Revista Reformador

Riqueza e salvação*

Allan Kardec

Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia deduzir de certas palavras de Jesus, interpretadas segundo a letra, e não conforme o Espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, ideia que repugna à razão. Sem dúvida a riqueza é uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria, em virtude dos arrastamentos a que dá causa, pelas tentações que gera e pela fascinação que exerce. É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida sensual. É o laço mais poderoso que prende o homem à Terra e lhe desvia do Céu o pensamento.

A riqueza produz tal vertigem que, muitas vezes, aquele que passa da miséria à riqueza esquece depressa a sua primeira condição, os que com ele a partilharam, os que o ajudaram, e faz-se insensível, egoísta e vão. Mas, pelo fato de a riqueza tornar difícil a jornada, não significa que a torne impossível e não possa vir a ser um meio de salvação nas mãos daquele que sabe servir-se dela, como certos venenos podem restituir a saúde, se empregados a propósito e com discernimento.

Se a riqueza é a fonte de tantos males, se exacerba tanto as más paixões, se provoca mesmo tantos crimes, não é a ela que devemos inculpar, mas ao homem, que dela abusa, como de todos os dons de Deus. Se a riqueza só produzisse males, Deus não a teria posto na Terra. Compete ao homem fazê-la produzir o bem. Se não é um elemento direto de progresso moral, é, sem contestação, poderoso elemento de progresso intelectual.

* N.R.: KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo, cap. XVI – Não podeis servir a Deus e a Mamon, it. 7 “Utilidade providencial da riqueza. Provas da riqueza e da miséria”. FEB Editora. [Transcrição parcial. Título interpolado pelo Editor de Reformador.]