróquia por um servo do sacerdote que, atendendo suas ordens, os ameaçava com cães ferozes. A mulher desditosa e a criança infeliz morreram pouco tempo de pois em condições precárias, primeiro o menino e, em seguida, a mãe, nutrindo terrível desejo de vingança contra o sacerdote impiedoso.

Esse trecho explora a ideia de responsabilidade e conse quências dos atos, mostrando como os erros e omissões de Domênico causaram sofri mento a outros e a si mesmo. Os inúmeros Espíritos que o assediaram no mundo invisí vel após seu decesso agiram assim em decorrência das dí vidas morais que ele acumulou na crosta e que agora precisava enfrentar no Umbral.

Domênico encontra a mãe

Quando o sacerdote começa a capitular, em vista dessa acareação com sua deplorável realidade espiritual, Zenóbia concentra-se e projeta o pensamento nas esferas invisíveis, invocando a presença de Ernestina, mãe do desventurado sacerdote. Ernestina é figura de amor incondicional e fé inabalável, que surge em cena para abraçar o filho e reconduzi-lo por meio de sentida prece à reconciliação com a Lei de Deus. A mãe pediu ao filho que fosse repetindo as palavras de sua prece. Ao fazer isso, Domênico começa a libertar-se das correntes de culpa e desespero que o mantinham preso ao passado. Esse ato de devo ção e humildade perante sua consciência proporciona-lhe grande alívio espiritual, marcando o início de sua jornada de cura e redenção.

A mãe, simbolizando o amor divino, não só o conforta como também o corrige com ternura, ajudando-o a compreender que seus erros não são inapeláveis e que a misericórdia de Deus está sempre disponível para aqueles que verdadeiramente buscam reconciliação com a Lei. A exposição fraterna feita por essa mulher sublime enfatiza a importância do trabalho espiritual contínuo, do reconhecimento dos próprios erros e da confiança na Providência Divina para alcançar a elevação espiritual necessária e reiniciar o caminho da redenção.

A cena também revela a intercessão e a presença de Zenóbia, que estava associada a certo amor do passado que a uniu a Domênico, e que se encontrava ali presente para trabalhar pela transformação do enfermo. Esse lance demonstra como as ligações espirituais e o amor verdadeiro situam-se além do tempo e do espaço, influenciando positivamente o caminho de cada um rumo à Luz Divina. Domênico finalmente sucumbe ao apelo irresistível de tanto amor. Vemos aqui a importância do arrependimento sincero, da oração cordial e da confiança na infinita bondade de Deus, destacando o poder transformativo do amor e do perdão no processo de redenção humana. Finda a intercessão em benefício de Domênico, a mãezinha agradecida toma-o nos braços e o transporta amorosamente rumo à crosta terrestre para iniciar os trâmites duma nova encarnação redentora.

Esperança e redenção

Essa história nos oferece um poderoso vislumbre das transformações que o amor, o perdão e a fé podem operar em nossas vidas. Domênico – essa alma naufragada em seu próprio desespero – encontrou no amor sublime de Ernestina e de Zenóbia a força necessária para iniciar sua jornada de renovação. Ernestina, com sua fé inabalável e devoção materna, foi o farol que iluminou o caminho do filho, rompendo o circuito fechado de sua alma e conduzindo-o para fora daquele sítio de sofrimentos atrozes.

Ao refletirmos sobre essa narrativa, somos lembrados de que todos nós, em algum momento, enfrentaremos nossas próprias sombras e desafios espirituais. No entanto, a mensagem central que fica impressa em nosso coração é a de que nunca estamos sozinhos. O amor de Deus, manifesta do por meio dos nossos entes queridos e das bênçãos invisíveis, está sempre presente, pronto para nos guiar e apoiar com mãos de luz acolchoadas pelo perdão.

A visão apresentada aqui ilustra a ideia de que existe um código moral e espiritual inscrito na alma humana, estabelecido por força superior, muitas vezes entendida como a Lei Divina. Esse código paira muito acima das leis humanas, pois enquanto as legislações civis e penais elaboradas pelos homens podem ser influenciadas por fatores sociais, culturais e históricos, a Lei Divina é percebida refletindo os princípios universais de justiça, amor e compaixão. A leitura da memória de Domênico por Luciana exemplifica de forma evidente como os erros e transgressões cometidos durante a vida são registrados de forma indelével na memória espiritual, e que, independentemente das nossas tentativas de ocultação ou negação, esses registros permanecem e exigem reconhecimento e reparação.

Esse conceito rege a ideia de que, mesmo quando os indivíduos conseguem escapar da justiça humana, não logram fugir das consequências espirituais de seus atos. A Justiça Divina, conforme descrita nas doutrinas espirituais de várias religiões, opera de maneira abrangente e infalível, como a longa mão de Deus estendida por todo o Universo, assegurando que cada ação seja recompensada ou corrigida de acordo com seu valor moral. Dessa forma, a Espiritualidade oferece perspectivas de responsabilidade contínua, onde a verdadeira justiça se manifesta através da evolução da alma, incentivando a autorreflexão, o arrependimento e a busca pela retificação dos erros cometidos.

A noção de um código moral inscrito na alma sugere que todos nós possuímos uma bússola interna que nos guia em direção ao comportamento ético e justo. Essa bússola, ou consciência, nos lembra constantemente de nossos deveres espirituais, mesmo quando podemos ser tentados a desviar-nos das normas estabelecidas pelas leis humanas. Em última análise, o conhecimento da Lei Divina, tal como estabelecido na Codificação Espírita, promove um senso de responsabilidade pessoal profundo, onde cada individuo é chamado a alinhar suas ações com os princípios universais do bem, contribuindo para sua própria evolução espiritual e para o bem-estar coletivo.

A oração fervorosa de Ernestina, repetida palavra a palavra por Domênico, desvela a poderosa conexão entre o Céu e a Terra, entre a inteireza do amor divino e as carências da esfarrapada alma humana. É lição eterna de que, mesmo nas profundezas do abismo, há sempre uma saída, uma subida, uma escada oculta, uma nova oportunidade para recomeçar. A presença compassiva e o exemplo de Zenóbia também nos ensinam sobre a importância da renúncia, da compreensão e da abnegação em marcha a serviço do bem.

Que possamos todos inspirar-nos na força transformadora dessa feliz narrativa insculpida por André Luiz em sua substanciosa obra, encontrando em nosso próprio coração a capacidade de perdoar, de amar incondicional mente e de buscar a luz celeste em meio às dificuldades terrestres. Que a jornada de Domênico nos encoraje a enfrentar nossos desafios com fé e esperança, confiando sempre na compaixão do Cristo e na benevolência do Pai Celestial.

Ao concluirmos esta narrativa, desejamos que o amigo leitor leve consigo a certeza de que a redenção é um caminho aberto de par em par para todos nós. Que o amor, a fé e a perseverança sejam os guias constantes em nossa jornada humana, visto que, em maior ou menor grau, todos temos nossas contas a acertar com a Justiça Divina. E que, assim como Domênico, possamos encontrar a paz e a renovação interior, acolhidos pelos braços amorosos daqueles que nos amam e pela infinita complacência de Deus, nosso Pai Celestial.