Revista Reformador

Transtorno do espectro autista e missão espiritual

Ailton Barcelos da Costa*
[email protected]

Resumo

Vez por outra ainda se ouve dizer que as crianças com autismo são Espíritos Superiores reencarnados em missão espiritual entre nós, um mito ainda propagado no meio espírita. Ignoramos a real condição de cada um deles, muitas vezes enfrentando graves limitações no cotidiano, mesmo com os casos ditos “leves”.

Palavras-chave

Missão espiritual; reencarnação; autismo.

•

Estamos acostumados a ouvir, com certa frequência, que crian ças com autismo ou o Transtorno do Espectro Autista (TEA) se riam “gênios” ou “Espíritos eleva dos em missão”. Algumas dessas generalizações ganharam força a partir de falas de palestrantes espíritas renomados, o que, longe de esclarecer, acaba por gerar desengano e confusão. Afinal, o filho, o sobrinho ou o aluno com autismo que muitas pessoas conhecem nem sempre se encaixam nesse estigma idealizado.

Quando buscamos a literatura espírita especificamente sobre o TEA, percebemos que ela ainda é escassa e, quando disponível, muitas vezes imprecisa, sobretudo se comparada ao entendimento cada vez mais aprofundado produzido pela Ciência.

Antes de avançarmos, é necessário apresentar a definição e as principais características do TEA, uma vez que nem todos estão familiarizados com a classificação científica atual. O TEA caracteriza-se por um desenvolvimento acentuadamente atípico na interação social e na comunicação interpessoal, além de um repertório restrito e repetitivo de atividades e interesses, podendo levar ao isolamento social persistente (DSM-5)¹. De acordo com o DSM-5-TR², o TEA é classificado conforme a gravida de relacionada à interação social e à comunicação, variando em três níveis: 1) necessidade de apoio; 2) necessidade de apoio substancial; 3) necessidade de apoio muito substancial.

Mas, afinal, todas ou parte das pessoas com TEA seriam missionárias? Para responder a essa pergunta, é indispensável retomar o conceito de missão à luz de O evangelho segundo o espiritismo:

[…] Pode, pois, um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são, especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar. […]³

Em O livro dos espíritos,⁴ especialmente nas questões 571 a 578, aprendemos que as missões são desempenhadas de acordo com o grau evolutivo do Espírito. Assim, Espíritos em diferentes níveis podem desempenhar missões variadas, desde as mais simples até as de grande alcance. Essas missões são, em geral, solicitadas pelos próprios reencarnados, embora nem todas as solicitações sejam aceitas.

O objetivo comum das missões é auxiliar a Humanidade em seu progresso, seja de forma direta, seja por meio da melhoria das instituições humanas. Isso pode ocorrer na religião, na Ciência, nas artes, na educação, na música, entre outros campos.

Importante destacar que, para a Doutrina Espírita, o conceito de missão não possui caráter exclusivo nem estrita mente pessoal. Reconhece-se que alguém possui uma missão na Terra pelas obras que realiza e pelos progressos que promove em benefício do próximo. Em alguns casos, Espíritos com missões relevantes são escolhidos antes do nascimento; contudo, o mais comum é que tragam apenas um objetivo geral, que se delineia ao longo da encarnação, conforme as circunstâncias da vida.

A questão 578 de O livro dos espíritos ainda esclarece que um Espírito pode falhar em sua missão, pois somente os Espíritos puros estão livres do fracasso. Nesses casos, a consequência natural é a necessidade de reparar o mal causado e retomar a tarefa interrompida, o que se harmoniza com o momento evolutivo atual da Terra, de transição entre os mundos de provas e expiações e de regeneração.

Ao falarmos de pessoas com autismo, é fundamental lembrar que o TEA é compreendido pela Ciência como um espectro caracterizado por ampla variabilidade de manifestações. Além das dificuldades na interação e na comunicação social, estima-se que cerca de 40% dessas pessoas não desenvolvem linguagem verbal funcional, e proporção semelhante apresente deficiência intelectual. Por outro lado, pesquisas indicam que aproximadamente 3% desse grupo possui altas habilidades/superdotação, ou seja, inteligência significativa mente acima da média.

Esses dados evidenciam que grande parte das pessoas com TEA enfrentam provas e expiações particularmente desafiadoras, em razão de limitações severas na comunicação, na convivência social, na autonomia pessoal e, em muitos casos, na capacidade intelectual. Estudos internacionais mostram que poucas pessoas com TEA concluem o ensino médio, sendo ainda mais rara a conclusão do ensino superior ou da pós-graduação, geralmente restrito aos casos ditos “leves”.

Entretanto, há também pessoas com TEA que vivenciam encarnações relativamente “funcionais”, apresentando menores limitações sociais, comunicacionais e cognitivas. Essas pessoas podem exercer atividades profissionais, manter algum grau de convívio social, concluir sua escolarização, contrair matrimônio, ter filhos, mesmo com muitos desafios, e alcançar boa autonomia na vida diária.

Diante disso, torna-se um equívoco atribuir automaticamente o rótulo de Espíritos Superiores e missionários de modo generalizado a todas as pessoas com TEA. Qualquer Espírito pode desempenhar missões de diferentes naturezas e alcances, inclusive aqueles com TEA ou com qualquer outra deficiência. Contudo, para muitos destes, a experiência encarnatória parece mais compatível com provas e expiações dolorosas do que com missões de grande vulto.

Isso não impede, contudo, que pessoas comuns – com ou sem autismo – desempenhem missões de pequeno ou médio alcance, no âmbito familiar, comunitário ou local. Entre essas missões, destacam-se aquelas em que o indivíduo se torna exemplo de resignação, perseverança e esforço contínuo para se integrar à sociedade. Para muitas pessoas com TEA, conviver e participar socialmente já constitui, por si só, um testemunho extraordinário, e mais ainda desempenhar uma atividade profissional.

Quando falamos de grandes missões, com impacto nacional ou mundial, estamos diante de casos raríssimos. Nesse contexto, enquadram-se sobretudo indivíduos com capacidades intelectuais ou criativas muito acima da média, em áreas como os tipos e inteligência que a Ciência prevê, que são: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal ou naturalista.

A ciência denomina esse fenômeno de dupla excepcionalidade, definida por Alves e Nakano (ver a p. 347)⁵, como a coexistência de alta performance, talento ou potencial elevado com alguma condição psiquiátrica, educacional, sensorial ou física. Trata-se de indivíduos que, ao mesmo tempo em que demonstram capacidades superiores em determinadas áreas, apresentam limitações significativas em outras.

Entre esses casos estão pessoas com TEA com desempenho excepcional em campos específicos, como música, artes, esportes ou Ciência. Mesmo enfrentando limitações importantes, conseguem realizações de grande im pacto, o que permite associá-las, com mais propriedade, à ideia de missões de grande porte. São frequentemente citados como exemplos – ainda que com de bates históricos e diagnósticos retrospectivos – nomes como Albert Einstein, Mozart, Nikola Tesla, e atualmente Temple Grandin, Bill Gates, dentre outros.

Muitas vezes estas “missões” são fruto de muita renúncia na vida pessoal, com dificuldade de comunicação, tanto verbal como não verbal, de convivência social, ou até a ausência de uma família constituída. O desempenho extraordinário em uma área de atuação é favorecido por uma característica das pessoas com TEA, o hiperfoco, que é uma capacidade de concentração in tensa e profunda em um ou mais assuntos específicos.

Em síntese, o conceito de missionário, à luz do Espiritismo, é amplo e não exclusivo. Muitos de nós, com ou sem deficiência, desempenhamos pequenas missões de auxílio e transformação no cotidiano, afinal ainda estamos em um mundo de provas e expiações. As grandes missões, contudo, são reservadas a raríssimos Espíritos, entre os quais poderia haver um grupo bastante específico de pessoas com TEA: aquelas que reúnem capacidades extraordinárias e condições de impactar significativamente o progresso humano.

*N.A.: Doutor em Educação Especial, é uma pessoa com TEA e Superdotação. É pesquisador, escritor espírita e médium – São Carlos (SP).

REFERÊNCIAS:
¹AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Trad. Maria Inês Corrêa Nascimento; et al. 5. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2014.
²AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre, RS: Artmed, 2023.
³KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 16. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2022. cap. 5, it. 9.
⁴KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 11. imp. (Edição Histórica). Brasília, DF: FEB, 2022.
⁵ALVES, Rauni Jandé Roama; NAKANO, Tatiana de Cássia. Desempenho criativo e suas relações com diferentes medidas de inteligência em crianças com dislexia do desenvolvimento: um estudo exploratório. In: Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 28, p. 280 a 291, 2015.


⁵ALVES, Rauni Jandé Roama; NAKANO, Tatiana de Cássia. Desempenho criativo e suas relações com diferentes medidas de inteligência em crianças com dislexia do desenvolvimento: um estudo exploratório. In: Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 28, p. 280 a 291, 2015
.