São Vicente de Paulo Maestro da caridade
Daniel Salomão Silva*
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Resumo
O objetivo deste artigo é analisar com atenção a única mensagem de São Vicente de Paulo em O evangelho segundo o espiritismo, em diálogo com alguns de seus traços biográficos, textos próprios e mediúnicos a ele atribuídos. Como biografia, a obra da historiadora francesa Marie-Joëlle Guillaume é nossa fonte principal. Um dos funda dores da assistência social moderna, exemplo de competência administrativa e vivência cristã, Vicente é, sem dúvida, modelo de sacrifício pelo Evangelho.
Palavras-chave
São Vicente de Paulo; caridade; assistência social.
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São Vicente de Paulo é um dos Espíritos que assinam os Prolegômenos de O livro dos espíritos, texto em que anunciam a aproximação dos “[…] tempos marcados pela Providência […]”, em que a generalização das comunicações mediúnicas vem instruir e esclarecer os homens, “[…] abrindo uma Nova Era para a regeneração da Humanidade”. Ao lado de São João Evangelista, Santo Agostinho e São Luís, está entre os grandes nomes da História do Cristianismo que retornam para estabelecer “[…] as bases do novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade […]”. Junto ao Espírito da Verdade e a outros Espíritos Superiores, compromete-se com Kardec e com os “[…] que servem a Deus com humildade e desinteresse […]”,¹ como agiu em vida. Além disso, Vicente tem sua grandeza moral reconheci da por Kardec e os Espíritos em outros momentos² e aparece em vários trechos da Codificação e da Revista Espírita, ora comunicando-se mediunicamente,³ ora citado favoravelmente.⁴ Interessante ainda é sua assinatura em comunicações apócrifas, cuja autenticidade é questionada pelo próprio Kardec, por contrariarem as qualidades morais de Vicente.⁵
O objetivo deste artigo é analisar com mais atenção sua única mensagem em O evangelho segundo o espiritismo, em diálogo com alguns de seus traços biográficos, textos próprios e mediúnicos a ele atribuídos. Como biografia, a relativamente recente e excelente obra da historiadora francesa Marie-Joëlle Guillaume é nossa fonte principal.⁶ Nesse texto, a autora parte de fontes primárias, mas também das várias biografias anteriores, sempre com olhar crítico e respeitoso.
A belíssima mensagem que destacamos aparece no capítulo XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que dá a vossa mão direita de O evangelho segundo o espiritismo, no tópico “A beneficência”,⁷ ao lado de outras cinco registradas por Kardec. Comecemos por seu primeiro parágrafo:
Sede bons e caridosos, pois essa é a chave dos Céus, chave que tendes em vossas mãos. Toda a eterna felicidade se acha contida neste preceito: Amai-vos uns aos outros. A alma não pode elevar-se às altas regiões espirituais, senão pelo devotamento ao próximo e só encontra consolação e ventura nos arroubos da caridade. Sede bons, amparai os vossos irmãos, deixai de lado a horrenda chaga do egoísmo. Cumprido esse dever, o caminho da vida eterna se vos abrirá. Além disso, qual dentre vós ainda não sentiu o coração pulsar de júbilo, de íntima alegria, à narrativa de um ato de bela dedicação, de uma obra verdadeiramente caridosa? Se buscásseis somente a volúpia que uma boa ação proporciona, permaneceríeis sempre no caminho do progresso espiritual. Não vos faltam os exemplos; rara é apenas a boa-vontade. Vede a multidão de homens de bem, cuja lembrança é guardada pela vossa História.
O convite é claro e bem embasado: a caridade cristã é “caminho da vida eterna”, contém “Toda a eterna felicidade”, faz “o coração pulsar de júbilo”, é vivida por uma “multidão de homens de bem”, que nossa própria história sempre registra com admiração. Em verdade, o prazer ou a “volúpia” oriunda das boas ações deveria ser a única buscada por nós, que queremos progredir espiritualmente. Detalhando mais o assunto:
O Cristo não vos disse tudo o que tem relação com as virtudes da caridade e do amor? Por que deixar de lado os seus divinos ensinamentos? Por que fechar os ouvidos às suas divinas palavras, o coração a todas as suas suaves sentenças? Gostaria que dispensassem mais interesse, mais fé às leituras evangélicas. Desprezam, porém, esse livro, consideram-no repositório de palavras ocas, uma carta fechada; deixam no esquecimento esse código admirável. Vossos males provêm apenas do abandono voluntário a que relegais esse resumo das leis divinas. Lede-lhe as páginas cintilantes do devotamento de Jesus e meditai-as.⁸
Alinhado ao convite que Kardec nos faz tantas vezes, insiste na importância do estudo, como havia feito como encarnado. Dá destaque às “leituras evangélicas”, “esse código admirável”, e, naturalmente, ao livro que as contém, nosso Novo Testamento. Como trabalhamos em artigo anterior,⁹ os textos bíblicos são de grande importância para o espírita, embora sempre lidos de forma crítica. Sua retomada e seu desenvolvimento em obras como O evangelho segundo o espiritismo são demonstração disso. Para Vicente, meditar as palavras e exemplos do Cristo é antídoto contra nossos “males”.
Tendo nascido no fim século XVI, em aldeia francesa próxima à fronteira com a Espanha, até os 15 anos levou uma vida campestre.¹⁰ Todavia, desde cedo demonstrou inteligência fora do comum, o que, junto ao apoio familiar e de outros, permitiu que tivesse uma forte formação teológica.¹¹ Sua produtividade e capacidade administrativa são impressionantes e, em toda a sua biografia, muitos são os registros de cargos, funções e titulações recebidos e desempenhados no âmbito católico, sempre com zelo e comprometimento.
Por tudo isso, a importância que sempre deu à formação intelectual e moral dos religiosos é notável. Para ele, naquela época havia muita ignorância entre as lideranças cristãs, o que tornava urgentes “a instrução e o cuidado com crescimento espiritual dos padres incumbidos de cuidar” da evangelização do “povo dos campos”.¹² Anos de pois dessas reflexões, em 1633, teria a autorização papal para a criação da Congregação da Missão,¹³ uma nova ordem religiosa. Porém, mesmo antes disso, já demonstrava preocupação com a formação dos eclesiásticos, inaugurando retiros para ordenandos. Tendo de lidar com os jovens padres da Congregação que liderava, criou ainda uma associação para prolongar seu fervor e sua formação intelectual, as “Conferências das Terças-feiras”, de onde sairiam muitos bispos e lideranças religiosas.¹⁴
Interessante é seu sermão em 1616 sobre a importância da evangelização “desde a primeira infância”, sempre com o objetivo de “atrair as almas para o céu”.¹⁵ Adequando a linguagem às crianças, não ensinava dos púlpitos, como de praxe, mas no meio delas, utilizando também a música em sua tarefa.¹⁶ Sua preocupação com as crianças deixadas nas ruas e órfãs recém-nascidas também seria marcante. A partir de 1638, várias das instituições que presidia e muitas das autoridades que cativava passaram a direcionar recursos e voluntários à obra das “Crianças Abandonadas”, em Paris, oferecendo a elas abrigo, formação religiosa e intelectual até sua “maioridade”.¹⁷
Também pensando na evangelização dos adultos, defendia que não se deveria sair “de um sermão apenas com uma alegria da inteligência, mas com o desejo incontível de ser perdoado”. Para ajudar os homens a se salvarem, recusava “tudo que tivesse a ver com o ‘tom elevado’, ‘o desejo de parecer culto’, a ‘busca de estima’”, mas buscava a simplicidade da “arte de convencer segundo o Cristo e apóstolos”.¹⁸ Enfim, sempre fez o possível para promoção do estudo cristão, para que a mensagem chegasse a todos os públicos. Entretanto, nunca deixou de lado a prática do que era estudado. Também na mensagem que analisamos, o Espírito Vicente nos conclama à ação:
Homens fortes, armai-vos; homens fracos, fazei da vossa brandura, da vossa fé, as vossas armas. Sede mais persuasivos, tende mais constância na propagação da vossa nova doutrina. Apenas para estimular o vosso zelo e as vossas virtudes é que Deus permite nos manifestemos entre vós. Mas, se cada um o quisesse, bastaria a sua própria vontade e a ajuda de Deus; as manifestações espíritas só se produzem para os que têm os olhos fechados e os corações indóceis.
Sua autoridade derivava do trabalho incessante pelo bem. Sem contestar radicalmente as autoridades legítimas, sem ser um revolucionário, “Vicente encara as situações tal como se apresentam para envolvê-las em amor e tentar servir à paz”.¹⁸ “[…] pela persuasão e pela brandura […]”, como nos recomendam os Espíritos,²⁰ catalisava o apoio dos poderosos em torno da caridade. Reis, rainhas, donos de grandes fortunas, todos cediam à grandeza fraterna de Vicente. Do outro lado, desafortunados e sofredores confiavam e se amparavam em suas instituições. Nessa direção, como fazia em vida, nos convida a “mais constância na propagação da vossa nova doutrina”. Seus sacrifícios são alerta para o pouco que fazemos. As manifestações espíritas, como destaca, são estímulos ao zelo e à virtude, são combate à nossa indocilidade e ao nosso descuido, pois cabe a cada um de nós vivenciar e divulgar as ideias que abraçamos.
Mesmo dentro da Igreja, ao enfrentar ou observar rivalidades, recomendava sempre a postura “mais cristã possível com aqueles que nos criam em baraços”.²¹ Dessa forma, avançava na criação de instituições e programas inovadores em prol da caridade. Sobre isso ainda comenta na mensagem:
Não ouso falar do que fiz, porque os Espíritos também têm o pudor de suas obras; considero, porém, a que iniciei como uma das que mais devem contribuir para o alívio dos vossos semelhantes. Vejo com frequência os Espíritos a pedirem que lhes seja dado, por missão, continuar a minha tarefa. Vejo-os, minhas bondosas e caras irmãs, no seu piedoso e divino ministério; vejo-os praticando a virtude que vos recomendo, com toda a alegria que provém de uma existência de dedicação e sacrifícios. Para mim é uma grande felicidade observar quanto lhes honra o caráter, quão estimada e protegida é a missão que desempenham.
O Espírito São Vicente de Paulo, com todo o cuidado de não se vangloriar, traz agora à tona o exemplo da obra que iniciou. Sem sombra de dúvidas, no âmbito da tradição cristã, a obra vicentina e seus desdobramentos ainda nos dias de hoje são extraordinários. Das muitas instituições que fundou e liderou, a primeira surgiu em 1617, em Châtillon. Essa primeira Confraria da Caridade, que se tornaria modelo para as demais, reuniria, além de padres, principalmente mulheres leigas, que deveriam “assistir espiritual e culturalmente [os doentes pobres”].²²
Notável é a importância das mulheres em todo o trabalho de Vicente, bem como o valor que lhes atribuía ao colocá-las também em posição de liderança.²³ Dentre elas se destacou Louise de Marillac, que se tornaria seu braço direito na administração das confrarias. Com ela, em 1633, fundou a Confraria das Filhas da Caridade, “uma revolução no exercício da caridade por parte das mulheres”, semente das instituições sociais modernas, que mobilizou o espírito público francês à atenção para com os infelizes.²⁴
Do regulamento das Caridades, belo é o trecho que orienta as servidoras quanto ao oferecimento das refeições:
Ao abordá-los, deve saudá-los alegre e carinhosamente, acomodar a prateleira na cama, dispor por cima um guardanapo, uma taça, uma colher e pão, fazer com que os doentes lavem as mãos e dar as Graças, verter a sopa numa tigela e pôr a carne num prato, acomodando tudo isso na referida prateleira, e então convidar o doente caridosamente a comer, pelo amor de Jesus e de sua santa Mãe, sempre com amor, como se cuidasse do próprio filho ou antes […]. Ela lhe dirá então alguma palavrinha do Nosso Senhor, buscando nesse sentimento animá-lo, se estiver muito desanimado, […] lembrando-se de começar sempre por aquele que tiver alguém junto de si e de terminar pelos que estiverem sozinhos, para poder ficar com eles por mais tempo […].²⁵
O cuidado, a compaixão perante o sofrimento alheio, a união do alimento material ao espiritual são marcantes. Como comentamos, com a fundação das Caridades, Vicente entra para a história da França ao constituir a primeira forma organizada de assistência social do país. Se iniciativas caritativas cristãs já existiam na Idade Média, nunca atuaram de forma tão efetiva como as vicentinas.²⁶ Essas confrarias, em verdade, surgiam como prolongamentos de missões, ou seja, de visitas pontuais organizadas às regiões mais pobres com o objetivo de levar o Evangelho e assistência aos doentes.²⁷ Após semanas ou meses de envolvimento com a comunidade local, um grupo de mulheres, em geral também pobres, “maioria camponesas sem instrução”,²⁸ era convidado a constituir a confraria, que perpetuava a ação missionária na região. A criação de instituições permanentes de amparo social é bem coerente com o convite que Vicente nos faz em O livro dos espíritos, a que não deixemos os sofredores “[…] à mercê do acaso e da boa vontade de alguns”.²⁹
A proposta para as Filhas da Caridade era prática e efetiva, contrária a qualquer afastamento do mundo ou clausura. Teriam como “mosteiro apenas as casas dos doentes […], como claustro as ruas da cidade […], como véu a santa modéstia”, com “tanta virtude ou mais do que se fizessem parte de uma ordem religiosa”.³⁰ Com simplicidade e sem qualquer ostentação do bem que faziam, se alinhavam à proposta do Espírito São Vicente em O livro dos espíritos.³¹
O estabelecimento da Caridade de Mâcon em 1622, uma exceção por não se localizar no campo, tem outra particularidade interessante. Direcionada ao grande número de moradores de rua da cidade, é exemplo da genialidade de Vicente, que conseguia unir a preocupação das autoridades com a ordem pública à sua preocupação com os que nada tinham. Mesmo “os ‘pobres envergonhados’ – os que têm pudor de declarar sua condição – serão buscados e ajudados com discrição”.³² Interessante é o destaque que o Espírito Vicente dá a isso em O livro dos espíritos, ao nos lembrar que “[…] O temor de uma humilhação detém o verdadeiro pobre que, muitas vezes, sofre sem se queixar. É a esse que o homem verdadeiramente humano sabe ir procurar, sem ostentação”.³³
Em Mâcon, junto às atividades religiosas, jamais deixadas de lado, distribuía alimentos doados pelos mais abastados, mas de acordo com as reais necessidades: “os válidos e capazes de trabalhar receberão um simples complemento do salário, para não estimular a ociosidade”.³⁴ Seu compromisso em ir além do assistencialismo é evidente. Para ele, “tudo visa favorecer a autorresponsabilidade do pobre, graças às muletas da das pelos que o amam”.³⁵ Coerente com sua postura em vida, em diálogo mediúnico com Kardec registrado na Revista Espírita, o Espírito Vicente defende que “Podeis discernir os que podem trabalhar e, então, a caridade vos obriga a fazer tudo para lhes proporcionar trabalho […]”.³⁶
Vicente também desenvolveu importante trabalho junto aos galerianos, ou seja, aos condenados a uma espécie de escravidão enquanto remadores das galés. Mendigos, soldados desertores, criminosos, dentre outros, viviam e trabalhavam em péssimas condições, muitas vezes até à morte. Sensibilizado com a situação, atuou junto às autoridades francesas pela melhoria material, emocional e espiritual dos presos, que passaram a receber mais recursos, cuidados e visitas. Muitos deles, tocados pelo carinho nunca antes recebido, passaram a declarar arrependimento e se aproximaram da religião.³⁷ Também em O livro dos espíritos, Vicente nos exorta: “[…] Em vez de desprezardes os ignorantes e os viciados, instruí-os e moralizai-os […]”!³⁸
Até sua desencarnação, em 1660, “as obras de Vicente cresceram como árvores de múltiplas ramificações, sem descontinuidade”.³⁹ Mesmo perante a Guerra dos Trinta Anos [1618–1648], em que muitas das instituições que coordenava passaram naturais dificuldades, Vicente não deixou de inovar. Enviou missionários à frente de batalha para dar apoio espiritual aos envolvidos. Estava inaugurado o primeiro serviço de capelania militar na França,⁴⁰ possivelmente no mundo.
O ápice de sua dedicação se deu entre os anos 1633 e 1643, quando já estava à frente da Casa de São Lázaro, em Paris. Instituição já secular, sob o comando de Vicente se tornou também a sede da Congregação da Missão, uma sociedade católica masculina com foco na caridade,⁴¹ que já citamos. Além dela, que se tornaria seu quartel-general, permaneceria coordenando todos seus trabalhos anteriores e ainda abraçaria mais. Já “não é mais o homem-orquestra, mas o chefe da orquestra, o próprio maestro que vemos em ação”.⁴² Em suas sinfonias, valorizava cada músico, pois só de um conjunto harmônico poderia surgir algo realmente perene. Nesse sentido, ainda em sua mensagem, faz o convite:
Homens de bem, de boa e firme vontade, uni-vos para continuar amplamente a obra de propagação da caridade; encontrareis a vossa recompensa no próprio exercício dessa virtude; não há alegria espiritual que ela não proporcione já na vida presente. Sede unidos, amai-vos uns aos outros, segundo os preceitos do Cristo. Assim seja.
O Espírito retoma os benefícios proporcionados pela caridade e encerra com destaque à importância da união em torno de sua bandeira. Também em mensagens registrada em O livro dos médiuns, Vicente conclama os homens à união, a “[…] aproximarem-se de Deus, amarem-se, unirem-se, entenderem-se e seguirem tranquilamente a estrada cujos marcos se veem com os olhos da fé e da consciência”.⁴³ Caminha na mesma direção ao recomendar que “uma indulgência e uma tolerância recíprocas presidam às vossas relações”, “[…] que o facho da amizade santa vos congregue, ilumine e aqueça os corações […]”⁴⁴, e que se mostrem “[…] mais pacientes, mais dignos e mais conciliadores aqueles que se achem penetrados, no mais alto grau, dos sentimentos dos deveres que a urbanidade lhes impõe […]”.⁴⁵
A vivência da caridade, fonte de recompensas e “alegria espiritual”, foi o sustentáculo de uma vida de dificuldades. Marcante para Vicente foi o momento de sua prisão, que lhe deu ferimentos que o atormentariam pelo resto da vida. Capturado por corsários no mar Mediterrâneo em 1605, foi vendido a muçulmanos em algum local do norte africano, permanecendo por aproximadamente dois anos como escravo. Embora em uma situação de grande dificuldade, os poucos registros em suas cartas são demonstrações de coragem e resiliência.⁴⁶ A doença foi sua companheira. Junto aos problemas desse período, muitos são os relatos de insônia, febres, dores e feridas crônicas nas pernas, que não o impediram de trabalhar. Para ele, “só nossas obras nos acompanham à outra vida”, e que sejam “à custa de nossos braços; que seja com o suor de nosso rosto”.⁴⁷
Além disso, Vicente não esteve isento de dúvidas quanto à própria fé. Antes de abraçar sua verdadeira vocação, aparentemente ainda preocupado com sua carreira eclesiástica, teve grande decepção ao não conseguir manter o cargo de abade de São Leonardo de Chaumes. Nesse período, entre 1610 e 1616, seus biógrafos situam “forte tentação contra a fé”, corroborada por graves problemas de saúde, principalmente nas pernas.⁴⁸ Próximo de seus 30 anos, “a fé já não passa para ele de uma casca vazia. Ele sente sua vida ruir”. Encontraria saída na oração, mas principalmente no aumento da dedicação aos doentes do Hospital da Caridade, ao “tomar a decisão irrevogável de dedicar a vida aos pobres”.⁴⁹ Em 1625, faria seus votos perpétuos de pobreza e abriria mão de todos os cargos e benefícios.⁵⁰
Décadas após a vitória sobre a descrença, com idade já avançada, em seus 68 anos, “sofrendo das pernas de tal maneira que não consegue caminhar comodamente, com frequência acometido de febre”, passou a visitar suas principais instituições. Obrigado a permanecer em determinada região devido ao inverno rigoroso, aproveitou para evangelizar “nas imediações para não se sentir inútil”.⁵¹ Até sua desencarnação, suas dificuldades físicas cada vez mais graves não diminuíram sua vontade de trabalhar. Com dores que o impossibilitavam de andar ou cavalgar, problemas urinários e insônias, ainda se via cada vez mais só perante as partidas de seus companheiros mais próximos, como Louise de Marillac. Desencarnou em 27 de setembro de 1660, sentado em sua cadeira, de onde ainda atendia os sofredores.
Os frutos de todo esse esforço são hoje inquestionáveis. Já em 1960, as Filhas da Caridade administravam mais de quatro mil estabelecimentos, com cerca de 45 mil indivíduos; hoje, os padres lazaristas (da Congregação da Missão em São Lázaro) são 3,4 mil, distribuídos em 66 países de todos os continentes; a Sociedade São Vicente de Paulo, Organização Não Governamental (ONG) de status consultivo junto à Organização das Nações Unidas (ONU), possui 800 mil voluntários em 150 países; e a Associação Internacional das Caridades, essencialmente feminina e herdeira das Confrarias, possui mais de 200 mil voluntárias espalhadas pelo mundo.⁵²
O convite está feito.
////////////////// * N.A.: Expositor, escritor e trabalhador do Movimento Espírita de Juiz de Fora (MG).
REFERÊNCIAS:
¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024.
² KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024; O livro dos médiuns, 2a pt., cap. 24, it. 267; Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 4, n. 4, abr. 1862.
³ KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 3, n. 4, abr. 1860. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. Brasília, DF: FEB, 2025; ano 2, n. 12, dez. 1859.; ano 4, n. 4. n. 9, set. 1862.
⁴ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 17, it. 8; Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 10, jan. 1867; ano 8, abr. 1865.
⁵ KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 9. imp. Brasília, DF: FEB, 2022. 2a pt., cap. 31, it. XXIX e XXXII.
⁶ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017.
⁷ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. it. 12
⁸ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. it. 12.
⁹ SILVA, Daniel Salomão. Como Kardec lê a Bíblia? In: Reformador, p. 40 a 46, mar. 2022.
¹⁰ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 26.
¹¹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 40.
¹² GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 123.
¹³ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 226.
¹⁴ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 270.
¹⁵ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 119.
¹⁶ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 145.
¹⁷ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 310 e 313.
¹⁸ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 273.
¹⁹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 157.
²⁰ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 841.
²¹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 224.
²² GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 136.
²³ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 147, 283 a 304.
²⁴ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017, p. 196.
²⁵ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 137.
²⁶ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 141.
²⁷ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 144.
²⁸ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 297.
²⁹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 888.
³⁰ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 300.
³¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 888a.
³² GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 148.
³³ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 888a.
³⁴ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 147 e 148.
³⁵ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 454.
³⁶ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024; Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 1, n. 8, ago. 1858. A caridade (Sociedade de Estudos Espíritas, sessão de 8 de junho de 1858), perg. 2.
³⁷ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 152 a 155.
³⁸ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024. q. 888a.
³⁹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 446.
⁴⁰ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 322.
⁴¹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 226 a 233.
⁴² GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 242 e 257.
⁴³ KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 9. imp. Brasília, DF: FEB, 2022. 2a pt., cap. 31, it. XXX.
⁴⁴ KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 9. imp. Brasília, DF: FEB, 2022. 2a pt., cap. 31, it. XX.
⁴⁵ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 14. imp. Brasília, DF: FEB, 2024; O livro dos médiuns, 2a pt., cap. 31, it. XXVI.
⁴⁶ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 66.
⁴⁷ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 255.
⁴⁸ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 97 e 113.
⁴⁹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 99.
⁵⁰ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 219.
⁵¹ GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 405 e 406.
⁵² GUILLAUME, Marie-Joëlle. São Vicente de Paulo: uma biografia. São Paulo: Record, 2017. p. 476 e 478.