Revista Reformador

Quando chegar o Natal

Patrícia Carvalho Saraiva Mendes*
patrí[email protected]

Resumo

Quando, mais uma vez, os sinais do Natal alcançarem nossos olhos, na Terra, algo sensível já terá, certamente, sobressaltado nosso coração e nossos sentidos, por vezes tão conectados às distrações materiais: terá sido aquela vontade espontânea de abraçar o aparente desconhecido, que passa; ou o ensejo de presentear antigo amigo, que há tempos não vemos; ou, ainda, o desejo inesperado de conversar com aquela criatura que nem o tempo nem a distância conseguem apagar da nossa lembrança. Quando tudo isso nos alcançar, de inopino, saberemos: é, de novo, Natal!…

Palavras-chave

Natal; Jesus; Terra; tempo; calendário; luz; dezembro.

Certamente será, mais uma vez, mesmo assim: num átimo, não mais que num repente, casualmente, nossa agenda de tarefas, sempre tão lotada, ocupada, o mais das vezes assoberbada de quefazeres tantos, vai como que estancar no tempo. Nesse instante, vamos olhar pelas vidraças, e algo encantador mostrar-se-á como que pairando no ar. Nesse surpreendente momento, não saberemos definir bem ao certo do que se trata, de onde a aparente mudança no clima teria promanado, ou exatamente em que preciso instante o sentimento começou a espraiar-se… mas certamente emergirá, do mais profundo do nosso sentir, saudade infinda de quem não vemos há tempos; também o sorriso delinear-se-á em nós mais que espontâneo; e teremos, então, vontade de, simplesmente, ser criaturas melhores, deixando quedarem-se, no passado, as querelas inúteis, que tantas vezes nos apartam das pessoas a quem amamos.

Quando tudo isso acontecer de novo, na nossa vida, e sem quê nem para quê, voltarmos a, ternamente, abraçar-nos… saberemos: sim, é chegado, de novo, o Natal!… No momento em que sentirmos a magia característica da data no ar, suplantando qualquer sentimento menos feliz, certamente não nos importaremos muito com os porquês, haja vista que a vontade será de perceber cada vez mais a sutileza do clima, quais fossem, ele próprio, os flocos de neve que caem alhures, quase nunca se dando a conhecer nas regiões entre os trópicos!

Naqueles especiais instantes, nem mesmo suspeitaremos da origem do presépio que quere[1]remos armar em nossos lares, nem questionaremos se um tal ou qual arbusto que elegeremos por árvore de enfeito será nativo mesmo de nossas plagas, ou se houvera sido simplesmente transplantado de terras longínquas, importado de outras lendas e histórias. Quando dezembro de novo chegar, em nosso calendário juliano, somente teremos ensejo de colocar alguns brilhos nos cômodos de nossos lares, assim como nos pórticos e nas avenidas públicas, como se fosse, esse simples gesto, o contributo mais simples ao luzir natural da efeméride que adentra, de maneira generalizada, a todos os compromissos, a todas as causas, acampa em todas as vidas…

E porque, quando a comemoração de novo chegar, nosso olhar rebrilhará, revelando qual é a verdadeira estrela natalícia, tão linda quão espontânea, porque nossos braços também far-se-ão à feição de manjedoura improvisada, aquecida à base de ternura e afeto, porque nossa presença será o verdadeiro presente, aguardado por muitos, por conta de tudo isso, mais uma vez saberemos: é chegado o Natal, na Terra!…

Quando o Natal chegar, mais uma vez, em nossas vidas, renovada será a oportunidade de rememorarmos a Criança Divinal que nasce e renasce em nós e por nós, todos os anos, e que jamais deixa de fazer ecoar, na acústica de nossas almas, o “vinde a mim”, que não cessa (Mateus, 11:28).

Quando chegar o Natal, em ambos os hemisférios terrenos, em todos os meridianos e latitudes, eis que os sinos repicarão hosanas em honra do Salvador que veio, por amor, até nós. Então, porque o riso tilintará, solto em todas as bocas; as manifestações de carinho serão espontâneas e sinceras, como devem ser; e a alegria brotará mais natural e intensa, já então saberemos: Jesus faz-se presente, em toda criatura terrestre, nos dois planos da vida, e, emocionados com a lembrança vívida do Sublime Amigo, celebramos a paz da concórdia entre as almas; e a bênção de podermos cear juntos, partilhando o pão da vida, que provém das experiências de cada dia, sendo essas, por vezes, amaras, noutras vezes auspiciosas, mas sempre concorrendo para o engrandecimento da criatura humana.

Neste ano, quando o mês de dezembro chegar, desta vez, permitamo-nos deixar o sentimento vero, lídimo, levedar em nós, em lugar de qualquer porção de iguaria que se almeje pôr à mesa; também, em vez do lume de velas sobre castiçais decorativos, aceitemos ser, nós mesmos, os que nos candidatamos a amigos leais do Aniversariante, a pequenina luz que clareie os recônditos mais escuros da Terra: sim, sejamos nós, conquanto a faísca que rebrilhe em nós ainda tremule, ameaçando apagar ante qualquer sopro mais tormentoso, os luzeiros felizes deste Natal.

Quando a celebração da Natividade chegar, arrumemos a mesa bonita, com o mantel de nossa preferência, mas mantenhamos à mão também o pano reconfortante, a socorrer os que tiritam de frio, nas quadras da vida; coloquemos a guirlanda na janela da nossa residência, mas sem olvidar jamais da confecção do pequeno farnel que pode ser a salvação na noite de um pequeno da estrada, porquanto, em assim agindo, é ao Homenageado que fazemos… (Mateus, 25:34 a 46.)

Quando, mais uma vez, for Natal, permitamo-nos escrever o cartão caligrafado aos nossos amores, enviar o presente àqueles por quem bate mais apertado nosso coração, mas também nos lembremos do sobejo de alegria que pode ser levado, partir de nossa caridade inda incipiente, àqueloutros, aos filhos de ninguém, aos invisíveis que jazem na vizinhança, às pessoas sozinhas do mundo. Esses todos também podem ser nossos filhos, adoção amorosa do nosso coração, se assim o permitimos.

Espíritas! Ainda que o nosso seja o lugar último, na festa sagrada que celebra a descida sublime do Salvador à Terra, aceitemos por meta sermos ao menos faíscas de luz, diminutos lampejos, que clareiem a estrada daqueles que ainda não encontraram a Luz verdadeira, que alumia o mundo inteiro, como no-la encontramos: a Luz, de todos os natais, é sempre Jesus.

É Natal! Revivamos a descida celeste do Mestre mais que idolatrado, que assim o fez por nós, rogando que Ele nos ajude a levar a mensagem da celebração em todo o conjunto dos mais doze meses que, em breve, se iniciará. Que seja, a data festiva, auspício abençoado de algo renovado, no imo do nosso ser:

Não permitas que o júbilo do Natal vibre em teu coração, à maneira de uma lâmpada encarcerada…

Toma o facho de luz, que a Mensagem do Céu acende ao redor de teus passos […].¹

Quando mais uma vez chegar o Natal, dobremo-nos, em Espírito, diante do Divino Amigo, para que possamos expressar a Ele, ora em palavras, porque já o devemos ter feito em gestos cotidianos de solidariedade e paz, nosso preito humílimo de amor e gratidão. Então, assim diremos:

Amado Jesus!…

Divino Amigo!

Porque mais uma vez é Natal, na Terra, voltamo-nos à tua presença mais que querida, para agradecer-te a amizade sublime, que vara os milênios e que nos mantém em vida.

Senhor, porque nesta data rememoramos-te o nascimento no estábulo humilde, aproveitamos o ensejo para dizer-te, do recôndito da nossa presença mui apagada, que Tu és, Mestre, o timoneiro divinal a guiar-nos sempre ao porto certo, o qual ainda não merecemos, conquanto tanto tempo já se tenha passado, desde tua descida gloriosa à Terra sofrida.

És Tu, Jesus, o sal da Terra, que nos convida a sermos criaturas melhoradas, no palmilhar da gleba terrena, bem como és igualmente a luz que não nos permite enceguecer ante a nossa própria escuridão.

Agradecemos-te, Senhor, pelos tantos presentes que a tua presença bendita nos traz à alma sobrecarregada, assim como pela tua lembrança, inesquecível a nós outros, que vem a ser divino farol a guiar-nos os passos vacilantes de cada dia, na certeza de que, somente contigo, no concurso dos evos, alcançaremos, mais além, páramos estelares de luz e paz.

Portanto, por tudo e em tudo, agradecemos-te, Aniversariante Idolatrado dos nossos corações!

Porque mais uma vez é Natal, Mestre Querido, ajoelhamo-nos em Espírito, ante a lembrança magnânima do teu nome adorado, para declararmos, de alma e coração:

– Louvado sejas, Senhor Jesus, em todos os natais, por todos os séculos, em todos os séculos!

Amém.

Quando, mais uma vez, chegar o Natal, que haja paz em todos os corações.

Feliz Natal a toda a Terra.

N.A.: Trabalhadora espírita vinculada à Federação Espírita Brasileira – Brasília (DF).
REFERÊNCIA:
¹ XAVIER, Francisco Cândido. Antologia mediúnica do natal. Espíritos diversos. 7. ed. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 74 – Recordação do Natal (Emmanuel).