Revista Reformador

O Evangelho segundo Paulo de Tarso

Waldehir Bezerra de Almeida
waldehir.almeida@gmail.com

O leitor, sem dúvida, está curioso com o título acima, pois nunca ouviu falar em uma narrativa da vida e ensinamentos de Jesus elaborada pelo Apóstolo dos Gentios. Trata-se, apenas, de um ensaio literário, objetivando demonstrar que o convertido de Damasco foi o inspirador de Lucas na elaboração do Terceiro Evangelho, quando no corpo físico, e depois, na condição de Espírito desencarnado. Acompanhe o leitor os nossos argumentos e conclua se tenho, ou não, razões para pensar assim.

Primeiramente evocamos o dicionarista Mckenzie¹ que, pensando ao contrário de mim, afirma que, mesmo sendo Lucas companheiro e discípulo de Paulo, suas ideias não se acham expressas no Terceiro Evangelho. Porém, sua afirmação não recebe o apoio do teólogo Pastorino,² quando assegura que Lucas escreveu seu Evangelho “[…] em linguagem corrreta, entre 66 e 70, interpretando o pensamento de Paulo, a quem acompanhava nas viagens apostólicas, prestando-lhe assistência médica, pois o próprio Paulo o chama de ‘médico querido’”, grifo nosso. Temos, também, a favor da influência do convertido de Damasco na elaboração do Terceiro Evangelho uma declaração na Bíblia de Jerusalém³ de que encontramos no Evangelho de Lucas ideias “[…] mescladas com uma influência muito discreta de seu mestre, Paulo […]”.

O teólogo Lucien Cerfaux, estudando o caráter universalista do Evangelho de Lucas, assegura que ele é “[…] o fruto da união das tradições primitivas com o cristianismo helenista de Antioquia e com a pregação de Paulo”. E que “[…] Uma das provas do universalismo de Lucas reside na importância que ele dá às mulheres: em Lucas aparecem mais mulheres do que nos outros três evangelhos”.⁴ Quem bem conhece a vida de Paulo de Tarso, por intermédio das revelações do Espírito Emmanuel, sabe da relação amistosa do Apóstolo dos Gentios com as mulheres, chegando a colocá-las, muitas vezes, como responsáveis pelas igrejas que fundavam.

Diante das revelações de Emmanuel, não se tem dúvidas de que era uma obstinação do convertido de Damasco escrever a história do Nazareno. Conta-nos o seu biógrafo espiritual:

[…] Com delicadeza extrema, visitou a mãe de Jesus na sua casinha singela, que dava para o mar. Impressionou-se fortemente com a humildade daquela criatura simples e amorosa, que mais se assemelhava a um anjo vestido de mulher. Paulo de Tarso interessou-se pelas suas narrativas caridosas, a respeito da noite do nascimento do Mestre, gravou no íntimo suas divinas impressões e prometeu voltar na primeira oportunidade, a fim de recolher os dados indispensáveis ao Evangelho que pretendia escrever para os cristãos do futuro. Maria colocou-se à sua disposição, com grande alegria.⁵ (Grifo nosso).

A partir de então Paulo, em Éfeso, ficou ao lado de João Marcos, envolvido com as divergências entre os cooperadores da Igreja do Cristo naquela cidade. Solicitado, abraçou, com a determinação que sempre lhe caracterizou o apostolado, a luta em defesa das ideias do seu Mestre Amado, combatendo a influência perniciosa dos israelitas comerciantes que se locupletavam financeiramente, vendendo estátuas e outros fetiches ligados ao culto da deusa Diana. Em virtude de suas pregações, que modificaram as preferências do povo, não mais se interessando pelo culto exterior, os israelitas se sentiram soberbamente prejudicados, forçando Paulo a que procurasse outras paragens para a semeadura de suas ideias.

Paulo, considerando que até os pobres artesãos estavam sendo pressionados pelos altos comerciantes, resolveu partir. Diante de sua decisão, João lhe perguntou:

– Mas não pretendes escrever o Evangelho, consoante as recordações de Maria? […]

– É verdade – confirmou o ex-rabino com serenidade amarga –, entretanto, é forçoso partir. Caso não mais volte, enviarei um companheiro para colher as devidas anotações.⁶  (Grifo nosso).

Quando recluso em Cesareia, tendo certeza de que não voltaria a Éfeso,

[…] o ex-doutor de Jerusalém chamou a atenção de Lucas para o velho projeto de escrever uma biografia de Jesus, valendo-se das informações de Maria; lamentou não poder ir a Éfeso, incumbindo-o desse trabalho, que reputava de capital importância para os adeptos do Cristianismo […].⁷

Nesse passo, Paulo confirma sua promessa quando respondeu a João que, se não voltasse a Éfeso, enviaria um companheiro para colher as devidas anotações da mãe de Jesus sobre seu filho amado. Paulo desencarnou antes que o seu dileto amigo escrevesse o relato desejado sobre o Crucificado.

Os Espíritos revelaram a Allan Kardec que o Espírito, quando surpreendido pela morte e não vendo concluído seu desiderato, procura “[…] influenciar outros espíritos humanos, a fim de que os levem adiante. Seu objetivo, na Terra, era o bem da Humanidade; no mundo dos Espíritos, esse objetivo continua sendo o mesmo”.⁸ Essa verdade, portanto, nos ajuda a compreender e aceitar pacificamente a influência mediúnica do apóstolo tarsense na obra literária do seu discípulo Lucas.

Quanto ao tempo em que surgiu o Evangelho de Lucas, as opiniões divergem. Várias opiniões se tem a respeito: Pe Matos Soares (Bíblia sagrada), admite o surgimento entre os anos 55–60; Mackenzie (Dicionário bíblico) propõe entre os anos 63–70. Um dado nos ajuda a fixar o surgimento do importante documento após a morte de Paulo, visto que Emmanuel nos informa que ele foi decapitado no ano 67. Ora, Lucas esteve com Paulo no seu cativeiro em Roma pouco antes de sua morte, encontrando o apóstolo abatido e preocupado com o destino do Cristianismo. Sente-se só, a ponto de escrever a Timóteo, dizendo: “somente Lucas está comigo” (2 Timóteo, 4:11). Somos de opinião que se o “médico querido” já tivesse escrito a Boa-Nova com as recordações de Maria, teria dado a notícia alvissareira ao apóstolo, que tanto necessitava de estímulo naquela hora e que também pudesse validá-lo com seu conhecimento e experiência no Cristianismo nascente. Concluímos acreditando que somente depois de 67, quando Paulo já estava no Mundo Espiritual, é que Lucas escreveu o evangelho sonhado por ele.

O apóstolo tarsense sempre foi resoluto. Nada que iniciou fazer ficou pela metade, quando dependeu de sua vontade indômita e do seu esforço. Como vimos acima, o Espírito, após a desencarnação, permanece alimentando o desejo de concluir os projetos esboçados quando na vida material. Para tanto, busca quem lhe assimile as ideias, inspirando-o na direção daquele intento. E foi Lucas que, indubitavelmente, ele procurou para que realizasse o seu elevado sonho: a elaboração de um Evangelho para os cristãos do futuro.

O médico amigo satisfez-lhe integralmente o desejo, indo a Maria para colher informações seguras. Tal fato é confirmado quando lemos em Lucas, 2:19: “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração”, dando-nos a entender que esteve com ela, atendendo o pedido do Apóstolo dos Gentios.

Lucas foi o “médico querido” que acompanhou Paulo nas suas duas últimas viagens apostólicas (2 Coríntios, 12:7; Atos, 16:10 ss. e 20:5 ss.). Nascido na Antióquia, era grego puro de nascimento e de raça. Era um gentio na concepção do povo judeu. Associou-se ao apóstolo em Trôade, quando dele recebeu o convite para segui-lo na pregação do Evangelho. Lucas se desculpou por não poder segui-lo, alegando suas obrigações como médico, quando ouviu a seguinte resposta:

– Mas quem foi Jesus senão o Divino Médico do mundo inteiro? Até agora tens curado corpos, que, de qualquer modo, cedo ou tarde hão de perecer. Tratar do espírito não seria um esforço mais justo? Com isso não quero dizer que se deva desprezar a Medicina propriamente do mundo; no entanto, essa tarefa ficaria para aqueles que ainda não possuem os valores espirituais que trazes contigo […].⁹

Sem hesitar, Lucas seguiu com ele para a Macedônia, numa missão evangelizadora.

Agora vejamos alguns dados no Terceiro Evangelho que nos levam a aceitar o pensamento de Paulo presente na mente de Lucas:

a. Insiste no desapego absoluto das riquezas, do que se possua de mais caro, tendo como modelo o seu mestre, que assim agiu e se entregou intimorato à Seara do Senhor. (Lucas, 6:34 ss.; 12:33; 14:12 a 14 e 14:33).

b. Somente em Lucas encontramos a afirmação de que Jesus veio ao mundo para salvar o que estava perdido (os pecadores) (19:10), lembrando, provavelmente, o ensinamento de Paulo, quando escreve: “[…] Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (1 Timóteo, 1:15).

c. O aspecto universalista no Evangelho de Lucas é bastante acentuado, já referido acima e notado pelo teólogo Lucien Cerfaux. Essa concepção universalista de Paulo a respeito da mensagem do Cristo encontra-se sintetizada no discurso resgatado pela mediunidade de Chico Xavier: “[…] É indispensável sacudir o marasmo da instituição de Jerusalém, chamando os incircuncisos, os pecadores, os que estejam fora da lei. De outro modo, dentro de alguns poucos anos, Jesus será apresentado como aventureiro vulgar […]”.¹⁰ Lucas viveu com intensidade, ao lado de Paulo, esta concepção.

d. Lucas certamente não desconhecia a recomendação de Jesus aos seus apóstolos para que não tomassem o caminho dos gentios (Mateus, 10:5). Sabia o evangelista que o Mestre naquele momento se preocupava com “as ovelhas perdidas da Casa de Israel”. A importante missão junto à gentilidade Jesus confiaria, mais tarde, a Paulo de Tarso, tendo Lucas a seu lado como valioso colaborador.

e. O Evangelho de Lucas é o que mais cita mulheres. Narra sobre Isabel (1:5 a 25), Maria, mãe de Jesus, (1:26 a 56), Ana (2:36 a 38), a viúva de Naim (7:11 a 17), as mulheres que seguiam Jesus (Maria Madalena, Joana de Cuza, e Susana) (8:1 a 3); Marta e Maria (10:38 a 42), a mulher encurvada (13:10 a 17), a mulher que procura a moeda perdida (15:8 a 10), a viúva importuna (18:1 a 8), e as mulheres de Jerusalém que batiam no peito e choravam atrás da cruz (23:27 a 31).

Temos para esse fato uma explicação razoável. Paulo, não obstante em alguns momentos de sua vida não ter escapado da força cultural que o moldou, refletindo o pensamento em relação à mulher, demonstrou sempre respeito e carinho por elas. Em todas as igreja domésticas, mencionadas nas epístolas do convertido de Damasco, surge sempre um nome de mulher que com ele colaborou. Nas Igrejas Domésticas ele abriu espaço para que elas exercessem a função de coordenadora. Em Filipos (Atos, 16:11 a 15), uniu-se a um grupo de mulheres que formavam uma comunidade, liderada por Lídia.

Paulo e Lucas foram sempre muito bem recebidos pelas senhoras nos locais onde chegavam para fazer a pregação dos ensinamentos do Crucificado. Sem dúvida, o médico sentiu-se no dever de homenageá-las, citando-as profusamente em seu documento.

Ficamos aqui com a certeza de que Lucas foi médium de Paulo, quando da elaboração do Terceiro Evangelho, considerando, no entanto, que, como intérprete do pensamento do convertido de Damasco, teve a liberdade de mesclar o tão importante documento com o seu entendimento a respeito dos ensinamentos de Jesus, pregados e vivenciados por ele ao lado de Paulo de Tarso.

REFERÊNCIAS:
¹ MCKENZIE, John L. S. J. Dicionário bíblico. Trad. Álvaro Cunha; et al. 1. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1984. it. 6. p. 557.
² PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do evangelho. v. 1. Rio de Janeiro: Editora Sabedoria, 1964. Os textos , it. Os Evangelistas: LUCAS, p. 7 de 149.
³ BÍBLIA SAGRADA. Traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe Matos Soares. 6. ed. São Paulo: Edições Paulinas. O Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas. p. 1.231.
⁴ MCKENZIE, John L. S. J. Dicionário bíblico. Trad. Álvaro Cunha; et al. 1. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1984. it. 6. p. 558.
⁵ XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 11. imp. Brasília: FEB, 2016. Pt. 2, cap. 7 – As Epístolas, p. 384 e 385.
⁶ ______. ______. p. 390.
⁷ ______. ______. cap. 8 – O martírio em Jerusalém, p. 427.
⁸ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2017. q. 314.
⁹ XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 11. imp. Brasília: FEB, 2016. Pt. 2, cap. 6 – Peregrinações e sacrifícios, p. 360.
¹⁰ ______. ______. cap. 4 – Primeiros labores apostólicos, p. 290.