Revista Reformador

Espíritos errantes

Marta Antunes Moura
martaantunes@febnet.org.br

Sabemos que após a morte do corpo físico o Espírito passa a habitar “[…] o mundo dos Espíritos, ou das inteligências incorpóreas”.¹ Aí permanece por um período mais ou menos longo, dedicado aos reajustes necessários, ao aprendizado e ao planejamento da próxima reencarnação. Apesar das surpresas, boas ou más, que lhe aguardam a vivência na dimensão extrafísica, cada retorno assemelha-se ao regresso do exilado à pátria de origem, ao “[…] mundo espiritual, que preexiste e sobrevive a tudo”² esclarecem os Espíritos orientadores.

O desencarnado reinicia nova fase da existência em outro plano vibratório, já que o seu perispírito, agora liberto do corpo físico, revela com mais intensidade as funções e propriedades que lhe são inerentes. E, sob a ação do pensamento e da vontade, acrescida do auxílio de benfeitores da Vida Maior, o Espírito implementa as necessárias transformações, úteis à sua adaptação na nova moradia.

No intervalo das existências corpóreas o Espírito torna a entrar no mundo espiritual por um tempo mais ou menos longo, onde é feliz ou infeliz conforme o bem ou o mal que haja feito. O estado espiritual é o estado normal do Espírito; é o seu estado definitivo; o corpo espiritual não morre. O estado corpóreo é transitório e passageiro. É no estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso realizado pelo seu trabalho na encarnação; é também nesse estado que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que há de pôr em prática na sua volta à Humanidade.³

Passadas as impressões iniciais da desencarnação, o Espírito irá fazer parte de uma das inúmeras comunidades existentes no Além, selecionada naturalmente com base nos princípios da afinidade, pois todo agrupamento humano, pequeno ou grande, apresenta uma aura energética oriunda das emissões mentais dos seus habitantes, cujo somatório tem o poder de definir vinculações ou desvinculações. Emmanuel esclarece mais:

[…] é no mundo mental que se processa a gênese de todos os trabalhos da comunhão de Espírito a Espírito.

[…]

Precisamos compreender – repetimos – que os nossos pensamentos são forças, imagens, coisas e criações visíveis e tangíveis no campo espiritual.

Atraímos companheiros e recursos, em conformidade com a natureza de nossas ideias, aspirações, invocações e apelos.

Energia viva, o pensamento desloca, em torno de nós, forças sutis, construindo paisagens ou formas e criando centros magnéticos ou ondas, com os quais emitimos a nossa atuação ou recebemos a atuação dos outros.

[…]

Comunicar-nos-emos com as entidades e os núcleos de pensamentos com os quais nos  colocamos em sintonia.

[…]

Estejamos, assim, convictos de que os nossos companheiros na Terra ou no Além são aqueles que escolhemos com as nossas solicitações interiores […].⁴

Considerando tais princípios de interação mental, mesmo que desconheçamos os seus mecanismos, podemos desde já ter uma ideia de como será nossa vida no Plano Espiritual, como bem esclarece Emmanuel:⁵

O reino da vida além da morte não é domicílio do milagre.

Passa o corpo em trânsito para a natureza inferior que lhe atrai os componentes, entretanto, a alma continua na posição evolutiva em que se encontra.

Cada inteligência apenas consegue alcançar a periferia do círculo de valores e imagens dos quais se faz o centro gerador.

Ninguém pode viver em situação que ainda não concebe.

Dentro da nossa capacidade de autoprojeção, erguem-se os nossos limites.

Em suma, cada ser apenas atinge a vida até onde possa chegar a onda do pensamento que lhe é próprio.

De forma ampla, podemos afirmar que o Espírito de mediana evolução não terá maiores dificuldades de adaptação na realidade extrafísica. Primeiro, porque ele conviverá com indivíduos com os quais guarda sintonia e afinidades. Segundo, porque as mudanças significativas no seu veículo espiritual ocorrem de forma gradativa e, terceiro, porque o núcleo comunitário onde passa a viver é semelhante ao em que vivia antes da desencarnação: há edificações variadas, escolas, templos, meios de transportes etc.

O Espírito André Luiz fornece esta importante informação a respeito do assunto:

– No Plano Espiritual imediato à experiência física, as sociedades humanas desencarnadas, em quase dois terços, permanecem naturalmente jungidas, de alguma sorte, aos interesses terrenos.

[…]

Aglutinam-se em verdadeiras cidades e vilarejos, com estilos variados, como acontece aos burgos terrestres, característicos da metrópole ou do campo, edificando largos empreendimentos de educação e progresso, em favor de si mesmas e em benefício dos outros.⁶

Há outra citação de André Luiz, que merece destaque:

Por isso mesmo, na esfera seguinte à condição humana, temos o espaço das nações, com as suas comunidades, idiomas, experiências e inclinações, inclusive organizações religiosas típicas, junto das quais funcionam missionários de libertação mental, operando com caridade e discrição para que as ideias renovadoras se expandam sem dilaceração e sem choque.⁷

Os desencarnados são genericamente denominados por Allan Kardec de Espíritos errantes, ou seja, o “[…] que aspira a novo destino, que espera”.⁸ Trata-se de uma expressão que não deve ser considerada literalmente, pois Espíritos errantes (do francês errant = errante, que vagueia) significa, no dicionário da Língua Portuguesa, pessoa nômade ou que não tem residência fixa. Já o conceito espírita designa o Espírito que ainda necessita passar por muitas reencarnações até que atinja o estágio de ser espiritual evoluído, característico do Espírito Puro, isto é, o que possui “[…] Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras ordens”.⁹

Percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não têm que sofrer mais provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.

Gozam de inalterável felicidade, porque não estão sujeitos nem às necessidades, nem às vicissitudes da vida material […] Eles são os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam para a manutenção da harmonia universal. Comandam todos os Espíritos que lhes são inferiores, ajudam-nos a se aperfeiçoarem e designam suas missões. Assistir os homens nas suas aflições, estimulá-los ao bem ou à expiação das faltas que os mantêm distanciados da suprema felicidade é, para eles, ocupação agradabilíssima. São designados às vezes pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins.¹⁰

Espíritos errantes, nesse contexto, representam o número significativo dos habitantes do Além, constituindo a maioria da humanidade terrestre desencarnada, que deve reencarnar, cedo ou tarde, submetendo-se às necessárias provações a fim de avançarem na senda do progresso. Dessa forma, no espaço de tempo compreendido entre uma e outra reencarnação, os Espíritos passam a viver em outro plano de vida, em locais apropriados ao desenvolvimento do seu aprendizado, consoante os princípios da sintonia, como já foi assinalado:

– A alma desencarnada procura naturalmente as atividades que lhe eram prediletas nos circulos da vida material, obedecendo os laços afins […]

[…]

O homem desencarnado procura ansiosamente, no Espaço, as aglomerações afins com o seu pensamento, de modo a continuar o mesmo gênero de vida abandonado na Terra […]¹¹

O estado de erraticidade apresenta outras características que merecem ser enfatizadas:

• Há diferentes graus de erraticidade: “[…] há Espíritos errantes de todos os graus. A encarnação é um estado transitório, já o dissemos. Em seu estado normal, o Espírito está liberto da matéria”.¹²

• É variável a durabilidade da erraticidade: “Desde algumas horas até alguns milhares de séculos. Aliás, não há, propriamente falando, um limite máximo estabelecido para o estado errante, que pode prolongar-se por muito tempo, mas que nunca é perpétuo. Cedo ou tarde, o Espírito encontra sempre oportunidade de recomeçar uma existência que sirva à purificação das suas existências anteriores”.¹³

• Condição que determina a duração da erraticidade: “É uma consequência do livre-arbítrio. Os Espíritos sabem perfeitamente o que fazem, mas, para alguns, é também uma punição imposta por Deus. Outros pedem que ela se prolongue, a fim de continuarem estudos que só podem ser efetuados com proveito na condição de Espírito livre”.¹⁴

• Como os Espíritos progridem na erraticidade: “Estudam o seu passado e procuram meios de elevar-se. Veem, observam o que se passa nos lugares que percorrem; ouvem os discursos dos homens esclarecidos e os conselhos dos Espíritos mais elevados que eles, e tudo isso lhes inspira ideias que não tinham antes”.¹⁵

• Como e quando avaliar o aprendizado adquirido pelo Espírito na erraticidade: “Pode melhorar-se muito, sempre conforme a sua vontade e o seu desejo. Mas é na existência corpórea que põe em prática as novas ideias que adquiriu”.¹⁶

• Os Espíritos errantes são felizes ou infelizes? “Mais ou menos, de acordo com os seus méritos. Sofrem por efeito das paixões cujo princípio conservaram, ou são felizes segundo sejam mais ou menos desmaterializados. No estado errante, o Espírito entrevê o que lhe falta para ser mais feliz, e então procura os meios de alcançá-lo. Mas nem sempre lhe é permitido reencarnar conforme sua vontade, o que constitui, para ele, uma punição”.¹⁷

REFERÊNCIAS:
¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. q. 84.
² ______. ______. q. 85.
³ ______. O céu e o inferno . Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp.Brasília: FEB, 2016. Pt. 1, cap. 3, it. 10.
⁴ XAVIER, Francisco C. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. 14. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 28 – Sintonia.
⁵ ______. ______. cap. 29 – Além da morte.
⁶ XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. Pt. 2, cap. 7 – Vida social dos desencarnados.
⁷ ______. ______.
⁸ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. q. 224.
⁹ ______. ______. q. 112.
¹⁰______. ______. q.113.
¹¹ XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. q. 148.
¹² KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. q. 225.
¹³ ______. ______. q. 224-a.
¹⁴ ______. ______. q. 224-b.
¹⁵ ______. ______. q. 227.
¹⁶ ______. ______. q. 230.
¹⁷ ______. ______. q. 231.