O despertar da consciência espírita
Sidney Fernandes*
[email protected]
Resumo
A vinda de Jesus à Terra representou a manifestação mais elevada do amor e da sabedoria divina para a Humanidade. No entanto, ao longo dos séculos, esses ensinamentos foram deturpados, esquecidos ou limitados por dogmas e interpretações humanas. Foi nesse contexto que surgiu o Espiritismo, codificado por Allan Kardec, trazendo a revitalização dos princípios cristãos em sua pureza original. Aparentemente, ainda não incorporamos plenamente esses valores, pois continuamos retornando ao Plano Espiritual sem o devido aproveitamento desses impulsos evolutivos. Este artigo propõe uma reflexão sobre os desafios da evolução espiritual, a coerência entre teoria e prática e os meios de mensurar o progresso do Espírito, à luz do Espiritismo e do Evangelho de Jesus.
Palavras-chave
Despertamento; reforma íntima; mensuração de valores; evolução.
•
Reflexão inicial
A maior dificuldade para o progresso do Espírito, seja moral, espiritual ou filosófico, está na conscientização de sua verdadeira finalidade. Qual o propósito da vida? Por que fomos criados? Como se deu nossa evolução, da ameba ao pensamento contínuo? Por que estamos aqui e para onde vamos? A resposta essencial a essas questões encontra-se no próprio pensamento.
Enquanto algumas pessoas permanecem indiferentes, imersas nos prazeres e bens materiais, outras, sem mesmo perceber, distanciam-se de reflexões mais profundas. No entanto, cresce o número daqueles que experimentam inquietações filosóficas, questionando-se sobre a essência da existência. Essas crises, embora desafiadoras, são benéficas, pois impulsionam o despertar da consciência e a compreensão de que estamos aqui para evoluir.
Uma vez que essa conscientização ocorre – auxiliada, em grande parte, pelas religiões, especialmente pelo Espiritismo –, surge a seguinte questão: como se manter no caminho certo? Há uma maneira de mensurar nosso progresso espiritual? Espíritos que já passaram por esta vida podem nos advertir sobre os erros que estamos cometendo?
Após a conscientização, qual deve ser o próximo passo? Seria identificar nossas fraquezas espirituais? E, a partir daí, como proceder? Além disso, como evitar o regresso ao Plano Espiritual com os mesmos erros de encarnações passadas? Séculos de idas e vindas, reencarnações e desencarnações parecem evidenciar padrões reincidentes de falhas. Como romper esse ciclo?
Por fim, qual mecanismo poderia ser criado para que, de maneira definitiva, aprendamos a valorizar o corpo físico, a família e a própria encarnação? Como podemos corresponder aos desígnios divinos, aproveitando melhor as oportunidades de crescimento que nos são concedidas? De que maneira podemos garantir que, ao retornarmos à verdadeira vida, estaremos em condições melhores do que as que tínhamos ao chegar aqui?
O despertar da consciência espírita
A jornada espiritual não é linear. Oscilamos entre momentos de lucidez e estagnação, entre o desejo sincero de evoluir e os desafios de vencer nossas próprias imperfeições. Paulo de Tarso, em sua Epístola aos romanos (7:19), sintetizou esse conflito interno: Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.
Essa reflexão nos leva a questionar: como nos manter no caminho certo?
Como evitar repetir os mesmos erros em sucessivas encarnações?
Richard Simonetti, em sua análise da obra Voltei, resgata a experiência de Frederico Figner, espírita convicto que, ao retornar à Vida Espiritual, percebeu que, embora houvesse disseminado a Doutrina e praticado a caridade, ainda lhe faltava a vivência plena do Evangelho.
Essa situação nos alerta para um perigo comum: confundir conhecimento com progresso real. A teoria é importante, mas sem a prática torna-se vazia. O caso de Figner é um alerta de que não basta apenas frequentar grupos espirituais e falar sobre amor e caridade. É necessário transformar esses valores em ações autênticas, promovendo uma mudança interior verdadeira.
Medindo o progresso espiritual
Existe um meio de mensurar nosso progresso?
A evolução do Espírito não se mede pelo que sabemos nem pelo tanto que estudamos, mas pela nossa capacidade de transformar pensamentos e ações. Em outras palavras, pelo que somos e praticamos.
Podemos avaliar o quanto progredimos ao analisar questões essenciais:
• Tenho reagido com mais paciência e compreensão diante das dificuldades?
• Ostento menos orgulho e vaidade do que antes?
• Meus pensamentos estão mais elevados e me nos focados em interesses materiais?
• Minha relação com o próximo tornou-se mais fraterna?
• Sinto mais paz interior, mesmo diante de desafios?
O papel dos Espíritos na jornada evolutiva
Os Espíritos podem nos alertar sobre nossos erros?
Os benfeitores espirituais nos auxiliam constantemente. Muitas vezes, os mentores nos inspiram através da intuição ou do pensamento repentino que nos alerta sobre uma atitude equivocada. Em outras ocasiões, os sonhos podem trazer mensagens ou avisos importantes. Há também casos de comunicações mediúnicas diretas, especialmente quando há permissão espiritual para tal.
Entretanto, a maior parte das advertências ocorre por meio das experiências da vida. As dificuldades e desafios que enfrentamos são, em muitos casos, alertas sobre caminhos errôneos que insistimos em trilhar.
Além dos guias espirituais que nos assistem, a sintonia que mantemos com as vibrações elevadas ou inferiores influencia diretamente nossas decisões. A prece e o Evangelho no Lar são poderosas ferramentas de sustentação vibratória, ajudando-nos a manter a conexão com os ensinamentos superiores e a evitar interferências espirituais nocivas.
O caminho da reforma íntima
Após despertar para a necessidade do progresso, qual o passo seguinte?
A verdadeira evolução passa por quatro etapas fundamentais:
• Identificar os pontos fracos: orgulho, vaidade, egoísmo, impaciência, dificuldade para perdoar;
• Trabalhar ativamente na transformação: criar hábitos saudáveis e vigiar pensamentos, promovendo a autoeducação;
• Persistência e resiliência: cair e levantar faz parte do caminho. O erro deve ser uma lição, e não um motivo de desânimo;
• Compromisso com a prática do bem: a caridade verdadeira deve partir do coração e não ser apenas um exercício externo.
Frederico Figner nos deixou um precioso alerta:
Ajudem a si mesmos no cumprimento de suas obrigações. Façam o possível em favor da própria renovação [texto sintetizado pelo articulista].
Sem esse compromisso, continuaremos presos ao ciclo de idas e vindas reencarnatórias, sem grande progresso.
A valorização da encarnação
Como retornar ao Plano Espiritual sem os mesmos erros do passado?
A chave está em transformar conhecimento em prática. Muitas vezes, passamos encarnações acumulando informações espirituais sem aplicá-las verdadeiramente. Para quebrar esse ciclo, é essencial:
• Viver conscientemente: ter a Espiritualidade como guia na vida diária, e não apenas em momentos específicos;
• Valorizar a encarnação: entender que cada dia é uma oportunidade de aprendizado e aprimoramento;
• Comprometer-se com a reforma íntima: pequenos avanços diários resultam em grandes transformações ao longo do tempo.
Que mecanismo poderia ser criado para valorizarmos mais a encarnação e cumprir nosso propósito?
O próprio Espiritismo já nos oferece mecanismos poderosos para isso:
• O estudo da Lei de Causa e Efeito: quando compreendemos que cada ação gera consequências inevitáveis, passamos a agir com mais responsabilidade;
• A educação espiritual desde a infância: ensinar desde cedo o valor da vida e a importância da ética e da moral é fundamental para um futuro mais consciente;
• A prática do Evangelho no Lar: esse hábito fortalece os laços familiares e nos mantém alinhados com os valores espirituais;
• A integração da vida material e espiritual: não devemos ver a Espiritualidade como algo separado do cotidiano. Nosso trabalho, família e lazer também fazem parte do nosso crescimento espiritual.
Conclusão
Ainda estamos mais próximos da animalidade do que da angelitude, mas cada passo em direção ao bem é um avanço definitivo. Não conseguiremos alcançar a perfeição em uma única encarnação, mas poderemos evitar a estagnação e trabalhar com seriedade para que cada retorno à Vida Espiritual nos encontre melhores do que antes. A melhor bússola para essa jornada continua sendo o Evangelho de Jesus, pois ele nos ensina o caminho da ver dadeira evolução: o amor in condicional. O Espiritismo nos oferece as ferramentas, mas a construção do edifício interior depende de nós. Como bem sintetizou André Luiz, em sua prece registrada por Frederico Figner no livro Voltei:
Senhor Jesus!
Dá-nos o poder de operar a própria conversão,
Para que o teu Reino de Amor seja irradiado
Do centro de nós mesmos!…
Contigo em nós,
Converteremos
A treva em claridade,
A dor em alegria,
O ódio em amor,
A descrença em fé viva,
A dúvida em certeza,
A maldade em bondade,
A ignorância em compreensão e sabedoria,
A dureza em ternura,
A fraqueza em força,
O egoísmo em cântico fraterno,
O orgulho em humildade,
O torvo mal em infinito bem!
Sabemos, Senhor,
Que de nós mesmos
Somente possuímos a inferioridade
De que devemos nos desvencilhar…
Mas, unidos a Ti,
Somos galhos frutíferos
Na árvore dos séculos
Que as tempestades da experiência jamais deceparão!…
Assim, pois, Mestre amoroso,
Digna-te amparar-nos
A fim de que nos elevemos
Ao encontro de tuas mãos sábias e compassivas,
Que nos erguerão da inutilidade
Para o serviço da Cooperação divina,
Agora e para sempre. Assim seja!…¹
*N.A.: Orador e escritor espírita, diretor e colaborador do Centro Espírita Amor e Caridade – Bauru (SP).
REFERÊNCIA:
¹ JACOB, Irmão (Espírito). Voltei. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 28. ed. 10. imp. Brasília, DF: FEB, 2016. cap. 20 – Retorno à tarefa, it. 20.3 Assembleia de fraternidade.