O livro dos espíritos – 169 anos!*
Senhor [Allan Kardec],
Submetestes minha paciência a uma grande prova pela de mora na publicação de O livro dos espíritos, há tanto tempo anunciado; felizmente, não perdi por esperar, porquanto ele ultrapassa todas as ideias que dele eu havia feito. Impossível descrever o efeito que em mim produziu: assemelho-me a um homem que saiu da obscuridade; parece que uma porta, fechada até hoje, acaba de ser subitamente aberta; minhas ideias se ampliaram em algumas horas! Oh! Como a Humanidade e todas as suas preocupações miseráveis se me parecem mesquinhas e pueris, ao lado desse futuro de que não duvidava, mas que para mim estava de tal forma obscurecido pelos preconceitos que o imaginava a custo! Graças ao ensino dos Espíritos, agora se apresenta sob uma forma definida, compreensível, maior, mais bela e em harmonia com a majestade do Criador… Em minha vida, sofri perdas que me afetaram vivamente; hoje, não me causam nenhum pesar e toda a minha preocupação é empregar utilmente o tempo e minhas faculdades para acelerar o meu progresso, porque, para mim, agora, o bem tem uma finalidade e compreendo que uma vida inútil é uma vida de egoísta, que não nos permite avançar na vida futura.
Se todos os homens que pensam como vós e eu – e os encontrareis muito, assim espero, para honra da Humanidade – pudessem se entender, reunir-se e agir de comum acordo, de que força não disporiam para apressar essa regeneração que nos é anunciada! Quando for a Paris, terei a honra de vos ver e, se não for abusar de vosso tempo, pedir-vos-ei algumas explicações sobre certas passagens e alguns conselhos sobre a aplicação das leis morais a certas circunstâncias que me são pessoais. Recebei até lá, eu vos peço, senhor, a expressão de todo o meu reconhecimento, porque me proporcionastes um grande bem ao apontar-me a rota da única felicidade real neste mundo e, além disso, quem sabe? um lugar melhor no outro.
Vosso todo devotado, D… capitão reformado.
* N.R.: KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 1, n. 1, jan. 1858. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 5. ed. Brasília, DF: FEB, 2024. [Carta dirigida a Kardec por um leitor, a propósito da publicação de O livro dos espíritos.]