Revista Reformador

Moratória Deus é amor!

Rogério Miguez*
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Resumo

A questão da moratória é explorada neste artigo em suas variadas aplicações, enfatizando a duração, as motivações e de onde procedem as autorizações para a implementação da medida. Para bem caracterizar o processo, vários exemplos foram descritos, facilitando o entendimento da questão. A moratória é instrumento previsto e aplicado pelas misericordiosas Leis Divinas.

Palavras-chave

Moratória; desencarnação; fluido vital; misericórdia divina; profecia; pulmotor.

Todos os espíritas sinceros e habituados à leitura atenta dos postulados divinos, muito bem explicados nas obras que compõem a Doutrina Espírita, concordam, em uníssono, que uma das necessárias virtudes do Criador é, certamente, a incondicional misericórdia pelas criaturas.

Sempre fomos beneficiados pela caridosa mão de Deus, e não se tem notícia de que, em qualquer época, ela tenha sido usada para nos agredir ou punir, não importa qual civilização consideremos, embora outras correntes religiosas as[1]sim ainda entendam: Deus é sinônimo de amor!

Dentro deste entendimento, os mais zelosos e meticulosos estudantes já perceberam situações que se apresentam como aparentemente inevitáveis, particularmente no que tange ao fenômeno da morte, mas que, ao final, exibem um desfecho surpreendente, totalmente contrário ao esperado, sem explicação plausível pela óptica materialista.

Uma das razões que explicam estes inesperados momentos fica por conta da assim chamada moratória: uma Lei de Deus. Contudo, essa não é a moratória aplicada a questões financeiras, muito comum em um mundo que mal divide os seus recursos, concentrando- -os freneticamente nas mãos de poucos, gerando uma multidão de endividados e, infelizmente, desesperados.

Esta modalidade da moratória é medida eficaz traduzindo o amor do Criador por todos os indivíduos.

Os mais versados no entendimento dos mecanismos que regem a vida possuem uma compreensão geral de que a moratória acontece quando o corpo de um encarnado está muito doente e enfraquecido e, nesta hora, poderia acontecer a intervenção por parte de Espíritos esclarecidos e capazes, que, sob permissão de forças superiores, promovem não só a melhora do doente, como também prolongam as suas expectativas de vida, às vezes por anos, ou até mesmo décadas.

Isso é compreensível; basta consultar a série de obras ditadas pelo Espírito André Luiz ao médium mineiro Chico Xavier sobre “A Vida no Plano Espiritual” para colher alguns exemplos sobre a aplicação deste mecanismo divino:

• Em Missionários da luz, há o relato da moratória aplicada a Antônio, prestes a desencarnar. Ele precisava deixar alguns problemas sérios devidamente solucionados. O instrutor de André Luiz, Alexandre, com apoio de Afonso – encarnado em estado de emancipação –, magnetizaram o paciente, transferindo vigorosos fluidos de Afonso para o organismo do beneficiado, já moribundo. A medida previa um adiamento de cento e cinquenta dias e Antônio deveria ser instruído, por intuição, de que não poderia manter excessivas preocupações durante o período, sob pena de antecipar a desencarnação.¹

• O livro Obreiros da vida eterna descreve o caso de Albina, que se encontrava doente e recebe as bênçãos da moratória. A desencarnação fora adiada sine die (sem fixar uma data futura), contudo, a dilatação do prazo era reduzida. Destinava-se a remediar situação de modo a trazer benefícios para muita gente. Praticamente, foi aplicada a moratória por meio de complexa operação magnética. Foi através da oração de um menino encarnado, missionário do Evangelho, intimamente ligado a Albina, que a moratória pôde ser concedida.²

• No livro Sexo e destino pode-se encontrar outro caso, agora de Marita. Neste exemplo, houve a aplicação da moratória para que ela sobrevivesse de quinze a vinte dias no máximo e a providência foi autorizada por supervisores espirituais. Houve um socorro magnético de profundidade que a situação exigia.³

• E, no derradeiro livro da série – E a vida continua… –, temos o caso de Amâncio, que receberia a moratória por quinze a vinte anos em função de ter e estar ajudando muitas famílias durante mais de vinte anos. A medida seria aprovada por poderes superiores.⁴

Nestes quatro casos, não houve uma descrição mais detalhada da atividade em si, entretanto, há pelo menos mais um caso na literatura espírita que é rico em interessantes detalhes técnicos, ajudando-nos a dimensionar a complexidade da tarefa:

• Este episódio se deu com Argos. O paciente era tuberculoso e estava sendo tratado em um Asilo apropriado para estes doentes localizado em Campos do Jordão, SP. Espírita, Argos havia matado um desafeto, em existência passada, com um golpe de florete na região pulmonar. O crime ficou impune, contudo, ninguém escapa das leis eternas e o criminoso desenvolveu esta doença, em nova reencarnação, exatamente na região corporal – pulmão – que outrora sua arma atingira: o peito do desafeto. Era uma típica expiação. Para se ter uma ideia das muitas vertentes nestas situações, a moratória, desta feita, foi concedida a pedido do próprio interessado, fundamentando-se em futuras promessas de reajustes. Evidentemente, Argos foi advertido sobre suas responsabilidades e condutas ao receber tal benefício. O processo, propriamente dito, se caracteriza por misturar o fluido vital do paciente a uma quantidade previamente determinada de fluido vital de outro encarnado, por meio de cateteres fixados aos braços dos envolvidos em emancipação, ou seja, no Plano Espiritual. À mistura, se adiciona energia superior e fluido vital de vegetais terrestres (clorofila). Tudo é mesclado em um equipa[1]mento chamado Pulmotor e injetado no doente. A expectativa foi de uma moratória de cinco anos, com um detalhe interessante: caso Argos se comportasse a contento, a partir de então, outra moratória poderia ser aplicada.⁵

Entretanto há outra vertente da moratória também muito bem caracterizada. É aquela aplicada a um encarnado que atingiu o término da sua programação de vida, previamente acordado antes da reencarnação. Ou seja, o indivíduo alcançou o momento de expectativa de final de vida, e, necessariamente, pode não se encontrar doente e estar, inclusive, muito bem de saúde, contudo, deve deixar o mundo dos chamados vivos para se reintegrar ao mundo verdadeiro, por razões particulares de cada caso analisado.

Enquadra-se nesta outra categoria a moratória recebida por José Raul Teixeira, resumida assim:

O médium niteroiense se deslocava por viatura entre as cidades de Mirassol do Oeste e Cáceres, quando ele mesmo notou um veículo em alta velocidade, vindo em direção oposta, em desalinho com as faixas da estrada. Advertiu o motorista e este diminui a velocidade do carro, desviando-se, gradativamente, para o acostamento. Subitamente, o veículo que vinha em sentido contrário perde totalmente o controle – seu condutor estava sob efeito de alcoólicos –, atingindo em cheio a lateral traseira da condução que transportava o médium. O passageiro que ocupava a posição do impacto desencarnou na hora.

Ocorre que o médium fluminense, minutos antes do início da viagem, escolheu exatamente aquele lugar para se acomodar, entretanto, foi chamado às pressas para proceder com as últimas despedidas, saindo do veículo e ocupando, ao voltar, nova posição, no lado oposto do banco traseiro, ou seja, escapou da morte, que havia sido determinada pela Lei de Causa e Efeito, antes de ele reencarnar. Conclui-se que o amigo do Raul que desencarnou, presidente da Casa para onde se dirigia o médium, não podia receber a moratória.

A confirmação da concessão da moratória viera da visão de sua mãe desencarnada, aparecendo no local do acidente, e do médium baiano Divaldo Franco, confirmando tanto o recebimento da graça, quanto a intercessão da genitora de Raul para que o médium fluminense não desencarnasse naquele dia. Como este incidente ocorreu em abril de 1986 e José Raul Teixeira ainda se encontra encarnado, a sua moratória já se estende por trinta e sete anos.⁶

Como se denota, há pelo menos duas situações principais em que a moratória pode acontecer: mérito ou necessidade; tudo vai depender da particular missão do interessado e das repercussões que a sua morte poderia provocar em outros familiares ou mesmo naqueles que estão ligados ao envolvido na aplicação da dádiva.

Às vezes, é o merecimento dos outros que provoca o fenômeno, outras vezes são promessas e compromissos firmados pelos que recebem este ato de misericórdia divina.

É de notar-se que o próprio Codificador previu a possibilidade de transferirmos flui[1]do vital para um moribundo, prolongando-lhe assim a vida:

O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro. Aquele que o tiver em maior quantidade pode dá-lo a quem o tenha de menos e em certos casos prolongar a vida prestes a extinguir-se.⁷

Imaginemos o que possa ocorrer nestes casos. O duplo etérico⁸ do enfermo está ficando sem fluido vital, devido a uma possível doença e, às vezes, à própria idade avançada do paciente, ou ambas. Havendo uma reposição de fluidos vitais por parte de um passista, em quantidade que não comprometa o doador, o doente pode ser reanimado com esta carga extra de fluidos.

Cremos, contudo, considerando a descrição técnica do processo em Painéis da obsessão, que contou com o envolvimento de vários Espíritos, um deles encarnado, que se um passista, talvez, médium curador, obtiver este resultado previsto pelo Codificador, pois Allan Kardec disse em certos casos, não poderíamos afirmar que houve uma moratória. Existiu a transferência de fluidos que podem reanimar momentaneamente o doente, mas por pouco tempo, a não ser que o passista regularmente transmita seus fluidos ao moribundo. Ainda assim, deve haver um limite para a absorção dos fluidos externos que lhe estão sendo comunicados, pois o seu corpo físico já está gasto.

Não há, em princípio, nestes casos, aparentemente, nenhuma orientação, justificativa ou advertência diretas ao interessado, sobre seu comportamento futuro, como ocorreu nos episódios anteriormente citados. Além disso, o passista, em princípio, não possui a condição de buscar energias superiores, e muito menos fluidos da Natureza, pois não saberia quais deveria coletar, nem de que forma. Sem este material fluídico, a renovação das forças do doente seria temporária, limitada e, em princípio, não alcançaria a duração de anos ou mesmo décadas.

Fazemos esta ressalva, para que nenhum passista se imagine possuidor deste poder, saindo, de agora em diante, à busca de doentes para aplicar uma possível moratória em nome de Deus. Além disso, o processo se lastreia sempre em decisão de ordem superior, requerendo um aparato técnico que não se encontra facilmente em um Centro Espírita. E mais: todos os casos descritos, no que tange às questões de saúde, aconteceram no Plano Espiritual, usando os fluidos de outro encarnado em estado de emancipação.

Além destas possibilidades mencionadas, há outra variante do conceito da moratória que ocorre quando o Espírito possui largo passado caracterizado por variados delitos; em consequência, o resgate destas dívidas solicita esforço significativo. Como, normalmente, o devedor não consegue lidar com a multidão de seus pecados de uma só vez, o volume de expiações é dosado em cada existência futura, de modo que o devedor não sucumba sistematicamente diante das muitas e variadas expiações que precisa enfrentar. Esta modalidade talvez seja a mais comum das moratórias. É mais uma demonstração da Misericórdia de Deus não exigindo, jamais, o pagamento imediato das dívidas. É tudo muito bem avaliado, considerando a capacidade do devedor em fazer face aos seus muitos débitos.

Moratórias! Quem não as deseja?

Para fazer jus a uma graça como esta, tornemo-nos úteis ao próximo e a nós mesmos; e, quem sabe? quando chegar a hora de o barqueiro nos levar para o outro lado do rio Styx,⁹ sejamos merecedores de por aqui permanecer um pouco mais de tempo, aproveitando as oportunidades de evolução que Deus nos concede, hoje e sempre.

REFERÊNCIAS:
¹ XAVIER, Francisco Cândido. Missionarios da luz. Pelo Espírito André Luiz. 45. ed. 13. imp. Brasília, DF: FEB, 2020. cap. 7 – Socorro espiritual.
² XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da vida eterna. Pelo Espírito André Luiz. 35. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2021. cap. 17 – Rogativa singular.
³ XAVIER, Francisco Xavier; VIEIRA, Waldo. Sexo e destino. Pelo Espírito André Luiz. 34. ed. 10. imp. Brasília: FEB, 2021. 2a pt., cap. 1.
⁴ XAVIER, Francisco Cândido. E a vida continua…. Pelo Espírito André Luiz. 35. ed. 13. imp. Brasília: FEB, 2021. cap. 22 – Bases de novo porvir.
⁵ FRANCO, Pereira Divaldo. Painéis da obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. 9. ed. Salvador, BA: LEAL. cap. 5 – Técnica de sobrevida.
⁶ Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ujGQagUB00A Acesso em: 10 mar. 2023.
⁷ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 12. imp. Brasília, DF: FEB, 2022. Comentário de Kardec à q. 70.
⁸ XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2021. cap. 11 – Desdobramento em serviço.
⁹ Na mitologia grega, Caronte, o barqueiro de Hades, era responsável por levar ao preço de uma moeda as almas dos recém–mortos para o outro lado dos rios Estige e Aqueronte, divisores entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.