Revista Reformador

O espírita e o compromisso eleitoral

Aylton Paiva*
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Resumo

O presente artigo aborda o posicionamento do espírita diante do processo eleitoral brasileiro, que compreende a escolha de deputados estaduais, deputados federais e senadores para o Poder Legislativo, bem como prefeitos, governadores e presidente da República para o Poder Executivo, conforme estabelece a Constituição da República Federativa do Brasil. Analisa-se a responsabilidade do eleitor à luz da ética espírita e os critérios que devem orientar a escolha de candidatos. Discutem-se, ainda, as ideologias de extrema direita e de extrema esquerda e os princípios éticos da Doutrina Espírita.

Palavras-chave

Eleição; ética espírita; democracia; responsabilidade; extremismos; critérios espíritas.

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Sob o aspecto filosófico o Espiritismo relaciona-se com a política, uma vez que esta deve ser compreendida como a arte de administrar a sociedade de forma justa. Conforme exposto na obra Espiritismo e política¹, a atuação política precisa estar fundamentada em valores morais que promovam o bem comum.

Em anos eleitorais, a sociedade brasileira, organizada sob o regime democrático, convoca seus cidadãos ao exercício do voto para a escolha de representantes nos Poderes Legislativo e Executivo. Cada eleitor assume, portanto, significativa responsabilidade na definição dos rumos da nação.

Diante de um cenário político frequentemente marcado por polarizações e extremismos ideológicos, torna-se necessário refletir sobre quais critérios devem nortear o voto do cidadão espírita.

No contexto eleitoral brasileiro, são escolhidos deputados estaduais, deputados federais e senadores para o Poder Legislativo, bem como prefeitos, governadores e presidente da República para o Poder Executivo. O exercício da democracia pressupõe participação consciente e responsável.

Entretanto, observa-se a presença de candidaturas vinculadas a ideologias que transitam entre a extrema direita e a extrema esquerda, como o fascismo e o comunismo. O primeiro caracteriza-se pelo ultranacionalismo, autoritarismo, culto ao líder, militarização da sociedade e supressão da oposição. Já o segundo propõe a abolição da propriedade privada, dos meios de produção, das classes sociais e do próprio Estado, defendendo a propriedade coletiva e a igualdade absoluta.

Diante desse panorama, surge a indagação: pode o espírita alinhar-se a tais correntes ideológicas?

Para responder a essa questão, faz-se necessário analisar os fundamentos da ética espírita, conforme apresentados em O livro dos espíritos, de Allan Kardec, especialmente na Parte Terceira – Das leis morais². Entre os princípios destacados na referida obra, encontram-se:

• Adorar a Deus é fazer o bem e evitar o mal (q. 654).

• Trabalho é toda ocupação útil (q. 675).

• O uso dos bens da Terra é direito de todos (q. 711).

• O relaxamento dos laços de família decorre do egoísmo (q. 775).

• O maior obstáculo ao progresso é o orgulho e o egoísmo (q. 785).

• Perante Deus, todos são iguais (q. 803).

• A desigualdade social não é obra divina, mas humana (q. 806).

• A legítima propriedade é a adquirida sem prejuízo de outrem (q. 884).

• A justiça consiste em res peitar os direitos dos demais (q. 875).

Observa-se que a ética espírita se fundamenta na justiça, na igualdade essencial entre os seres humanos, na responsabilidade individual e no respeito aos direitos recíprocos. O amor ao próximo, sintetizado no ensinamento de Jesus – “Amai-vos uns aos outros” – amplia-se para além das relações individuais, alcançando o compromisso social.

Assim, o espírita, tanto como candidato quanto como eleitor, deve pautar suas escolhas e posicionamentos nos valores morais da Doutrina Espírita, analisando não apenas o discurso dos candidatos, mas sobretudo sua conduta e coerência ética.

O exercício do voto representa um ato de responsabilidade moral e social. Para o espírita, essa responsabilidade deve estar alinhada aos princípios da Doutrina Espírita, especialmente aos ensinamentos contidos em O livro dos espíritos.

Ideologias extremistas, sejam de extrema direita ou de extrema esquerda, ao se estruturarem em fundamentos que contrariam valores como a justiça, o respeito aos direitos individuais, a liberdade e a fraternidade, não se harmonizam com a ética espírita. Portanto, o cidadão espírita deve avaliar cuidadosamente os candidatos, buscando coerência entre propostas, conduta pessoal e os princípios morais que orientam sua fé. Fora desse parâmetro, a análise poderá basear-se apenas em opiniões pessoais, distanciando-se da ética que a Doutrina propõe.

Já se indagou: Como o espírita deve atuar na política?

1) O espírita deve estudar e reflexionar sobre os princípios filosóficos e suas consequências religiosas e políticas no Centro Espírita, pois eles estão contidos em O livro dos espíritos, Parte Terceira – Das leis morais;

2) Mediante a análise, o estudo e a reflexão das normas e princípios referidos, o espírita deve identificar o egoísmo, o orgulho e a injustiça nas instituições humanas, revelando-as e agindo para que elas desapareçam da sociedade humana;

3) Confrontar os fundamentos morais e objetivos do Espiritismo com fundamentos morais e objetivos dos par tidos políticos, verificando de forma coerente qual ou quais deve apoiar e até mesmo participar como membro atuante, se tiver vocação para tal;

4) Participar de organizações e movimentos que propugnem pela justiça, pelo amor, pelo progresso intelectual, moral e físico das pessoas e aprimoramento da sociedade. Exemplo: clubes de sindicatos, associações de classes, diretórios acadêmicos, movimentos de respeito e defesa dos direitos humanos, ONGs etc.;

5) Fazer do voto um elevado testemunho de amor ao próximo;

6) Participar de agremiação partidária, se assim o desejar, sabendo, no entanto, da responsabilidade que assume nesse campo, já que sua militância deve sempre estar voltada para o interesse do ser humano, em seus aspectos social e espiritual. Para isso, sua ação política deverá estar em harmonia com os valores éticos (morais) do Espiritismo que, em última análise, são fundamentalmente os mesmos do Cristianismo.

Desse modo, e considerando que a sociedade, nos sistemas democráticos, é dirigida por políticos que saem das agremiações partidárias para comporem os Poderes Legislativo e Executivo e que suas ações podem ajudar ou retardar a evolução intelecto-moral da Humanidade, o voto consciente é uma forma de exprimir o amor ao próximo e à coletividade.

Deve-se, pois, analisar se a conduta do candidato político-partidário tem maior ou menor relação com os princípios morais e filosóficos do Espiritismo. Afinal de contas, a missão dos Espíritos encarnados, segundo os Imortais que ditaram a Codificação do Espiritismo a Allan Kardec, consiste em “[…] instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais. […]”³.

Preencherão nossos candidatos tais requisitos?

*N.A.: Diretor da Casa dos Espíritas de Lins. Ex-presidente da USE-Municipal de Lins, USE-Regional Bauru, Diretor dos Departamentos Orientação Doutrinária e Assistência e Promoção Social da USE-São Paulo, Secretário da Comissão Regional Sul do CFN, escritor, articulista e palestrante espírita – Lins (SP).

REFERÊNCIAS:
¹PAIVA, Aylton Guido Coimbra. Espiritismo e política: contribuições para a evolução do ser e da sociedade. 1.ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2014. Apresentação.
²KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 11. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2022.
³KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 11. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2022. q. 573.