Um rico no Reino dos Céus
“[…] Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres
e terás um tesouro nos céus; vem e segue-me.” (Mateus, 19:21.)¹
Resumo
Para que um rico entre no Rei no dos Céus, é necessário que ele se liberte do fascínio da riqueza e se torne, pelo cultivo da caridade, um rico diante de Deus. O olhar que se volta para os ricos do Evangelho – o da Parábola do Rico e de Lázaro, o publicano Zaqueu e o moço rico – traz a percepção de que, com efeito, somente o desapego à riqueza, associado à prática da lídima caridade, é capaz de dar a um rico as condições morais indispensáveis para que tenha acesso aos páramos celestes.
Palavras-chave
Reino dos Céus; riqueza; caridade; ricos do Evangelho; desapego à riqueza.
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Poderia um rico entrar no Reino dos Céus? Essa pergunta surge naturalmente quando se considera a notória fascinação que os grandes patrimônios tendem a exercer sobre quem os possui, incentivando o apego aos bens da matéria em detrimento dos valores espirituais.
Jesus deixou estas graves advertências sobre a sedução da riqueza: “[…] Amém vos digo que um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus. Novamente, vos digo: É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:23 e 24)². A hipérbole de um camelo perfazendo a ação impossível de atravessar o orifício de uma agulha bem demonstra o teor do embaraço que o apego à riqueza oferece a quem pretende alcançar as esferas celestiais.
O Espiritismo leva à com preensão de que esse apego diminui à medida que o Espírito sofre a prova da riqueza e aprende a se libertar de seus atrativos.³ Tal caminho é, de hábito, longo e doloroso, haja vista os arrastamentos que a riqueza costuma gerar – situação que a torna “[…] uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria […]”⁴.
Todavia, a riqueza não é, em si mesma, um instrumento de perdição, visto que pode ser usada para acelerar o processo evolutivo. Dependendo da vontade de progredir, o rico na Terra pode enriquecer para Deus (Lucas, 12:21)⁵.
O que seria, contudo, enriquecer para Deus?
Esclarece a Doutrina Espírita que o objetivo da riqueza é implementar o bem.⁶ Inspirando-se no amor a Deus e ao próximo, o rico praticará a verdadeira caridade: aquela que soergue sem humilhar e dá sem pretender retribuição. Cabe ao detentor de uma grande fortuna, sobretudo, utilizar seus haveres para promover a qualidade de vida no planeta, por intermédio de trabalhos que possam evitar ou reduzir a miséria, espargindo o bem-estar em seu derredor⁷.
É de se ter em conta que a riqueza só é engenho do mal para quem se conserva jungido às coisas terrenas e surdo às necessidades sociais. O rico que une sua inteligência ao amor passa, naturalmente, a entesourar a riqueza dos sentimentos puros: a única que o engrandece aos olhos de Deus, garantindo-lhe o passaporte de entrada no Reino dos Céus.
As narrativas evangélicas apresentam a situação moral de alguns ricos, mostrando suas dificuldades de desapego à riqueza. Dentre os ricos do Evangelho, escolhemos três, de modo a prosseguir em nossos pensamentos.
O primeiro é o menciona do por Lucas (16:19 a 31)⁸ na Parábola do Rico e de Lázaro. Reproduzimos sua história empregando as cores de nossa palavra:
Havia um homem rico, que vestia roupas suntuosas e se regalava com os deleites da existência. Outro, de nome Lázaro, era muito pobre, maltrapilho e revestido de chagas.
Lázaro vivia às portas da soberba residência do rico, ansiando pelas migalhas que caíam de sua mesa requintada e farta. Entretanto, ninguém lhe mitigava a fome. Apenas os cães se condoíam de sua sorte, indo até ele para lambê-lo e acarinhá-lo.
O tempo passou e o pobre morreu, sendo conduzido pelos anjos ao seio de Abraão. O rico também morreu, imergindo-se nas chamas do sofrimento.
Em agonia, o rico avista Lázaro, ao longe, fruindo a felicidade junto do pai Abraão. Roga, pois, ao Pai que envie Lázaro para lhe dar um pouco de água, a fim de lenir a ardência de suas dores.
Abraão lhe diz, compassivo: Meu filho, lembra que viveste, despreocupado, no luxo, ao passo que Lázaro esmolava, enfermo, aflito por um pedaço de pão que nunca lhe veio à boca faminta. Agora, sofres, enquanto ele participa na minha paz. Daqui, onde ele está, não é possível ir ao local em que te encontras. Daí, onde estás, não podes vir para cá.
Então – replica o rico – eu te imploro, Pai, que Lázaro possa, ao menos, prevenir meus cinco irmãos da justiça de tua lei, para que não venham eles, de igual modo, para este lugar de pranto.
Eles têm Moisés e os profetas, que teimam em desconsiderar – responde o Pai –, logo, não se deixarão convencer, ainda que alguém se levante da morte.
Observamos, no caso, o jugo da riqueza sobre uma alma endurecida. Todo aquele que procede como esse rico assume os efeitos negativos de sua conduta, assim como quem pratica o bem recebe os bons frutos do bem que realiza. São esses os parâmetros inarredáveis da Lei de Causa e Efeito, que faz voltar a cada um o resultado de suas ações (Mateus, 16:27)⁹.
Em seguida, vem a figura de Zaqueu – o publicano. Passamos a narrar seu encontro com Jesus, segundo o registro de Lucas (19:1 a 10)¹⁰, usando, aqui e ali, os matizes de nossa interpretação.
Primeiramente, cumpre esclarecer que os publicanos eram funcionários encarregados de cobrar tributos, não só em Roma, mas em todas as regiões do Império. Em geral, gananciosos, enriqueciam à custa de lucros exorbitantes. Os judeus, particularmente, os desprezavam pelo fato de trabalharem para os invasores, e atingiam com o mesmo desprezo as pessoas de suas relações.¹¹ Zaqueu era chefe dos publicanos em Jericó, e, em consequência, visto como um pecador.
É de presumir que Zaqueu tivesse um grande vazio na alma – vazio que a riqueza não lograva ocupar. Daí sua ânsia de conhecer Jesus, buscando vê-lo, a todo custo, quando o Mestre atravessa Jericó. No entanto, a multidão o impedia, pois era de pequena estatura. Foi assim que decidiu subir em um sicômoro, que ficava no caminho de Jesus. O Mestre, por ali passando, levantou os olhos e disse a Zaqueu que descesse, pois era importante que o hospedasse em sua casa naquele dia. Em grande contentamento, o publicano enfrentou a aversão do ambiente em torno e recebeu Jesus no recinto do lar.
O desfecho do episódio é descrito por Lucas [19:8 a 19] nestes termos:
Ficando de pé, disse Zaqueu ao Senhor: Senhor, eis que dou metade de meus bens aos pobres e, se extorqui algo de alguém, restituo em quádruplo. Disse-lhe Jesus: Hoje, houve salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão. Pois o filho do ho mem veio buscar e salvar o que está perdido.¹²
O realce do acontecimento está na sensibilidade de Zaqueu. Embora absorvido nos interesses materiais, ele viu a luz, ao se deixar enternecer. O amor do Cristo o transformou, porque ele não era impregnado de frieza, qual o outro rico. Sem dúvida, poderia contar em ser acolhido no regaço de Abraão, ao lado de Lázaro.
Por último, destacamos o moço rico. É comovente adentrar nas sutilezas de seu diálogo com Jesus.
Mateus (19:16 a 22)¹³, Marcos (10:17 a 22)¹⁴ e Lucas (18:18 a 23)¹⁵ relatam a cena. Observa-se, na delicada e profunda interação de nossa personagem com Jesus, o conflito de um jovem que se esforça por cumprir os mandamentos da Lei de Deus, mas parece não compreender o verdadeiro significado desses princípios. Ele ama Jesus – a quem denomina Mestre –, mas não aceita a exigência de deixar seus bens materiais para segui-lo.
O moço rico, decerto, não se assemelha ao rico da parábola, que padece em razão de sua insensibilidade. É também diferente de Zaqueu, que escuta os rogos da consciência ao sentir o toque atencioso de Jesus. Ele é apenas um moço comum de sua época, no entusiasmo de suas forças físicas e de seus sonhos juvenis e, por isso mesmo, resistente às grandes renúncias. Ante a de terminação de se despojar de tudo aquilo que lhe possibilita fruir os prazeres da juventude, ele não vê outro caminho senão, atônito e triste, afastar-se de seu Mestre. Note-se, porém, que não lhe faltavam características espirituais para atender ao chamamento de Jesus, tanto assim que o Mestre lhe deu o ensejo de segui-lo. Não o fez, por livre escolha.
Ao analisar o colóquio do moço rico com o Cristo, não é difícil perceber o contraste entre o calor de sua expectativa e a força de sua decepção. Várias emoções afloram nes se jovem que procurou Jesus de boamente, desejando a vida eterna: confiança serena, alegria incontida e, por fim, tristeza inconsolável, acentuada por sua hesitação em obedecer ao chamado que lhe brotava da alma.
Expressamos nosso entendi mento das oscilações emocionais desse moço, que ansiava pela vida eterna, mas não suportou as condições para atingi-la, nos versos de um soneto, assim idealizado:
O Moço Rico
Mestre, como posso alcançar a vida eterna?
Um moço de finas vestes e ar sereno,
Assim indaga de Jesus em tom ameno,
De olhos confiantes e expressão fraterna.
Segue os mandamentos da permanente Lei,
Diz Jesus com semblante grave e olhar atento.
Replica o moço, em grande arrebatamento:
Faço assim desde que à mocidade eu cheguei.
Se pretendes então, desde já, ser perfeito
Continua Jesus ampliando o conceito
Vende o que tens, dá aos pobres e vem comigo.
O moço, atordoado, pensou, muito triste:
Será que a perfeição seguramente existe?
Sou muito rico para ir com o Mestre amigo.
Hoje, esse jovem rico, que sentiu o peso da frustração por seu comportamento vacilante, já se encontra, certamente, em avançado estágio espiritual e, se voltasse a viver entre nós, não relutaria em seguir o pobrezinho de Assis, libertando-se – como fez Francisco − das expectativas da Terra para amealhar, com Jesus, as riquezas do Céu.
Em suma, após considerar os impedimentos de ordem moral para atingir as regiões espirituais superiores, afigura-se válido concluir, respondendo à indagação de início apresentada, que o rico, preso à matéria e desatento a seus deveres sociais, sofrerá as dolorosas consequências de suas ações, antes de adquirir o beneplácito da consciência para entrar no Reino dos Céus.
N.A.: Membro do Conselho Superior da FEB. Articulista da revista Reformador. Tradutor dos livros: A história do espiritualismo, de Arthur Conan Doyle, e O elo perdido, de Leah Fox – Brasília (DF).
REFERÊNCIAS:
¹ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
² DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
³ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 16, it. 8.
⁴ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 16, it. 7.
⁵ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
⁶ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 16, it. 7.
⁷ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. cap. 16, it. 13.
⁸ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
⁹ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
¹⁰ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
¹¹ KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 15. imp. Brasília, DF: FEB, 2023. Introdução, it. III – Notícias históricas, it. Publicanos.
¹² DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
¹³ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
¹⁴ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.
¹⁵ DIAS, Haroldo Dutra (Trad.). O novo testamento. 1. ed. 16. imp. Brasília, DF: FEB, 2025.