Revista Reformador

Desastres coletivos e individuais

Probabilidade ou programação?

Leonardo Marmo Moreira*
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Resumo

A ocorrência de grandes catástrofes coletivas e individuais costuma causar vários questionamentos em relação ao funcionamento da Lei de Causa e Efeito, abrangendo os compromissos espirituais entre diferentes reencarnações e o planejamento reencarnatório da existência atual. Tais eventos, sobretudo quando provocam grande repercussão na mídia, costumam induzir significativa comoção nas massas, causando muitas indagações em meios espiritualistas, e, inclusive, no ambiente espírita propriamente dito. Para a tentativa de explicação racional de tais tragédias, duas linhas de pensamento são, usualmente, empregadas. Nesse artigo são analisadas, de maneira simplificada, as duas linhas de raciocínio.

Palavras-chaves

Reencarnação; provas e expiações; expiações coletivas; programação reencarnatória; Lei de Causa e Efeito.

Introdução

Sempre que ocorre uma grande tragédia coletiva, provocada por pessoa(s) ou por evento típico do ambiente natural, surgem, em meios espiritualistas, as seguintes questões: Esse processo estava previsto? Se sim, suas vítimas também foram igualmente predeterminadas?

Buscando responder a essas complexas questões, identificamos duas linhas de pensamento predominantes em meios espiritualistas:

1) “Probabilidade”;

2) Programação reencarnatória. Analisemos, portanto, em que consiste cada uma dessas tentativas de explicação dos mecanismos da Lei de Causa e Efeito.

“Probabilidade”

A primeira explicação, referida como “Probabilidade”, parece mais compreensível e mais geral, mas, por outro lado, algumas vezes soa insuficiente para explicar uma série de ocorrências, sobretudo as mais calamitosas. De fato, quando reencarnamos, submetemo-nos a diversos riscos e situações que são inerentes ao processo reencarnatório, independentemente de nossas condições espirituais. Seria o caso de se lembrar de nosso Mestre Jesus de Nazaré: “Para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” (Mateus, 5:45); grifo nosso (BÍBLIA SAGRADA, 2012).

Assim sendo, quando um indivíduo reencarna, está sujeito a uma série de possíveis acontecimentos e processos inerentes a essa nova experiência física, os quais vão depender de sua evolução espiritual previamente conquistada, seu novo corpo, circunstâncias etárias, pais, família, clima, vegetação, ambiente intelecto-moral familiar, ambiente intelecto-moral geral, condições socioeconômicas, oportunidades educacionais, educação espiritual, entre vários outros tópicos.

Como o renascimento físico é programado com cuidado pelos mentores espirituais, todos esses itens são discutidos, muitas vezes exaustivamente, pelos responsáveis pela nova iniciativa na crosta terrestre. Logo, quando determinadas situações acontecem durante a vida do Espírito reencarnado, em várias ocasiões, elas já estão dentro do contexto de previsões de possíveis ocorrências para aquela determinada existência. Ademais, esse planejamento é baseado nas condições que o Espírito reencarnado oferece, o que está relacionado ao que ele fez nas encarnações anteriores e no período entre reencarnações, estando, portanto, direta[1]mente relacionado à Lei de Causa e Efeito e à Lei do Progresso.

André Luiz explica, em Missionários da luz (XAVIER, 2020b) e Evolução em dois mundos (XAVIER; VIEIRA, 2020), que há reencarnações que são meros esforços evolutivos, em iniciativas mais básicas, enquanto outras reencarnações já constituem projetos muito mais elaborados, contemplando programações de alta complexidade e envolvendo diferentes áreas de atuação humana. No primeiro grupo, a participação do candidato à reencarnação, na elaboração do novo projeto de vida física, é de pouca monta. Já no segundo grupo, a participação do candidato é muito efetiva, sendo cada vez mais significativa, quanto mais evoluído e lúcido espiritualmente for o reencarnado.

Poderíamos supor que o primeiro grupo (aquele que faz mero esforço evolutivo, em tentativas primárias) estaria mais susceptível a sofrer “acidentes de percurso”, ou seja, intercorrências naturais em função de imprevistas ações baseadas no livre-arbítrio humano (do próprio reencarnado ou de outrem) ou mesmo devido ao próprio contexto no qual a reencarnação foi efetuada. O segundo grupo (Espíritos mais evoluídos, responsáveis e com projetos reencarnatórios mais ambiciosos) seria, em princípio, menos sujeito a variações tão drásticas, pois as tarefas seriam mais minuciosamente planejadas, inclusive contemplando a participação de diversos colaboradores, o que é inevitável em projetos reencarnatórios mais impactantes coletivamente. Ainda assim, pela própria amplitude de tarefas, esses Espíritos mais preparados e evoluídos acabam também submetidos a circunstanciais alterações na caminhada existencial.

Para entendermos esse esforço preparatório, é interessante lembrar a questão 243 e, principalmente, a questão 243-a, de O livro dos espíritos, que enfatizam que mesmo os Espíritos Superiores não conhecem totalmente o futuro (KARDEC, 2022). Ora, se mesmo os Espíritos muito elevados não têm o conhecimento total do futuro, isso implica que os projetos de novas vidas físicas precisam ser detalhadamente planejados visando a uma otimização de suas chances de sucesso. Vejamos as respectivas questões de O livro dos espíritos:

243. Os Espíritos conhecem o futuro?

“Isto também depende da perfeição deles. Muitas vezes, apenas o entreveem, mas nem sempre lhes é permitido revelá-lo. Quando o veem, o futuro lhes parece o presente. O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se aproxima de Deus. Após a morte, a alma vê e abarca num piscar de olhos suas migrações passadas, mas não pode ver o que Deus lhe reserva. Para isso, é preciso que esteja completamente integrada a Ele, depois de muitas existências.” 243-a. Os Espíritos que alcançaram a perfeição absoluta têm conhecimento completo do futuro? “Completo não é bem o termo, pois só Deus é soberano Senhor e ninguém o pode igualar.”

Programação reencarnatória

A explicação chamada de “programação reencarnatória” auxilia o entendimento de uma série de catástrofes que afetam grupos de indivíduos e constantemente choca toda a sociedade.

Um bom exemplo para servir de material para nossas reflexões advém da obra de André Luiz, Ação e reação (XAVIER, 2020c). Uma interessante discussão é desenvolvida no capítulo 18, intitulado Resgates coletivos, a qual gira em torno de um desastre aéreo. Em primeiro lugar, ao ficarem sabendo do acidente, Hilário e André Luiz solicitam a autorização de Druso para visitarem o local junto dos socorristas da Instituição “Mansão Paz”. Curiosamente, o mentor espiritual não permitiu que André e Hilário visitassem o local, justamente por saber que André estava coletando informações para escrever o referido livro, o qual serviria de material didático para todos nós, na condição de Espíritos encarnados. Portanto André aborda a questão, mas com limitações em relação ao nível de detalhamento que ele gostaria de fornecer. Essa restrição, para aquele momento histórico em que o livro era trazido a lume, permite inferir o senso de gradação dos mentores espirituais.

Os mentores espirituais tendem a fornecer novos dados e reflexões educativas, de forma lenta e gradual, a partir de uma assimilação prévia de subsídios anteriormente disponibilizados. Seria possível conjecturar que os orientadores da obra de André Luiz consideraram que um aprofundamento mais avançado naquele momento não seria apropriado para os nossos estudos, admitindo, possivelmente, o nível de entendimento médio da questão por parte do público que leria o livro.

É explicado que o acidente pode ter sido o mesmo para todos os atingidos (no caso, 14 indivíduos), mas o processo desencarnatório era bem característico para cada um deles em particular. Sendo a morte um processo biológico, seria bem similar para todos aqueles que estavam vinculados à mesma catástrofe, mas a desencarnação e a adaptação ao Mundo Espiritual constituiriam processos espirituais bem pessoais.

Todos estariam associados a processos pretéritos necessitados de ajustamento, mas cada um, em sua própria caminhada, estaria em um determinado nível de evolução espiritual. Realmente, no desastre narrado por André, o período de perturbação pela morte/desencarnação foi muito variado para os 14 Espíritos desencarnados. Seis deles foram socorridos de forma praticamente instantânea, mas outros demorariam muito tempo para serem retirados do local do acidente e/ou das imediações de seus respectivos cadáveres.

No mesmo capítulo, Druso conta a experiência de Ascânio e Lucas, os quais, almejando promoções espirituais sem serem atendidos, após uma certa insistência, foram submetidos a processos indutores de lembranças de encarnações passadas. Nessas retrocognições, identificaram um crime que cometeram em um contexto de guerra, no século XV, ao tempo de Joana d’Arc, na França. Assim, diante dessa nova informação, Ascânio e Lucas op[1]taram pela reencarnação e, como detinham grande crédito espiritual, puderam escolher o gênero de provas para avançar espiritualmente e, ao mesmo tempo, “quitar” aquele compromisso. Decidiram atuar na aeronáutica, área na qual dedicariam suas vidas, estando sujeitos à ocorrência de morte violenta, o que, de fato, acabou acontecendo.

Um relevante adendo

Na década de 1990, Divaldo Franco teve oportunidade de comentar, em evento realizado na creche “Amélia Rodrigues”, em Santo André (SP), sobre o tema “mortes coletivas”. O confrade Miguel de Jesus Sardano, lendo perguntas da plateia e fornecendo igualmente a sua contribuição à questão, interrogou Divaldo Franco sobre erros médicos em cirurgias e sobre motoristas de ônibus que eventualmente cochilassem, causando graves acidentes com elevado número de vítimas. O nobre expositor baiano respondeu que “nada justifica a negligência” e que, apesar de tais acidentes, em princípio, não estarem especificamente previstos nos respectivos planejamentos reencarnatórios, a Providência Divina os aproveitava evolutivamente e uma espécie de “quitação” ocorreria em relação a eventuais compromissos do passado.

Novamente André Luiz

Há um interessante caso de André Luiz, registrado na obra Os mensageiros (XAVIER, 2020a), que permite enriquecer um pouco mais essa discussão. No capítulo 41 – Entre árvores, é narrado um estranho acidente. Aniceto, André Luiz e Vicente descansavam em uma determinada área rural, quando algo inusitado aconteceu. Um burro teria dado um forte coice em seu proprietário, machucando-o gravemente. O homem estava estendido no chão sobre uma poça de sangue. Curiosamente, uma espécie de mentor espiritual regional chamou a atenção de um trabalhador espiritual responsável pela sub-região associada ao local do acidente e ao caminho pelo qual o homem e o animal transitavam. O rapaz, ao ser questionado pelo instrutor espiritual, respondeu que tinha feito todo o possível para evitar aquela triste ocorrência, mas que o trabalhador rural sempre espancava o animal, apesar do burro ajudá-lo a conquistar o sustento material pessoal e de toda a sua família. Há vários dias que ele sempre tentava acalmar o quadrúpede, mas a ação do camponês estava sendo tão agressiva e irresponsável, que o muar, nervoso, acabou reagindo violentamente. Por fim, é explica[1]do que o homem ficaria de cama por muito tempo, o que dificultaria, ainda mais, a conquista do sustento material de sua pobre família, mas que tais inconveniências poderiam provocar um amadurecimento espiritual por parte daquele companheiro.

Fica evidente que não havia qualquer planejamento associado ao infeliz incidente. Pelo contrário, a atitude negativa do trabalhador rural gerou um problema que, a princípio, ele não precisaria enfrentar. Nem ele, e muito menos seus familiares, os quais teriam que sofrer dificuldades adicionais em suas lutas pela conquista do sustento material. Por outro lado, essa dura lição poderia gerar uma necessária reflexão por parte daquele irmão, o que, indiretamente, a médio e longo prazos, poderia ser útil para o seu crescimento espiritual. Por consequência, o amadurecimento espiritual desse irmão tenderia a favorecer a sua família futuramente.

Um detalhe interessante nesse relato do segundo livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual” é concernente à proteção espiritual regional, ou seja, à existência de protetores espirituais nas vias de deslocamento humano. Assim sendo, apesar de estarmos sujeitos aos riscos intrínsecos à vida física, tais como intempéries e acidentes automobilísticos, os mentores espirituais, que cuidam dos mais diversos setores de nossa vida na crosta, são comprometidos com ações para minimizar esses riscos e problemas. Caberia a cada um de nós, portanto, uma elevação do nível de pensamentos, sentimentos, objetivos, atitudes e emoções, visando captar, com mais eficiência, tais influências espirituais positivas. Poderíamos lembrar do próprio Mestre Jesus de Nazaré no Jardim das Oliveiras (Mateus, 26:41): “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (BÍBLIA SAGRADA, 2012).

Expiação coletiva versus Expiação individual

É importante deixar claro que se o processo de Causa e Efeito individual é complexo, o processo coletivo tende a ser mais complexo ainda. A começar pela própria reunião, em uma nova reencarnação, de um grupo de Espíritos comprometidos com determinada ocorrência perpetrada em encarnação pregressa. Vale adir que cada Espírito apresenta seus fatores “atenuantes” e “agravantes”, com responsabilidades diversas em relação a determinado episódio ou processo histórico. Ademais, desde o momento em que o grupo assume determinada responsabilidade, a trajetória de cada um dos envolvidos pode ser completamente distinta, o que pode fazer com que alguns se desvinculem do nível vibratório/espiritual grupal e do próprio compromisso espiritual específico, principalmente quando a ocorrência em questão não for recente.

Quanto mais antigo for o compromisso coletivo, mais tempo houve para que os envolvidos, utilizando de seus próprios livres-arbítrios, se desenvolvessem espiritualmente. Por conseguinte, mais diferenciada pode estar a condição espiritual de cada membro em relação a outros componentes do grupo.

Poderíamos lembrar, uma vez mais, de nosso Mestre Jesus, quando Ele afirma: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.” (Mateus, 16:27); grifo nosso (BÍBLIA SAGRADA, 2012). Vale mencionar, igualmente, o próprio Apóstolo Pedro, quando o pescador de Cafarnaum sintetiza o pensamento do Nazareno, afirmando: “Mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobrirá a multidão dos pecados.” (I Pedro, 4:8); grifo nosso (BÍBLIA SAGRADA, 2012).

Um pensamento misto entre probabilidades e programação

Percebe-se, claramente, que o tema ainda requer aprofundamentos, sobretudo no que se refere ao mecanismo pelo qual os processos coletivos acontecem. Aliás, o próprio mentor de André Luiz em Ação e reação (XAVIER, 2020c, cap. 18 – Resgates coletivos) restringiu informações sobre o assunto e o repórter do Mundo Espiritual fez questão de registrar no livro tal limitação. Talvez André tenha comentado a ação de Druso justamente para que soubéssemos que ainda há muito o que estudar sobre esse tópico.

De qualquer maneira, podemos deduzir que as duas linhas de pensamento são bastante úteis, mas ainda precisariam ser aprofundadas, a fim de explicar a totalidade das ocorrências. Acreditamos que as referidas linhas de raciocínio deveriam ser consideradas em conjunto para que possamos ter uma visão mais completa sobre os diversos mecanismos da Lei de Causa e Efeito, os quais, a cada dia, atingem todos os setores da Humanidade, tanto nas grandes catástrofes, como nas pequenas situações que não nos chamam a atenção. De fato, não necessariamente as duas propostas de reflexão poderiam ser consideradas mutuamente excludentes.

Necessitamos, por conseguinte, enriquecer nossa casuística mais solidamente analisada e estudar com maior profundidade doutrinária esse tema, o qual apresenta uma gama de implicações espirituais.